A Atividade de Inteligência e a “Arapongagem” II

O 11 de setembro e o Compartilhamento de Informações

Fabio Costa Pereira
Sobre o Autor: Procurador de Justiça no Estado do Rio Grande do Sul, Presidente da Associação Brasileira de Estudos da Inteligência e Contra Inteligência (ABEIC), Especialista em Inteligência Estratégia na Escola Superior de Guerra (ESG), Segurança e Defesa Nacionais, além de Auditor do Instituto de Defesa Nacional de Portugal.

Naquela manhã de terça-feira, no final do verão no hemisfério orte, centenas de milhares de pessoas, para não dizer milhões, despertaram-se como se aquele dia fosse mais um dia normal de trabalho e de estudo, lançando-se às ruas para realizarem as suas atividades comezinhas.

No entanto, não se tratava aquele dia de um dia normal, era a sua sina, par e passo com o “Dia da Infâmia”[1], entrar para história da humanidade, de forma negativa e pejorativa, como o dia que mudou o nosso mundo interconectado[2].

Claro que todos já perceberam que eu estou falando do 11 de setembro de 2001, triste dia em que terroristas de vertente religiosa, diante de uma caótica tradução dos desejos divinos, imolaram as suas vidas, bem como a de milhares de inocentes, em nome daquilo que absurdamente consideravam como a expressão de sua fé.

A derruíção das Torres Gêmeas do World Trade Center, em decorrência da ação dos terroristas, diante de enorme audiência televisiva e o testemunho de milhões e milhões de espectadores ao redor do globo, conferiu-nos a certeza de que uma nova era de medo e insegurança estava a começar.

Se os Estados Unidos, a nação mais poderosa do planeta, com todos os recursos humanos, econômicos e materiais que possuía para garantir a segurança e a defesa de seus cidadãos, foi o alvo de um atentado daquela envergadura, o que poderiam esperar os demais países mundo afora?

O medo provocado por aquele atentado e a franca possibilidade de sua replicação, moldou comportamentos, tanto das populações em geral quanto das autoridades estatais, fazendo com que as normas de segurança fossem recrudescidas, em especial as relativas aos transportes aeroviários. Viajar de um país para o outro se tornou difícil empreitada.

Após o atentado terrorista de 11 de setembro, nos Estados Unidos, ainda como sua consequência, inúmeras comissões oficiais foram instauradas para apurar o motivo de tão catastrófica falha nos mecanismos de segurança, defesa e inteligência que propiciaram que os terroristas que o cometeram, literal e abstratamente, voassem abaixo dos radares de detecção e neutralização estatal.

Como sempre ocorre em todo e qualquer “acidente”, múltiplas foram as causas que deram vezo ao 11 de setembro, sendo uma delas, e a mais decisiva, diga-se de passagem, a falta do compartilhamento de informações sensíveis entre os órgãos de inteligência daquele país.

Partindo da premissa de que informação é poder e que não se pode confiar no “distintivo” ao lado,  porquanto competidor no mesmo “mercado” de informações e influência, as agências de inteligência norte-americanas, naquela altura, muito embora tivessem todo o conhecimento necessário para evitar a tragédia, desde que agrupadas e devidamente analisadas, optaram por manter o que possuíam consigo e não compartilhar com as demais agências coirmãs.

Como resultado, os pontos não foram conectados e o completo cenário de ameaças, que levaria ao desvelamento das intenções terroristas, com a necessária antecedência, deixou de ser construído.

Tal qual um Black Swan (Cisne Negro), de difícil previsão e com resultados devastadores, as explicações que se sucederam ao september eleven mostraram os evidentes e inaceitáveis erros cometidos pela inteligência norte-americana.

O que o 11 de setembro trouxe como lição a ser aprendida por todos os órgãos dedicados à atividade de inteligência e pelos tomadores de decisão, é que o não partilhar informações, no mais das vezes, é muito mais perigoso e danoso para o país, para a democracia, para a sociedade e para a população, do que as compartilhar.

Um sistema onde as frações que o compõem não dialogam entre si, trocando expertises, conhecimentos e informações em proveito do trabalho a realizar, no caso das inteligências para proteger e preservar a nação, as suas instituições e os direitos e garantias individuais, não é um sistema, é apenas um amontoado de agências e instituições sem quaisquer objetivos em comum.

O compartilhar informações, no universo da intelligence, segue protocolos rígidos, dando-se apenas entre os integrantes do sistema, na exata medida da necessidade de conhecer do destinatário da informação a ser compartilhada e na justa extensão do que aquele necessita saber para cumprir a sua missão, nem uma informação a menos ou a mais.

E mais, o compartilhamento de informações entre órgãos e agentes de inteligência, interna e externamente à dada instituição, não é “gandaia” e, muito menos, confunde-se com mera curiosidade sobre a vida alheia para fins espúrios.

A restrição do compartilhamento de informações, determinadas de fora para dentro, por quem não conhece e não sabe as nuances do funcionamento das intelligences, mais além do que as hipóteses já alinhavadas legalmente, importa na imposição de indevidas amarras à eficiência do sistema

Por esse motivo, toda a vez que escuto que se deve restringir, ainda mais, as já restritas hipóteses de compartilhamento de informações de inteligência, cuja a síntese é a  necessidade de conhecer, invade-me a certeza de que estamos adotando a fórmula de sucesso para o fracasso de toda a inteligência nacional, em prejuízo do que e de quem ele visa proteger.

Na semana que vem falaremos sobre a produção de “dossiês” pelos serviços de inteligência.

[1] No dia 07 de setembro de 1941, o Japão, valendo-se do elemento surpresa, enquanto ainda entabulava uma saída pacífica para evitar possível confronto bélico entre ele e os Estados Unidos, atacou a base naval de Pearl Harbor, no Havaí, provocando a morte de mais de 3500 pessoas e a perda de inúmeros navios de combate norte-americanos. No dia seguinte, perante o Congresso Nacional, o Presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt chamou o dia do ataque como o Dia da Infâmia.

[2] O maior clichê criado com o 11 de setembro é de que ele, para bem ou para o mal, mudou o nosso mundo. Segundo BRIAN FROST (Terrorism, Crime, and Public Policy. Primeira edição, p. 1. New York: 2009.), pesquisador da American University, clichê ou não, os ataques terroristas demonstraram a vulnerabilidade das sociedades abertas e democráticas, produzindo enormes mudanças no que ele chamou ser o nosso mundo interconectado.

Fonte: https://www.tribunadiaria.com.br/ler-coluna/495/a-atividade-de-inteligencia-e-a-ldquo-arapongagem-rdquo-ii.html



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