A doutrina de emprego do sistema Astros: Apoio logístico ao grupo de mísseis e foguetes

O presente artigo baseia-se em práticas e observações colhidas de manuais doutrinários da Força Terrestre (F Ter) e visa a esclarecer alguns fatos e a tecer algumas considerações do apoio logístico ao Grupo de Mísseis e Foguetes (GMF) nas operações.

Vale ressaltar que o presente trabalho ainda não se constitui em fundamento doutrinário, mas destina-se a orientar o planejamento em exercícios de combate e os temas de estudo das escolas militares, bem como preparar uma nota doutrinária sobre o assunto.

Sua pertinência é fato, uma vez que o apoio logístico proveniente do escalão apoiador ao grupo de mísseis e foguetes ainda não é bem delineado dentro da estrutura operacional da artilharia de mísseis e foguetes do Exército Brasileiro (EB).

Assim, para melhorar o entendimento sobre o presente tema e como considerações iniciais vale registrar os princípios da logística, os quais devem sempre ser considerados e determinantes para a escolha de qualquer linha de ação tática. Outra informação válida nesse momento, refere-se à configuração da cadeia logística, a qual se baseia no acrônimo FAMES:

  • Flexibilidade (estruturas com mínima rigidez preestabelecida);
  • Aptabilidade;
  • Modularidade (a partir de uma estrutura básica mínima, receber módulos que lhe ampliem seu poder de combate ou lhe agreguem capacidades);
  • Elasticidade; e
  • Sustentabilidade.

A expressão “logística na medida certa” sintetiza a capacidade que EB possui de prever e prover o apoio logístico necessário para garantir maiores possibilidades nas operações, seja em alcance, em manobra e/ou duração em combate, sempre levando em consideração os princípios da logística e a sigla FAMES.

Com relação aos níveis de execução e de articulação da logística em operações, registra-se que existe a necessidade de a cadeia logística estar presente, desde a zona de combate (níveis I e II), zona de administração (nível III) até a zona de interior (nível IV).

Entende-se como atividades logísticas da Força Terrestre os seguintes campos de atuação: saúde, engenharia, transporte, manutenção, salvamento, recursos humanos e suprimento.

Dessa forma, este artigo alerta sobre a necessidade de maiores esclarecimentos e padronizações sobre o apoio logístico ASTROS (Artillery Saturation Rockets System, em inglês), nas funções: transporte (Trnp), manutenção (Mnt), suprimento (Sup) e salvamento (Slv), pois, devido às características do sistema, são essas que necessitam de uma previsão particular e pormenorizada.

O CENTRO DE LOGÍSTICA DE MÍSSEIS E FOGUETES

No ano de 2018, o Centro de Logística de Mísseis e Foguetes (C Log Msl Fgt) foi concebido com o intuito de convergir esforços e estruturar o apoio prestado aos GMF, em tempo de paz (zona de interior).

O centro é responsável também pelo planejamento, pela coordenação, pela implantação e pelo controle do suporte logístico integrado (SLI) do sistema de mísseis e foguetes, que tem como objetivo obter altos índices de disponibilidade do material do programa ASTROS e reduzir os custos com o ciclo de vida desse produto estratégico de defesa.

Como visto na Figura 3 (galeria de fotos abaixo), a organização militar logística do Forte Santa Bárbara (FSB) não é operacional. Essa unidade atua somente na zona de interior, contradizendo o entendimento sobre os níveis de execução e articulação da logística em operações.

A magnitude que envolve a constituição organizacional do ASTROS leva em consideração o elevado consumo de suprimentos das classes III e V, aliado à complexidade do transporte e do manejo desses materiais, nas operações. A continuidade e o sucesso nessas atividades dependem da doutrina, envolvendo o planejamento e a execução de toda a cadeia logística de apoio aos GMF.

Evidencia-se, também, que o sistema consegue atuar desde os mais altos escalões de artilharia (batendo prioritariamente alvos de níveis estratégico e operacional – centro de gravidade inimigo) até os escalões subordinados que necessitem de apoio de fogo adicional (alvos em nível tático).

A CAPACIDADE DE MANUTENÇÃO ORGÂNICA DOS GRUPOS DE MÍSSEIS E FOGUETES

Os grupos de mísseis e foguetes possuem a capacidade de realizar a manutenção orgânica, como segue:

  1. Viaturas blindadas oficinas (VB Ofn), orgânicas das baterias de mísseis e foguetes (Bia MF), são capazes de oferecer manutenção até o 3º escalão aos usuários (Gp Log da Seç Cmdo da Bia MF);
  2. Pessoal logístico, que mobilia a turma de Mnt do Gp Log da Seç Cmdo da Bia MF, é capacitado para atuar, também, até o 3º escalão – com auxílio da viatura blindada remuniciadora ASTROS (VB Remn) –, pois muitas das manutenções superiores ao 1º escalão, pela característica do peso do material tratado, têm necessidade do uso do guindaste para acesso a determinados componentes (desde que naquele momento não comprometa o emprego da Vtr no remuniciamento das lançadoras múltiplas universais – LMU); e
  3. Todas as Vtr ASTROS possuem, como componente, cofres de ferramentas para realização das manutenções de 1º escalão e de 2º escalão, havendo necessidade da viatura oficina para realizar todo o 3º escalão de manutenção e para complementar o ferramental de 2º escalão como, por exemplo, o torquímetro.
“Outro fator que também influencia na gestão da manutenção orgânica dos GMF está ligado ao BACKLOG¹, pois ultrapassando uma medida de tempo pré-estimada – possivelmente pelo oficial de logística (E4) da força enquadrante (em caso de operações) – a viatura ou o componente danificado deverá ser transferido da área de trens da bateria até a área de trens do grupo, assim, sucessivamente, até chegar à AVIBRAS².”

A estrutura organizacional de escalões de manutenção dentro do EB estabelece que o usuário deva realizar a manutenção dos equipamentos até o 1º escalão, porém não existe empecilho para exceção à regra, como é o caso da Aviação do Exército.

O CENTRO DE LOGÍSTICA DE MÍSSEIS E FOGUETES: UMA NOVA PROPOSTA OPERATIVA/OPERACIONAL

Quando ativada em operações, a estrutura organizacional do Cmdo Art Ex é denominada de Cmdo Art da Força Terrestre Componente (FTC). Sendo assim, o mesmo poderá ocorrer com a organização militar logística do Forte Santa Bárbara, podendo vir a evoluir para um batalhão de manutenção, suprimento, transporte e salvamento de mísseis e foguetes (B tl Mnt Sup Trnp Slv Msl Fgt), com a estrutura descrita abaixo.

  1. Comando (Cmdo) e seu Estado-Maior (EM);
  2. Centro de Operações Logísticas (COL);
  3. Companhia de Comando e Serviço (Cia Cmdo Sv);
  4. Companhia Logística de Manutenção de Mísseis e Foguetes (Cia Log Mnt Msl Fgt);
  5. Companhia Logística de Suprimento de Mísseis e Foguetes (Cia Sup Mnt Msl Fgt); e
  6. Companhia Logística de Transporte e Salvamento de Mísseis e Foguetes (Cia Trnp e Slv Msl Fgt).

NÍVEIS DE APOIO DO BATALHÃO DE MANUTENÇÃO, SUPRIMENTO, TRANSPORTE E SALVAMENTO DE MÍSSEIS E FOGUETES

Para melhor se enquadrar na estrutura logística vigente no EB, o Btl Mnt Sup Trnp Slv Msl Fgt deve operar, de forma plena (ideal para a força), nos quatro níveis de articulação da logística militar, durante as operações – com a flexibilidade de módulos para exercer as funções logísticas de manutenção, suprimento, transporte e salvamento, nos níveis I, II e III.

Os módulos, de acordo com a conveniência e possibilidades, devem atuar dentro das seguintes estruturas logísticas já desdobradas no terreno:

  • Nível I Mnt – Módulo 1: em reforço (área de trens do grupo ou bateria), como apoio direto a um grupo ou bateria e/ou inserido na base logística de brigada mais central da área de ação do GMF;
  • Nível II Mnt – Módulo 2: inserido na base logística terrestre mais eixada com os elementos do GMF apoiados à frente ou eixada com a estrutura logística à frente que também presta apoio ao grupo; e
  • Nível III Mnt – Módulo 3: inserido na base logística conjunta eixada com os elementos do GMF apoiados à frente ou eixada com a estrutura logística à frente que também presta apoio ao grupo.

Deve, também, possuir flexibilidade diante das estruturas dispostas no terreno, sendo necessária a realização de um estudo (nível estado-maior) para a definição de qual órgão logístico, já desdobrado, receberá os meios (módulos) do Btl Mnt Sup Trnp Slv Msl Fgt.

A unidade de comando, a localização, o aproveitamento de instalações, a economia de meios, o esforço principal, a proximidade dos objetivos e outros aspectos serão levados em consideração, conforme os princípios da logística descritos na Figura 1.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A doutrina de emprego dos GMF permite que suas Bia MF sejam empregadas, quando desejado, de forma descentralizadas e a grandes distâncias uma das outras, dificultando o fluxo logístico interno do grupo.

Consequentemente, para facilitar e não sobre carregar as missões das áreas de trens (AT) dos GMF, é factível que o apoio seja prestado de forma descentralizada. Diante do exposto, para que os módulos (1, 2 e 3), quando ativados, possuam a capacidade desejada deverão ser divididos em duas equipes.

  • Fonte: Revista Doutrina Militar Terrestre (N° 20 – Out/Dez 2019)

Glossário:

(1) BACKLOG: é a medida de tempo que uma determinada equipe finaliza um serviço específico;

(2) Avibras Indústria Aeroespacial é uma companhia brasileira que projeta, desenvolve e fabrica produtos e serviços bélicos. Sua escala de produção abrange desde artilharia e sistemas bélicos aéreos até mísseis e foguetes.

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