A Sublime Estratégia Dos EUA Em Retirar Suas Tropas Do Iraque

Paraquedistas dos EUA destacam-se para o Kuwait diretamente da Pope Air Force Airfield, na Carolina do Norte, em 1º de janeiro de 2020.

A noite de 20 de março de 2003 ficou enraizada na memória dos cidadãos iraquianos que, temerosos e em aflitos, viram o país ser invadido pelas milhares de forças ofensivas americanas pelo ar e mar que abriram caminho para forças terrestres ao bombardearem centros de comunicação, unidades de artilharia e infraestruturas do governo. Muitos ainda acreditam que os preparativos para a invasão ocorreu naquele ano, porém, todo o cenário se desenrolou no início de 2002, após os americanos efetuarem centenas de ataques no oeste do Iraque concentrado de unidades e forças aliadas, feitos que definhou consideravelmente a coluna de defesa um ano antes da Operação Liberdade do Iraque de 2003, além de instigar Saddam Hussein a mover forças e retaliar.

Na época, o presidente George Bush declarou que a invasão era “os estágios iniciais do que será uma campanha ampla e combinada”, um ambiente que tornou o beligerante cansativo, árduo e vingativo, com constantes emboscadas e baixas americanas, do Reino Unido e da Austrália. Ao todo, mais de 150 mil militares aliados participaram da guerra, incluindo milhares de dispositivos avançados em terra, ar e mar. Passaram-se quase nove anos, e o dia 21 de outubro de 2011 ficou marcado como o fim da guerra do Iraque, após Barack Obama anunciar o retorno dos trinta e nove mil soldados restantes, um feito previamente definido através de acordos de segurança e que tornou a relação diplomática entre as nações mais majestosa. Apesar do anuncio, a total retirada seria catastrófica para a política do país e ao fortalecimento de grupos terroristas, para isso seria necessário fortalecer as forças armadas iraquianas e, gradualmente, retirar ou transferir os milhares de contingentes americanos.

Ao se lançar como candidato à presidência da Casa Branca, Donald Trump debateu uma das questões mais importantes e ácidas dos cidadãos, a permanência de tropas americanas no Iraque e no Afeganistão. No dia 27 de abril de 2016, Donald Trump, ainda como candidato republicano, discursou em evento privado no Hotel Mayflower de Washington, e sublinhou que os presidentes passados tinham prendido os EUA em muitas guerras estrangeiras, caras e opressivas, e contornaria essa situação caso subisse à presidência, um claro sinal de rompimento com as cabeças mais intervencionistas e doutrinadas do próprio partido, um dos culpados pela Guerra do Iraque e pela relação conflituosa entre Washington e Moscou, segundo Trump.

Fuzileiros navais dos EUA no norte do Kuwait se preparam após receber ordens para cruzar a fronteira com o Iraque em 20 de março de 2003. ERIC FEFERBERG/AFP/Getty Images

Visando atingir a meta projetada na campanha, o governo de Donald Trump anunciou nessa quarta-feira, 9 de setembro, a redução de 42% das tropas americanas do Iraque, o equivalente a 2.200 militares dos 5.200 atualmente ativos no país. A determinação foi anunciada pelo Comandante do Comando Central dos EUA, responsável pela defesa e segurança no Oriente-médio, o general Kenneth “Frank” McKenzie. Tal manobra do Pentágono reduzirá para 3.000 contingentes em solo desértico iraquiano e após decorridos anos de intenso treinamento das forças armadas do Iraque, meses de planejamento, e três semanas depois do encontro em Washington entre Trump e Mustafa al-Kadhimi, primeiro-ministro iraquiano.

Parece que a determinação não tem retorno, está prevista para ocorrer até o final deste mês (setembro). As reuniões ultrassecretas entre o Comando Central, autoridades do Pentágono, o que incluem autoridades das agências de inteligência e do Estado-Maior Conjunto, secretário de Defesa Mark Esper e autoridades iraquianas, findaram a oportunidade de reduzir a influência militar americana a partir dos relatórios mais recentes que mostram as forças iraquianas cada vez mais capazes de atacar os combatentes do ISIS que ainda buscam reconstituir o território dentro do Iraque. Contudo, estarem capazes não é sinônimo de autonomia e independência bélica, mas sim de planejamento tático de defesa e segurança, haja vista que a nação ainda não possui dispositivos sofisticados o suficiente ao contínuo combate aos terroristas, questões sublinhadas pelo General McKenzie que acredita na permanência do Pentágono no Iraque, apesar da promissora oportunidade de cortes adicionais de tropas.

A redução de danos orçamentários em atividade pelo Pentágono não esta sendo vista somente sobre contingentes ou dispositivos bélicos, o próprio presidente Trump rejeitou uma importante proposta que tramita no Pentágono para conter os serviços militares de saúde em US$ 2,2 bilhões como parte de uma revisão geral dos gastos da instituição, um feito que surpreendeu os mais conservadores e intervencionistas militares do setor, e segundo Donald Trump “Não faremos nada para prejudicar nossos grandes profissionais e heróis militares enquanto eu for seu presidente”.

O impacto que tal decisão causaria entre os conglomerados dependentes dos militares seria catastrófico, principalmente na crise global atual que os EUA vêm travando. O Pentágono também estuda a sangria de militares no Afeganistão em reduzir de 8.600 homens para 4.500 entre os meses de setembro a dezembro deste ano, e apesar da redução confirmada de contingente no Iraque, é muito provável que tal medida seja estratégica, não necessariamente eleitoral, mas de demanda.

Esta imagem fornecida em 15 de setembro de 2019 pelo governo dos Estados Unidos e pela DigitalGlobe, mostra danos à infraestrutura no campo de petróleo Kuirais da Saudi Aramco, em Buqyaq, Arábia Saudita. O ataque de drone supostamente iraniano à planta Abqaiq da Arábia Saudita e seu campo de petróleo Khurais, levou à interrupção da produção de cerca de 5,7 milhões de barris de petróleo bruto do reino por dia, o equivalente a mais de 5% do abastecimento diário mundial. U.S. government/Digital Globe via AP

Nos últimos anos, percebeu-se que o número de soldados alocados na região do Golfo Pérsico se elevou de forma exponencial, intrinsecamente relacionada à crise acentuada pelos ataques a instalações de petróleo na Arábia Saudita, um RQ-4 americano abatido por um míssil terra-ar sem precedente no Estreito de Hormuz supostamente pelos iranianos, navios-tanques de bandeiras iraquianas apreendidas pelo Irã, as entregas oportunistas de combustíveis iranianos ao regime sírio e a retaliação americana mortal que ceifou o líder da Força Quds, Qassem soleimani, e outras autoridades após um míssil hellfire atingir o comboio iraniano próximo do aeroporto de Bagdá.

As forças americanas presentes no Golfo, cerca de 14.000, são também decorrentes da redução efetuada nos anos anteriores e de novos engajamentos de militares que operavam em outras regiões do planeta. Segundo ao levantado por Alissa J. Rubin, a qualquer momento, 45.000 a 65.000 soldados americanos estarão posicionados no braço do Mar Arábico sob ordens diretas do Presidente, são as forças atualmente prontas e destacadas que operam próximas, e os números podem mudar substancialmente dependendo da presença de um ou dois grupos de ataque de porta-aviões na região e se houver também um grande grupo de fuzileiros navais presentes.

Pelo fato da presença dos EUA no ponto quente do Oriente-médio, como Iraque, Afeganistão e Síria, soar como segurança e defesa aos aliados e rebeldes contra regimes autoritários e que lutam ao lado dos americanos, a tendência é retroceder os tentáculos dos yankees sobre a região, porém sem retirar seus olhos e o financiamento bélico das forças iraquiana e afegã, ao mesmo tempo em que o Pentágono poderá contingenciar o Golfo Pérsico e manter as forças terroristas suprimidas no Iraque e no Afeganistão.

Para saber mais sobre o setor de defesa e segurança do Brasil e do mundo assine a Newsletter do site DefesaTV!



Receba nossas notícias em tempo real pelos aplicativos de mensagem abaixo:

 

Caso deseje conversar com outros usuários escolha um dos aplicativos abaixo:



Assine nossa Newsletter


Receba todo final de tarde as últimas notícias do DefesaTV em seu e-mail