A utilização do ‘E-bomb’ na Defesa Nuclear

Na ótica clausewitziana, estratégia é o emprego da batalha na guerra; o que liga os combatentes para atingir um fim. Clausewitz afirmava que a improbabilidade do êxito e o preço excessivo que é necessário pagar podem substituir a impossibilidade de resistir e de fornecer motivos para a paz. Em virtude do desgaste político que bombas nucleares provocam nas relações internacionais, as principais potências mundiais têm resgatado a discussão sobre o emprego de bombas de pulso eletromagnético (E-bomb) nos teatros de operação de guerra.

Em um mundo cada vez mais dependente da eletrônica e da eletricidade, o Pulso Eletromagnético (PEM) destrói os circuitos elétricos que acionam bombas nucleares e toda a rede elétrica que pode ultrapassar o raio de ação das explosões. Uma das vantagens do emprego de E-bomb no teatro de operações de guerra é que, ao invés de só cortar as linhas de comunicação inimiga, ela também destrói os equipamentos que dependem de eletricidade.

Um PEM de corrente grande o bastante pode queimar dispositivos semicondutores, derreter a fiação, queimar baterias e até explodir transformadores e geradores. As E-bombs são constituídas por tecnologias como, sistema de guiamento por GPS, bobina do estator, geradores de compressão de fluxo, gerador magneto-hidrodinâmico, fontes de alta potência de micro-ondas, banco de capacitor coaxial etc.

A E-bomb neutraliza os sistemas de transportes, os sistemas de mísseis e bombas nucleares em terra, os sistemas de comunicação, de navegação, de controle e de rastreamento de curto e longo alcance. Estas As bombas podem inutilizar e/ou destruir armas, como: mísseis anti-radiação, mísseis de guiagem ótica, mísseis de cruzeiro, veículos de reentrada atmosférica intercontinental, drones, foguetes com guiagem na fase terminal da trajetória, sistemas de direção de tiro, controle e sistemas de navegação de aviões e bases militares entre outros.

Ainda que o caráter letal seja passível de discussão, especialistas em defesa acreditam que, se amparado em um eficiente serviço de contra-inteligência, é possível que, mediante um ataque preemptivo ou preventivo, a E-bomb seja capaz de neutralizar bombas nucleares antes de serem lançadas pelo inimigo. Em meio ao resgate das discussões iniciadas nas décadas de 1960 e 1970 sobre o emprego de armas de pulso eletromagnético no contexto da Guerra Fria por países como Estados Unidos, Rússia e China, propõe-se, então, a discussão no Brasil sobre E-bombs como arma dissuasória nuclear do Exército Brasileiro (EB) a fim de oferecer às esferas políticas, diplomáticas e militares brasileiras novos argumentos sólidos para maior projeção do Brasil nos fóruns de decisão global.

Sendo a guerra dominada por um fim político, o valor deste objetivo é o que determinará os sacrifícios necessários para a realização da guerra. Se a E-bomb provoca danos irreparáveis nos sistemas elétricos e eletrônicos de dispositivos nucleares e na infraestrutura dos agressores pressupõe-se que haja motivos suficientes para não haver mais resistência inimiga e a paz seja alcançada.

Embora estejamos em pleno século XXI, a guerra continua sendo uma constante nas relações internacionais e nas sociedades e os agressores não medem esforços científicos, tecnológicos e inovadores no desenvolvimento de armas para alcançar seus fins políticos. Em virtude da existência de ameaças nucleares no panorama mundial de curto e médio prazo é preciso que o EB esteja atento a estas ameaças à medida que esta força atue no combate e na prevenção de ataques QBRN.

Embora o EB esteja alicerçado em uma boa infraestrutura de Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear (DQBRN), acredita-se que esta força não disponha de sistemas defensivos para evitar um ataque com bombas nucleares em cenários de guerras no futuro.

‘Com foco no estado da guerra, a promoção de discussões, em nível acadêmico e político/estratégico sobre E-bomb em guerras contemporâneas e a sua relação com a Grande Estratégia é imperativa.’

Em plena sintonia com a visão de futuro do EB até 2022, acredita-se que a Ebomb pode revolucionar a doutrina da Força empregando um produto de defesa nuclear altamente avançado com profissionais altamente capacitados e motivados possibilitando que o EB enfrente adequadamente os desafios do século XXI.

O EB dispõe de excelente infraestrutura voltada para estudar causas e consequências do espectro eletromagnético, tais como: o Centro de Avaliações do Exército (CAEx), o Comando de Comunicação e Guerra Eletrônica (CCOMGEX), Instituto Militar de Engenharia (IME), o Centro Tecnológico do Exército (CTEx), Projeto Estratégico do Exército de Obtenção da Capacidade Operacional Plena (PEE/OCOP), 1º Batalhão de Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear.

Cabe sinalizar que os Laboratórios de Medidas Eletromagnéticas (LME) do CTEx são o primeiro da América Latina em processo de acreditação pelo Inmetro em ensaios militares de compatibilidade eletromagnética. Além da infraestrutura militar, o EB também pode contar com recursos humanos, materiais e tecnologias mobilizáveis por meio do Sistema Nacional de Mobilização (SINAMOB), como o Instituto Nacional de Comunicações, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Instituto Cesar), o Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM) e as universidades.

Constatou-se, neste estudo, diversos departamentos de engenharia elétrica que também pesquisam e trabalham com PEM. A proposta de promover e ampliar a discussão sobre o E-bomb no na defesa nuclear do EB também está em plena harmonia com o novo Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército (SCTIEx), o qual adota o modelo da Hélice Tríplice, com base na relação entre o governo, a academia e a indústria.

O envolvimento de empresas públicas e privadas brasileiras no desenvolvimento de uma E-bomb promove um exponencial aumento de eficiência, elevação da capacidade competitiva dessas empresas, fomentam e criam parcerias entre as universidades e as indústrias e ampliam o papel da academia na sociedade como propulsora direta de desenvolvimento nacional. Com foco no estado da guerra, a promoção de discussões, em nível acadêmico e político-estratégico sobre Ebomb em guerras contemporâneas e a sua relação com a Grande Estratégia é imperativa.

Como mencionado, a Ebomb poderá contribuir com a formulação doutrinária da Força Terrestre e atenderá ao emprego de ação rápida do EB, em especial, da Defesa QBRN e Operações Especiais, neutralizando e desmobilizando o inimigo a partir de um sistema tecnológico inovador dissuasório.

Fonte: Núcleo de Estudos Estratégicos em Defesa e Segurança
Por: Fernanda das Graças Corrêa; Doutora em Ciência Política Universidade Federal Fluminense

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