Active shooters e terroristas 4.0 – A violência na era da informação, como lidar com este problema?

Por: Fernando Albuquerque Montenegro*

Na ânsia de conseguir audiência, sob o pretexto de manter a população informada, na maioria das vezes a grande mídia acaba sendo a melhor parceira de terroristas e outros agentes não estatais que buscam causar o terror para atingir seus objetivos sombrios. A principal intenção de um ato violento desses atores é, justamente, ganhar visibilidade.

Da mesma forma, o recente fenômeno do surgimento dos ‘digital influencers’, que se mantém numa busca frenética por mais likes e seguidores dos frequentadores das redes sociais esqueceu os limites da ética no intuito de se tornarem mais populares. Vários deles ficam muito mais preocupados em registrar e transmitir (muitas vezes ao vivo) um evento violento do que socorrer as pessoas em perigo ou mitigar os riscos que eram expostos.

Encontrar respostas coerentes com a época que vivemos é um dos grandes desafios das democracias atualmente. A sociedade e os meios de comunicação em massa precisam ser sensibilizados de como atentados terroristas e active shooters¹ devem ser caracterizados para não promover pânico.

Embora o terrorismo, em suas diversas formas de manifestação não seja um fenômeno dessa década, a difusão das imagens sem nenhum tipo de filtro e com requintes de crueldade são uma característica da Era da Informação. Esse tipo de atividade acabou acelerando e pulverizando outro tipo de fenômeno chamado violência imitativa.

Uns dos exemplos simples de se verificar ocorrem justamente na América Latina. Após o Daesh passar a produzir as criativas e macabras imagens de execuções de prisioneiros, seus vídeos viralizaram as redes sociais de forma descontrolada. Não demorou muito tempo para que as facções de crime organizado latino-americanas passassem a adotar as mesmas práticas com a finalidade de aterrorizar seus rivais, agentes da lei e a sociedade.

O mais importante é identificar que os impactos das ações do Terrorismo Clássico da época da Guerra Fria, que antigamente atingiam os níveis tático/operacional/estratégico/político em escala nacional ou regional. Nem sempre aqueles eventos atingiam os níveis estratégico e político em escala planetária com a velocidade e intensidade que ocorrem hoje na palma das mãos das pessoas.

Eventos como o dos atiradores da escola de Suzano-SP e da mesquita na Nova Zelândia, ambos no início de 2019, caracterizam isso; particularmente o último, em que foi transmitido ao vivo, como se fosse um videogame. Observa-se que é predominante a incidência entre os atores de jovens num contexto de desintegração social nas sociedades ocidentais. Podem-se verificar diferentes tipos de escopo nas ocorrências tipo 4.0:

  • As ações violentas das facções de crime organizado ou terroristas normalmente buscam provocar alterações no estilo de vida dos seus públicos-alvo e, geograficamente, normalmente ocorrem em sociedades democráticas provocando medo e mostrando capacidade de realizar violência em larga escala. Dependendo do grau de organização da facção, a intenção muitas vezes é demonstrar uma capacidade de atuação em nível global;
  • Algumas pessoas não integradas à sociedade e com visão distorcida do mundo também passaram a ter uma crise de identidade levando-as a atitudes extremas como auto radicalização através da internet, alguns espontaneamente e outros devidamente recrutados e orientados para atender a objetivos jihadistas; e
  • Existem também aqueles que desenvolvem uma necessidade incomensurável de atenção e se sentirem protagonistas de algum evento, nem que esse venha a ser a última coisa que venham a fazer na vida, como o caso de vários active shooters. A grande motivação acaba por ser verificar que outras pessoas que tenham promovido esses infelizes eventos acabaram por se tornar famosos, mesmo que isso tenha ocorrido após a sua morte.

Observando esse cenário, pode-se constatar que existe uma significativa evolução na utilização dos meios, nos objetivos a serem atingidos e nas formas de se explorar os eventos. Dessa forma, nas sociedades democráticas, cresce de importância do desafio de aperfeiçoar dois importantes vetores no tratamento de imagens das ações violentas dos atores não estatais:

  1. Conscientização dos integrantes da grande imprensa e dos frequentadores das redes sociais de não promover a difusão do medo. Isso tem muito a ver na forma sensacionalista como a notícia é apresentada, muitas vezes sem nenhum filtro; e
  2. Manter em constante aperfeiçoamento um sistema de Inteligência capaz de monitorar as redes sociais para identificar antecipadamente as possíveis ameaças para que possam ser neutralizadas antes de se concretizarem.

Um forte abraço e até a próxima…

Força!!!

* Nota da Redação:
O autor do artigo, Fernando Albuquerque Montenegro, é coronel da reserva do Exército Brasileiro (EB). Cel Montenegro é paraquedista militar, Operador de Forças Especiais e Ex-integrante do Destacamento de Contraterror desta força terrestre. Especialista em formar e liderar equipes de alta performance, para desempenhos em situações de pressão extrema com objetivos específicos.
Durante a ocupação do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, Cel Montenegro, liderou as tropas de operações especiais durante a invasão da localidade. Foi Instrutor Chefe do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) em Manaus (AM), dentre outras experiências.
Doutorando em Relações Internacionais na Universidade Autônoma de Lisboa e especialista em segurança, atualmente mora entre o Brasil e Portugal, tem atuado como professor na pós-graduação da Autônoma Academy de Lisboa, consultor e palestrante Internacional.
É co-autor do Best Seller “COMANDO VERDE”, livro ficcional vencedor do concurso literário Brazilian Press Awards International 2015, publicado em três idiomas e do livro “Gestão de Riscos em Eventos”, que fora publicado no final de 2018. 

Glossário: (¹) Active Shooters ou atirador ativo é classificado pelas forças de segurança como um indivíduo, o qual está propenso à matar ou realizar tentativa da mesma à pessoas em uma área confinada e/ou povoada.

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