Anúncio de retirada de soldados americanos do Afeganistão agrada Talibã e preocupa Alemanha

Enfraquecimento das forças armadas no território é considerado um ato "preocupante" pela Alemanha e pela Otan

Há dois meses de deixar a Casa Branca, o presidente Donald Trump decidiu retirar parte das tropas americanas do Afeganistão e do Iraque até janeiro de 2021. A decisão atende às promessas feitas pelo republicano de trazer os soldados de volta para casa e agradou o grupo talibã.

No entanto, o enfraquecimento das forças armadas no território no momento em que o governo afegão e o Talibã negociam um acordo de paz é considerado um ato “preocupante” pela Alemanha e pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Até 15 de janeiro, 2.000 soldados americanos vão deixar o Afeganistão e outros 500 devem sair do Iraque, anunciou o secretário interino da Defesa, Chris Miller.

Com isso, ficarão em cada país cerca de 2.500 homens para seguirem o combate contra o terrorismo iniciado há duas décadas. A retirada simboliza o desejo de Trump de “pôr fim de forma responsável e com êxito às guerras no Afeganistão e no Iraque e trazer nossos corajosos soldados para casa”, disse Miller nessa terça-feira (17).

A retirada parece um passo lógico após a assinatura de um acordo de redução da violência entre americanos e talibãs no início deste ano. Segundo o compromisso, os talibãs deveriam reduzir seus atos de violência e negociar uma tomada de poder compartilhado com o governo afegão para que até maio de 2021 todas as forças armadas americanas pudessem voltar para casa.

No entanto, a decisão só foi tomada dez dias depois de Trump destituir o secretário da Defesa Mark Esper, que insistia em deixar 4.500 soldados no Afeganistão para apoiar o governo de Cabul. Desde fevereiro, Esper reduziu o contingente de 13.000 soldados americanos.

Mas até sua destituição, o Pentágono alegava que os talibãs não tinham cumprido sua promessa de reduzir os ataques violentos contra as forças afegãs e advertiu que estes ataques seriam intensificados com menos tropas americanas. Após o anúncio dos Estados Unidos, o grupo talibã demonstrou sua satisfação. “É um bom passo e é bom para os povos dos dois países”, afirmou o porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid.

Contudo, o chefe da Otan, Jens Stoltenberg, teme que o Afeganistão volte “a ser uma base para os terroristas internacionais”. Turbulência em meio a negociações de paz Nesta quarta-feira (18), a Alemanha declarou apreensão em relação ao impacto que a retirada de tropas pode ter nas atuais negociações de paz entre o governo afegão e o grupo talibã.

“Estamos particularmente preocupados com o que o anúncio americano poderá significar para o avanço das conversações de paz no Afeganistão”, afirmou o ministro alemão de Relações Exteriores, Heiko Maas, destacando que o processo está apenas no seu princípio.

A Otan conta com 12 mil soldados no país, pouco mais de um terço do contingente é composto por americanos. Uma derrota face ao terrorismo? O receio de funcionários de Defesa americanos assim como europeus é que a saída dos Estados Unidos dê forma para uma retomada de grupos extremistas como Al Qaeda e Estado Islâmico na região.

Além disso, alguns americanos consideram que a saída seja sinal de uma derrota no Oriente Médio. O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, disse na segunda-feira (16) que a redução de tropas provocará um fracasso como “a humilhante saída americana do Vietnã”, em 1975, e se tornará uma vitória propagandística dos extremistas.

Para Élie Tenenbaum, pesquisador do Centro de Estudos de Segurança do Instituto Francês de Relações Internacionais, o acordo assinado entre os Estados Unidos e o líder talibã em pessoa em fevereiro já era um reconhecimento de derrota.

“Naquele momento foi um reconhecimento da parte dos americanos de que eles tinham perdido a luta contra o Talibã. Eles aceitaram o princípio de uma reintegração massiva do movimento dos talibãs na vida política afegã e provavelmente o seu retorno ao poder”, analisou.

  • Com informações da Agência Rfi


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