Aprendendo Sobrevivência na Selva com os Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil

A arte da sobrevivência  é uma atividade inerente para qualquer força militar que se preze, e, hoje se tornou uma ciência multi disciplinar, devido ao fato de que muitas tropas e unidades dessas, necessitam de conhecimentos para a atuação em diversos tipos de ambientes naturais, seja para o combate ou para o resgate de vítimas de sinistros em geral.

Privilégio apenas para uns poucos oficiais instrutores, a rede de selva é a “Suíte 5 estrelas” do acampamento de instrução dos Fuzileiros Navais. Porém todos os  instrutores preferem dormir nos abrigos por eles confeccionados para dar exemplo aos alunos.

Tive a oportunidade de acompanhar um desses treinamentos em um dos locais mais emblemáticos dos cursos de aperfeiçoamento das carreiras dos Fuzileiros Navais que é a Ilha da Marambaia durante a Operação MARAMBEX III. Apesar da Ilha da Marambaia ser um supermercado no que concerne à obtenção de alimentos vegetais e animais, um dos fatos que mais me  impressionou é que a ilha é enorme, mas é muito difícil encontrar água potável, e quando se encontra riachos de água da chuva, geralmente são águas salobras.

A sala de aula, ao ar livre para as dissertações teóricas, e, o material individual de todos sempre em exposição pra a inspeção e para que exista transparência que ninguém porta material ou alimentação extra além do previsto na regulamentação do curso. Apesar da chuva intensa, a instrução não parou, e, assim todos aprendem na prática a importância da impermeabilização do material individual em ambiente de selva.

Em outra oportunidade que tive no ano passado de acompanhar operações em diferentes biomas, como a Operação Formosa na região do planalto central, também presenciei situações extremas de um terreno que não se encontra água facilmente, mas mesmo assim os Fuzileiros Navais sabem estabelecer suas táticas de sobrevivência e cumprir suas missões em uma das regiões mais secas do Cerrado no Planalto Central. Durante muitos anos, os conhecimentos inerentes para a sobrevivência em ambientes extremos chegaram a ser tratados como documentação reservada por muitas forças armadas. 

A hora da “sopa”, quando os alunos degustam uma mistura de plantas e frutas, com um gosto não muito bom, mas com grande valor nutricional que pode manter um homem ou até um pelotão em condições razoáveis em caso de escassez de suprimentos em uma missão isolada. 

Hoje conseguimos facilmente um manual de sobrevivência pela internet e até mesmo cursos são oferecidos de forma presencial ou  “on line”. O que não podemos negar é que a ciência da sobrevivência na selva (ou em outros ambientes extremos) ainda é um desafio para muitos, e, necessidade de rotina para nossas tropas, afinal o Brasil e o continente Sul Americano são cobertos em grande parte por florestas de todos os tipos aonde operações de ressuprimento são muito difíceis ou até impossível dependendo do caso e/ou local. Como sempre é comentado no meio militar, a sobrevivência começa no momento em que se adquire conhecimentos para tal.

Na sala de aula de selva, o conforto não é bem vindo, afinal aqui se treinam guerreiros…

O que os Fuzileiros Navais praticam e porquê?

A missão básica inicial dos Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil é a chegada pelo mar e a tomada de territórios até uma distância de geralmente 25 km da costa, e nessa variedade de possibilidades de cenários, quase sempre se desenrolará em ambientes inóspitos e com dificuldades para a suprimentação, o que obviamente forçará a tropa, ou partes dela, a obter recursos oferecidos pela natureza. 

Desembarque anfíbio, afinal os Fuzileiros Navais são a “Força que vem do mar”, e, após isso avançam lutando até 25 km território adentro até assegurar a área conquistada.

Na variedade de locais que esses desembarques podem ocorrem, há sempre um estudo prévio do local, e nisso são baseadas as informações passadas para a tropa sobre seus procedimentos na região, mas obviamente existe o básico que é ensinado e treinado em cursos no decorrer da carreira de formação e em reciclagens programadas nas diversas manobras efetuadas durante o ano.

Amostra de algumas frutas que foram encontradas pelos instrutores nas redondezas em apenas uma tarde de caminhada, sabendo procurar o combatente vai achar. 

Um dos conceitos mais conhecidos pelos estudantes de sobrevivência é premissa praticada pelos Fuzileiros Navais à décadas é o “ESAON e o AFA+A”, ou:

– Estacione,
– Sente-se,
– Alimente-se,
– Oriente-se, 
– Navegue.

Uma das muitas poças d’água que surgem após as chuvas torrenciais que caem na Ilha da Marambaia, e, que podem fornecer a água essencial à vida dos combatentes, desde que devidamente filtrada e purificada com os meios praticados nas instruções.

A doutrina “AFA+A”: 

– Água; são exercitadas as capacidades de localizar água, obtê-la por outros meios e a sua purificação para consumo;
– Fogo; são treinadas pelo menos 10 técnicas diferentes de obtenção e/ou produção de fogo, muitas já conhecidas e outras que não são de conhecimento ou prática habitual do meio civil, que podem dobrar as possibilidades;
– Abrigo; são confeccionados desde os mais básicos como o “rabo de jacu” até outros que são exclusivos das táticas de guerra de guerrilha treinadas pelos Fuzileiros;
– Alimentação; a doutrina de alimentação para sobrevivência começa pelo trato de sua ração de campanha até com os métodos de reconhecimentos de alimentos naturais oferecidos pelo bioma no qual o combatente se encontra, até as técnicas mais primitivas e avançadas de caça e pesca.

Oficina de obtenção de fogo, na qual os alunos aprendem diversas técnicas de obtenção e/ou produção de fogo por diversos meios, dendo que, devem saber operar com eficiência no mínimo 10 técnicas diferentes.

*Observação: A regra de AFA+A só se inverte para caso de sobrevivência em ambientes gelados, aonde a sequência será:
– Abrigo;
– Fogo;
– Água; 
– Alimentação.

A necessidade de abrigo antes de qualquer outra se deve ao óbvio fato de que a proteção contra o frio é que será a ação primordial para salvar a vida de quem está perdido e/ou abandonado/sinistrado em ambiente gelado.

Um dos momentos interessantes, quando os alunos devem sacrificar a ave que  foi caçada, e, após efetuar o aproveitamento das proteínas líquidas (sangue ainda quente), devem depená-la retirar as vísceras e prepara o alimento o mais rápido possível, e tudo isso sem deixar sinais no local.

Porém a grande diferença entre a sobrevivência destinada aos civis e a praticada pelos Fuzileiros Navais são as atividades que serão complementares a cada um desses itens básicos, que alguns deles são; 

– O cuidado com o esclarecimento do terreno para saber se o mesmo é seguro para o avanço e a permanência,
– O cuidado para permanecer seguro e camuflado com o ambiente, e,
– A guarda e segurança do local, sempre de maneira dissimulada/camuflada em meio ao ambiente. O Fuzileiro verá tudo ao seu redor, sem jamais ser percebido por eventuais passantes. E tudo isso sob pressão de simulação de ambiente de combate.

Em resumo, o Fuzileiro Naval saberá fazer de tudo para permanecer dissimulado e oculto no ambiente no qual ele permanece ou atravessa, jamais deixando o seu terreno desprotegido, e ao deixá-lo, nenhum vestígio ficará para assinar sua presença no local. E essa doutrina é treinada a nível individual, grupal até o de batalhão, e por motivos óbvios não posso descrever aqui todas essas técnicas para que elementos não idôneos possam usar esses conhecimentos para fins ilegais.

Em uma das muitas oficinas de estudos, adquire-se o conhecimento de produção de fogo com a utilização de diversos tipos de equipamentos e materiais de uso comum das tropas em ambiente de combate e/ou outros materiais que pode-se encontrar no dia a dia comum. Obviamente que muitos desses materiais podem ser usados para a proteção dos acampamentos ajudando na sobrevivência contra uma incursão inimiga, mas isso já foge do escopo básico dessa matéria.

Apesar da alegação que muitas dessas técnicas já estarem desprotegidas e divulgadas pela internet e até mesmo por cursos disponíveis no mercado civil, os Fuzileiros Navais não deixam de se aperfeiçoar e estudar medidas e “contra medidas” para estar sempre à frente do inimigo. E, se você achou algum fuzileiro naval na mata, tenha certeza que eles já te acharam antes, e, se você não foi preso ou neutralizado, então você não era o alvo…

Alguns dos apetrechos da oficina de fogo.

Nota do Editor: Lamento quanto as fotos de qualidade mediana pois uma forte chuva, se abateu durante o dia da instrução, impedindo assim o uso de uma câmera adequada, o que obrigou a concluir os registros das imagens apenas com a câmera GoPro.



5 COMENTÁRIOS

  1. Meu filho se tornou Fuzileiro Naval e disse que isto não é para os fracos, está muito feliz em fazer parte desta casa e hj sonha em chegar ao ponto mais alto da corporação… ADSSUMUS.

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