Armada Argentina discute se vale à pena receber submarinos do Brasil

Submarinos Tapajós (S33) e Timbira (S32), durante cerimônia do Centenário da Força de Submarinos (2014), na Base Naval Almirante Castro e Silva - Foto: Anderson Gabino

A transferência de submarinos usados da Marinha do Brasil (MB) para à Armada Argentina, anunciada há uma semana em Buenos Aires, ainda é uma ideia transitando em terreno pantanoso.

A possibilidade entrou na pauta há cerca de seis meses, como meio de substituir com certa rapidez o Ara San Juan, que naufragou em novembro de 2017 com 44 tripulantes e sob a suspeita de estar conduzindo uma missão de inteligência nas proximidades das Malvinas, disputadas com o Reino Unido. O governo argentino desmente a versão e os britânicos não comentam.

O documento bilateral destaca apenas “o estudo da possibilidade de transferência de submarinos IKL da Marinha do Brasil à Armada Argentina”. Não trata de prazos. Fontes locais garantem que a entrega poderia envolver todos os quatro IKL-290/1400 empregados pelo Brasil há cerca de 30 anos. Não é bem assim.

Oficiais brasileiros sustentam que, se a iniciativa prosperar, abrangerá apenas duas unidades, provavelmente o S-30 Tupi, de 1989, e o S-31 Tamoio, de 1994. São modelos leves, de 1.440 toneladas, 36 marinheiros, 61 metros, armados com torpedos e minas pesadas.

De tecnologia alemã, o primeiro saiu do estaleiro de Kiel, no Mar do Norte. Os três outros foram construídos no Arsenal do Rio de Janeiro. Todos precisam ser submetidos a processos de revitalização e modernização.

A base comercial da negociação deve tomar como referência para o valor dos navios, algo entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões – 10% do preço de um submarino novo do mesmo tipo.

Nos anos 80, engenheiros brasileiros usaram o projeto alemão para desenvolver um modelo mais robusto, o Tikuna, recebido em 2006. Desloca 1,5 mil toneladas, é cinco metros maior que os Tupis e teve a tecnologia atualizada.

Especialistas argentinos da área técnica da Armada gostariam que o presidente Macri, em vez de discutir o recebimento dos IKL, mantivesse o plano elaborado pela Força Naval, que prevê a recuperação do S-41 Santa Cruz (“irmão” do San Juan, em manutenção desde 2015) e a compra ou construção local, nas facilidades industriais do estaleiro Tandanor, de um a dois novos navios de 2 mil tons e elevada sofisticação de sistemas.

Os oficiais argumentam que os submarinos brasileiros precisam passar por uma extensa e demorada reforma, “são pequenos, antigos e tem desempenho modesto”, disseram. Mais que isso, não teriam condições de atuar seguidamente nas condições adversas do extremo sul do Oceano Atlântico, “mar de águas violentas e missões extensas”.

O ARA San Juan, de 1,7 mil toneladas, desapareceu nessa região. Foi localizado um ano depois, em 2018, a 600 km da cidade de Comodoro Rivadávia e a 907 metros de profundidade.

Para um submarinista da reserva da MB, “não faz sentido abrir mão de todos os meios quando os novos submarinos da classe Riachuelo ainda estão na primeira etapa dos procedimentos de finalização e recebimento”.

De fato, o S-40 Riachuelo, entregue há seis meses, de tecnologia francesa, mas com alterações determinadas pela Marinha, e o segundo na linha de produção, o S-41 Humaitá, só estarão plenamente operacionais a partir de 2023.

São os dois primeiros de uma série de quatro modernos Scorpène, de propulsão diesel-elétrica, 71 metros, 2,1 mil toneladas, capazes de disparar torpedos e, no futuro próximo, mísseis.

O problema é que os navios exigem tempo para as provas de mar, treinamento do pessoal de bordo e avaliação das capacidades operacionais.

No período, e na hipótese de serem transferidos todos os quatro IKL-209/1400, a força naval do Brasil não estaria apta para atuar nesse viés estratégico. Ficaria limitada à disponibilidade do exemplar único da classe Tikuna, o S-34.

O propósito em estudo é bem diferente, contempla um ciclo de reparos e troca de equipamentos para estender a vida útil dos navios em 10 ou 15 anos.

  • Com informações do Estadão, Por: Roberto Godoy


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