Boinas Azuis da Marinha do Brasil concluem trabalho na UNIFIL

Em 2011, coube ao Brasil enviar para o Líbano um contingente sob o comando Contra-Almirante Luiz Henrique Caroli para assumir o componente naval, e naquele mesmo ano chegava a Beirute a Fragata União.

O Contra-Almirante Sergio Renato Berna Salgueirinho recebeu o comando da FTM-UNIFIL em fevereiro de 2020. (Foto: Marinha do Brasil)

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Em 1978, comandos armados da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) atacaram cidadãos israelenses causando várias mortes e deixando feridos. Em resposta às ações criminosas, as Forças de Defesa de Israel invadiram o Líbano para contra-atacar posições da OLP, que se refugiavam e tinham bases operacionais no sul daquele país.

Esta situação representava uma séria ameaça à paz e à estabilidade regional e, por solicitação do governo libanês, foi criada a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), para garantir a retirada israelense até suas linhas e apoiar o Exército libanês na restituição de sua autoridade naquela parte do seu território, até então dominada por grupos armados e terroristas.

Em resposta a uma nova solicitação do governo libanês, preocupado com a utilização do seu mar territorial para atividades ilícitas que pudessem novamente colocar sua segurança nacional em risco, e com a finalidade de treinar sua Marinha, a ONU estabeleceu em 2006 a Força-Tarefa Marítima da UNIFIL (FTM-UNIFIL), que é o primeiro componente exclusivamente naval de uma missão de paz.

Em 2011, coube ao Brasil enviar para o Líbano o Contra-Almirante Luiz Henrique Caroli para assumir o comando deste componente naval, e naquele mesmo ano chegava a Beirute a Fragata União.

No dia 29 de fevereiro de 2020, O Contra-Almirante Sergio Renato Berna Salgueirinho recebeu o comando da FTM-UNIFIL do Contra-Almirante Eduardo Augusto Wieland.

O C Alte Salgueirinho foi o último comandante brasileiro da FTM. Durante quase 10 anos de operação, o Brasil ocupou o comando da FTM e participou da estrutura e da força da operação internacional composta por 15 países.

Agora, militares da Alemanha, Bangladesh, Grécia, Indonésia e Turquia se encarregarão das tarefas no mar, com cinco navios e cerca de 800 marinheiros. O Brasil permanecerá atuando junto à FTM, com cerca de 16 militares, até janeiro de 2021.

Haverá, ainda, a participação de três militares da Marinha do Brasil, que permanecerão em outras funções no Estado-Maior do Comando da UNIFIL.

Durante quase 10 anos de operação, o Brasil ocupou o comando da FTM e participou da estrutura e da força da operação internacional composta por 15 países. (Foto: Marinha do Brasil)

Diálogo conversou com o C Alte Salgueirinho sobre os principais desafios enfrentados durante a missão à frente da FTM-UNIFIL, entre outros temas.

Diálogo: Quais foram as principais lições aprendidas durante sua missão no Líbano?

Contra-Almirante da Marinha do Brasil Sergio Renato Berna Salgueirinho, comandante da FTM-UNIFIL: O ambiente multinacional de uma Missão de Paz da ONU, numa força-tarefa composta por seis diferentes países, o que significa trabalhar lado a lado com marinheiros peacekeepers [pacificadores] oriundos de todas as partes do mundo, com diferentes culturas e religiões, é uma oportunidade única de aprendizagem constante e absoluto enriquecimento profissional e pessoal.

Além disso, a oportunidade de conviver com o povo libanês também é um destaque nessa experiência, o que a tornou ainda mais especial. E, por fim, toda a complexidade envolvida na Missão da UNIFIL, inserida numa região de rica e ancestral história, mas também marcada por um recente histórico de conflitos e em permanente instabilidade, nos apresenta ensinamentos valiosos que se convertem em experiência acumulada.

Diálogo: Durante sua missão, dois fatos inusitados e sem precedentes ocorreram: a pandemia da COVID-19 e a trágica explosão de 4 de agosto de 2020 no porto de Beirute que deixou mais de 190 mortos, vários desaparecidos, 6.500 feridos e 300.000 desabrigados. Como o senhor enfrentou esses desafios?

C Alte Salgueirinho: Os efeitos provocados pela pandemia da COVID-19 e os da explosão no Porto de Beirute afetaram, em parte, a disponibilidade das nossas Forças e das Forças libanesas.

Apesar das adversidades provocadas por esses fatos, pudemos observar que as providências e medidas operacionais e táticas adotadas pela UNIFIL foram eficazes para neutralizar e manter sob controle os efeitos desses eventos, não comprometendo o cumprimento da missão.

Nossa capacidade de solução de problemas de alta complexidade foi colocada à prova, exigindo uma rápida análise da situação e eficiência para o correto processo de tomada de decisão. O que pudemos constatar foi que a união de esforços dos vários elementos componentes da UNIFIL foi o fator decisivo de sucesso.

O competente, profissional e dedicado trabalho desenvolvido por todos os peacekeepers envolvidos foi exemplar, com destaque para o do Estado-Maior multinacional da FTM-UNIFIL e o das tripulações dos nossos navios.

Diálogo: Quais os maiores desafios enfrentados com relação à interoperabilidade com marinhas estrangeiras no contexto de uma operação de paz internacional?

C Alte Salgueirinho: Ao longo dos anos, o Brasil foi aprendendo a lidar com as peculiaridades dos países membros da FTM-UNIFIL e desse tipo de organização. No Comando da Força-Tarefa, elaboramos processos, os aprimorando a cada momento.

Após quase dez anos como comandante da FTM-UNIFIL, alcançamos um nível elevado de organização e de eficiência, oferecendo estabilidade no cumprimento da missão. Podemos afirmar que o Brasil cresceu em termos de capacitação e acumulou valiosa experiência na condução de uma organização desta natureza.

O que se observa quanto à interoperabilidade com marinhas estrangeiras operando em conjunto é, na verdade, uma grata surpresa ao encontrar um ambiente hospitaleiro, de extrema camaradagem e elevado espírito marinheiro, além de um excelente nível profissional, o qual pode ser considerado de altíssima competência e absolutamente equivalente entre os seus membros componentes.

Da mesma forma, é possível pontuar que, ao longo desses quase dez anos, a Marinha do Brasil também ganhou larga experiência em operar continuamente em uma missão real, em um ambiente multinacional, distante 5.500 milhas náuticas do seu território, e em uma região com um ambiente operacional e geoestratégico de alta complexidade.

Os militares do contingente brasileiro sempre foram muito bem recebidos e bem tratados por todos os demais membros dos países contribuintes de tropas em um ambiente de respeito mútuo e profissionalismo.

Diálogo: Além de patrulhar o mar Mediterrâneo ao largo da costa libanesa em busca de embarcações suspeitas de contrabando de armas, de que outras missões a FTM participou?

C Alte Salgueirinho: Dentre as três tarefas principais que a FTM-UNIFIL possui, a que se relaciona à entrada ilegal de armas no Líbano é a de “conduzir Vigilância Marítima em coordenação com a Marinha libanesa e conduzir Operações de Interdição Marítima (MIO) em apoio à Marinha libanesa, a fim de assistir às Forças Armadas libanesas para evitar a entrada de armas ilegais e material correlato no território libanês, vindos pelo mar”.

Assim, é possível observar que o papel da FTM-UNIFIL é o de assistência às autoridades libanesas. Adicionalmente, ao realizarem patrulhas de forma ininterrupta na região do Mar Mediterrâneo, adjacente ao território do Líbano, os navios da FTM-UNIFIL contribuem para a estabilidade e a paz nessa região.

Além dessa tarefa, a FTM-UNIFIL também provê treinamento tático e operacional para a Marinha libanesa, a fim de contribuir para a capacitação das Forças Armadas libanesas para assumir suas responsabilidades de forma independente no mar territorial libanês, no que tange à segurança de suas fronteiras marítimas/pontos de entrada.

Os navios da FTM-UNIFIL também devem estar preparados para participar de operações de resgate no mar.

Como no exemplo de setembro de 2020, quando navios da FTM-UNIFIL participaram de uma operação deste tipo no Mar Mediterrâneo, resgatando 37 pessoas com vida e os conduzindo para território libanês, onde receberam assistência médica e outros cuidados, sob a supervisão de representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Diálogo: Por que a participação de militares brasileiros em uma missão de paz da ONU como a UNIFIL é importante?

C Alte Salgueirinho: A presença do Brasil na UNIFIL esteve alinhada à Estratégia Nacional de Defesa, sendo possível ampliar a sua influência e visibilidade no contexto mundial das nações, ao reafirmar o compromisso do Brasil com a defesa da paz entre os povos.

Permitiu à MB, ainda, demonstrar suas capacidades profissionais, de liderança e de coordenação perante os demais contingentes de outras nações e, também, de incorporar novos conhecimentos operacionais e táticos.

Nesse contexto, destaco o desafio logístico de manter um navio operando intensiva e continuamente por mais de oito meses, a cerca de 5.500 milhas náuticas de distância de sua sede; a experiência operativa proporcionada pela atuação em uma força multinacional; a visibilidade e a projeção da imagem do Brasil no cenário internacional; o prestígio e o respeito pelo exercício do Comando da FTM-UNIFIL; a possibilidade de contribuição direta à manutenção da paz mundial, a contribuição à segurança e ao desenvolvimento de um país amigo, o Líbano; e a contribuição direta com a capacitação do pessoal da Marinha do Líbano para o desempenho das atividades voltadas à segurança marítima de seu mar territorial.

  • Fonte Revista Diálogo, por: Por Marcos Ommati/Diálogo Dezembro 23, 2020


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