Brasil ganha rede de pesquisa aeroespacial, a Barinet

O setor aeroespacial brasileiro vive um momento de incertezas. Responsável por absorver boa parte da mão de obra qualificada do País e dar fôlego a uma gama de empresas, a Embraer está se fundindo com a Boeing. Além disso, há dúvidas se as verbas para ciência, responsáveis por fomentar inovação nacional, continuarão a existir. Em meio a esse panorama, pesquisadores do segmento resolveram agir: desde setembro, está no ar a Brazilian Aerospace Research and Innovation Network (Barinet, na sigla em inglês), que pretende ser a porta de entrada para quem olha para a ciência em busca de inovação.

O projeto é liderado por cientistas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A intenção é criar uma rede de cooperação para conectar especialistas na área e fazer a ponte entre a academia e a indústria. “Queremos aumentar a colaboração para transformar a pesquisa em inovação que possa ser incorporada a produtos e gerar retorno à sociedade”, diz Emilia Villani, cofundadora do projeto e pesquisadora do ITA.

A princípio, a ideia é que empresas do setor aeroespacial possam buscar soluções para seus produtos na rede da Barinet, em vez de bater na porta de cada universidade à procura de especialistas. Ao ser acionada, a organização poderá designar os membros mais indicados. O projeto tem inspiração no exterior: criada em 2018, o Swedish Aeronautical Research Center (Sarc) faz a ligação estratégica entre universidades e organizações suecas do setor aeronáutico.

Ao Estado, Villani garante que a criação da Barinet não está conectada aos caças Gripen, que o Brasil comprou da sueca Saab por R$ 16,8 bilhões em 2014, mas sim ao contato entre pesquisadores dos dois países. Faz sentido: o modelo de redes colaborativas acadêmicas para atender a indústria começa a ganhar corpo no País. Em abril, especialistas brasileiros em inteligência artificial criaram o Advanced Institute for Artificial Intelligence (AI²) com propósito parecido.

Por enquanto, a Barinet mapeia as competências de sua rede e atrai pesquisadores. Universidades interessadas em participar podem entrar em contato direto com Emilia. Depois, haverá o trabalho de dividir os especialistas nas muitas áreas do setor, que vão de materiais avançados, nanotecnologia e armazenamento de energia até inteligência artificial, internet das coisas e tecnologias de redes.

Na hora. “Já não era sem tempo para que uma iniciativa dessa ocorresse”, diz Márcio Peppe, sócio do setor de aviação da consultoria KPMG. “No Brasil sempre existiu uma distância muito grande entre a academia e o mercado. Por aqui, as boas iniciativas do setor, como a Embraer, foram poucas e isoladas”, diz. Segundo ele, o Brasil tem potencial e vantagens competitivas no setor aeroespacial, mas os esforços precisavam ser mais bem coordenados.

“Temos de remontar a tripla hélice que foi desfeita nos últimos 50 anos”, diz Paulo Vicente, professor da Fundação Dom Cabral. Ele se refere ao modelo em que governo, academia e setor privado trabalham juntos em harmonia. É por conta disso que Embraer e ITA, por exemplo, ficam em São José dos Campos (SP). O mesmo modelo também ajudou a Suécia a despontar no setor. “Se não for assim, a academia vai buscar a ciência pela ciência. Nos últimos anos, a academia se isolou”, diz Vicente.

Se a ideia da Barinet decolar, a expectativa não é apenas trabalhar junto com o setor privado, mas gerar empresas dentro da própria academia. “Queremos incentivar alunos e pesquisadores a abrirem suas próprias startups no setor”, afirma Emilia.

É um olhar para um conceito não tão novo assim: se há alguma sacada esperta tecnológica, não espere grandes empresas ou setor público para botar em ação. Com um ecossistema de startups orbitando em torno de si, a Barinet espera melhorar o diálogo com o setor privado e também encontrar mais um destino para a mão de obra que está sendo formada no País.

Aceleração. A dinâmica mais veloz de startups também pode acelerar os processos do setor aeroespacial, conhecido por sua cautela em relação à segurança. “A turbina de aviões a jato demorou quase 50 anos para ser posta em prática. Se existir uma entidade que consiga reunir informações e montar uma linha cronológica de pesquisa, pode ser genial”, explica Lie Pablo Graça Pinto, professor de mecatrônica do Insper.

É um mercado com espaço gigante: segundo a consultoria The Business Research Company, a indústria aeroespacial deve atingir valor global de US$ 526,1 bilhões em 2022. Os valores incluem produção, manutenção e suporte de equipamentos, além de outros serviços.

Os especialistas acreditam que outras áreas importantes para o País podem se beneficiar de um setor aeroespacial mais inovador. Na agricultura, podem surgir soluções para mapeamento de solo, monitoramento de pragas e monitoramento do clima, isso sem contar a importância de observar queimadas e outras atividades de impacto ambiental. “Falta também uma aeronave para uso robusto em situações críticas de pouso e decolagem em pista curta que seja economicamente viável. Um modelo desses poderia integrar o País”, diz Peppe, da KPMG.

“Inicialmente, vamos olhar para o que temos de aviação e depois observar as opções do setor espacial”, diz a cofundadora da rede de pesquisa e inovação. A Barinet começará numa estrutura enxuta – hoje, não tem nem site. Em termos de recursos, ela consome apenas as horas de trabalho dos seus participantes. Mas a professora do ITA acredita que a estrutura poderá ser adaptada à concretização de projetos e trazer um crescimento.

Fonte: Estadão