Capacetes azuis: veja o relato de duas militares do DF que foram pioneiras em missões de paz

Major Luanda Bastos (E) e major Danielle Lara (D) posam durante cerimônia em homenagem aos 'peacekeepers' — Foto: FAB/Divulgação

Mais de 300 mil mortos em 15 anos de conflitos. Desnutrição e um governo à beira do colapso. Esse era o retrato do Sudão (país da África oriental, na fronteira com o Egito) quando a major da Força Aérea Brasileira (FAB) Luanda Bastos, de 37 anos, aceitou o convite para atuar em missões de paz no país.

O trabalho voluntário concedeu à militar do DF o título de primeira mulher da FAB a atuar em missões individuais da Organização das Nações Unidas (ONU). De malas prontas, ela embarcou em agosto de 2017 rumo ao território de Darfur – palco dos principais conflitos armados da região sudanesa.

Depois de um ano no país africano, a major retornou a Brasília. Nesta semana foi uma das homenageadas em uma cerimônia do Ministério da Defesa.

A major Danielle Lara, de 34 anos, ostentava no peito a medalha conquistada pelos doze meses dedicados ao trabalho em missão de paz também na África, dessa vez no Sudão do Sul – a nação mais jovem do mundo, criada em 2011.

Em comum, as duas moradoras do DF carregam na memória as experiências de atuação em operações de ajuda humanitária e o olhar diferenciado sobre os problemas do mundo. “Na volta, a gente começa a enxergar a realidade de uma forma diferente. Faríamos tudo novamente.”

Atualmente, a ONU emprega mais de 100 mil militares, policiais e civis em 14 operações de manutenção da paz em quatro continentes. O Brasil participa de oito delas, com 300 “capacetes azuis” (peacekeepers) que trabalham na proteção de civis.

De Brasília para o Sudão…

A major Luanda Bastos cumpriu um ano de trabalho voluntário no oeste do Sudão entre 2017 e 2018. Ela foi escolhida como oficial de escritório e, depois, como membro da parte operacional da missão de paz.

No país africano, a militar trabalhou no quartel-general e, de lá, coordenava as operações de escolta de caminhões que levavam alimentos e remédios para a população. Neste período, a ela foi a única mulher do setor e a primeira da FAB a realizar uma missão individual.

Apesar do Sudão estar vivendo um conflito armado, ela afirma que não pensava no assunto. “Queria fazer a missão, independente do país que fosse”, conta.

Na região de Darfur, a major lembra que a rotina do quartel deixava-a no centro do conflito. Do local de trabalho, a militar atendia chamados das equipes de rua que pediam reforço na patrulha. “Sabia todo os dias de casos de tiroteio, assalto, estupro”, diz.

“Valia a pena estar lá porque estava fazendo um trabalho que contribuiu para algo maior. Hoje me traz satisfação e orgulho.”

De burca pelas ruas

De maioria muçulmana, as mulheres no Sudão não têm autorização para andar com braços e pernas a mostra. “Tinha que usar roupas que pessoas de lá usavam para não causar constrangimento”, conta a militar. “Andava de burca quando tinha que sair do quartel.”

A decisão por roupas tradicionais era também uma maneira de se adequar aos costumes locais e, como afirma a major, era uma estratégia para ganhar confiança, colher informações e ajudar outras mulheres”.

Na época, Luanda precisou conviver com essas diferenças culturais e, na volta, trouxe na bagagem o aprendizado sobre novos valores.

“Cheguei à conclusão de que dinheiro não é nada, e podemos ajudar as pessoa com o querer, gestos e palavras (…) Às vezes, doando algo simples, dando atenção, os fazia muito felizes. Aquilo me deixava realizada, coisa que o dinheiro não paga e jamais vou esquecer”, lembra.

A missão em que a militar participou está em fase de encerramento. No Sudão, as famílias que tinham fugido do território em conflito estão, aos poucos, voltando para suas casas e vilas de origem.

“As famílias não tinham nada, teriam que recomeçar, mas só de saber que aquele nosso trabalho de anos surtiu efeito na vida da população, dá uma sensação de satisfação”.

Valores pós missão

Na carreira militar há 17 anos, a major Danielle Lara também conquistou o ranking de primeira mulher da FAB a estar em missão no Sudão do Sul. O país se tornou independente em 2011 e, hoje, registra mais de 10 milhões de habitantes.

Antes de seguir viagem, em 2018, ela passou por um curso de formação na Argentina para se tornar uma observadora militar. Os estudos a levaram a ocupar um cargo no centro integrado de operações da ONU em Juba – capital do país africano.

Ela permaneceu na missão de abril de 2018 até abril de 2019. Trabalhava com a escolta da ajuda humanitária, verificava a segurança de terrenos e interagia com os moradores.

“Basicamente a gente sai da nossa vida por ano e começa a refletir sobre tudo que aconteceu. Reflete valores, olha a o redor e começa a dar valor as pequenas coisas.”

Em meio às atividades, a major conviveu com pessoas de mais de 40 nacionalidades e conta que aprendeu a lidar com as diferenças, “mesmo quando tudo parecia muito diferente”.

As crianças chamaram a atenção da major, em especial. “Quando iai às vilas, era impressionante ver o sorriso das crianças e o cuidado que tinham entre si. A criança maior tem senso de responsabilidade sobre o menor, um tipo de cuidado e zelo que mexiam comigo (…) Os olhos e o sorriso das crianças sempre me impressionaram.”

  • Com informações do G1 (DF)


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Enter the text from the image below