Carta branca para matar: A onda de assalto a banco no Brasil

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Brasil, um país com mais de 210 milhões de habitantes constituídos por gerações de imigrantes e nativos de origens indígenas de todos os cantos, uma sociedade miscigenada que luta para alcançar um direito nato de todo cidadão: a paz e a liberdade.

Assombrado pela metástase política, segregação de classes promovidas por grupos ditos minoritários, e pela violência estruturada e funcional enraizada e controlada por facções advindas de dois grandes estados financeiros, São Paulo e Rio de Janeiro, a convivência social dos brasileiros torna-se visivelmente encarcerada, enquanto os criminosos, livres e sem escrúpulos, ousam enfrentar autoridades militares e setores governamentais até então inatingíveis.

Ourinhos, interior de São Paulo, madrugada de 2 de maio de 2020, um grupo fortemente armado de pelo menos 40 homens encapuzados chegam em 10 veículos potentes, alguns blindados e descaracterizados, seguem em direção ao centro da cidade com vistas ao Banco do Brasil.

A ousadia é tanta que as principais bases policiais são totalmente cercadas, inviabilizando a coordenação militar e o pronto-emprego em maioria dos pelotões táticos e de área. A ação dura aproximadamente 3 horas, houve diversas trocas de tiros com a polícia, e seis pessoas foram feitas reféns durante a ação. O grupo utilizou drones para monitorar o perímetro, miguelitos pérfuro-cortantes para furar pneus, e explosivos plásticos para arrombar a blindagem dos cofres.

Botucatu, interior de São Paulo, madrugada de 30 de julho de 2020, integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) cercaram e atearam fogo no 12º Batalhão de Polícia Militar e se evadiram rumo à agência do Banco do Brasil, localizada no centro da cidade, munidos de armamentos pesados e de assalto, através de veículos blindados e velozes. Ao menos 40 indivíduos participaram do ataque terrorista, que se iniciou ainda na rodovia Marechal Rondon, após um caminhão ser atacado e incendiado, a fim de obstruir a via. Diferente do último ataque terrorista na cidade no final de 2019, os cidadãos botucatuenses tiveram uma grande ajuda, membros da temida Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar (ROTA), estavam em Bauru numa missão de treinamento da integração do BAEP na região.

Os terroristas foram surpreendidos com a ROTA, Força Tática da cidade e de unidades da região, como a de Avaré, posteriormente os temidos Comandos de Operações Especiais (COE) da PMESP chegaram ao local para iniciar a caça dos ratos. As buscas seguiram por dias nas intensas matas fechadas e depressivas de Botucatu.

Araraquara, interior de São Paulo, madrugada de 24 de novembro de 2020, pelo menos 12 terroristas, distribuídos em dois caminhões e três veículos leves, bloquearam a via de acesso ao 13º Batalhão de Polícia, atearam fogo nos veículos e efetuaram diversos disparos contra os policiais militares. Enquanto o grupo desestabilizava a unidade militar, outro grupo fortemente armado promoveu o bloqueio de diversas vias do Centro da cidade com o objetivo de roubar os caixas eletrônicos das agências bancárias.

Criciúma, Santa Catarina, madrugada de 1º de dezembro de 2020, diversos criminosos bloquearam acessos e um Batalhão de Polícia, para retardar a incursão dos militares, e o objetivo novamente era o mesmo, invadir, explodir e subtrair o Banco do Brasil. Cerca de 30 terroristas participaram da ação, e elevaram os atos cruéis, deixaram um grupo de funcionários da prefeitura, que trabalhava na pintura das faixas de pedestre, de refém e usado de escudo humano.

Cametá, interior do Pará, madrugada de 2 de dezembro de 2020, um dia após a ação terrorista em Santa Catarina, uma quadrilha composta por mais de 20 terroristas iniciou um ataque coordenado no centro da cidade a fim de liquidar os cofres da agência do Banco do Brasil. Como de costume no Norte e Nordeste do país, reféns foram capturados em um bar e usados como escudo, infelizmente um deles acabou morto por arma de fogo e outro morador da cidade foi atingido na perna.

A forma de agir desta quadrilha também se assemelhou às do sudeste e sul do Brasil, o ataque prévio a uma Organização de Polícia Militar. Segundo a Secretaria de Segurança do Estado, duas aeronaves e uma embarcação foram utilizadas para conter a ação criminosa.

A principal instituição financeira federal, o Banco do Brasil, passou a ser o principal alvo imediato dos criminosos, isso se deve a diversos fatores e particularidades dos criminosos.

Segundo relatos da Polícia Federal, nos últimos 25 anos, a quantidade de cocaína e maconha tomada de traficantes pela Polícia Federal aumentou 5.708%, cerca de 75 toneladas de cocaína entre janeiro e setembro de 2019 foram apreendidas, mais do que o dobro de 2017 e cerca de 27 toneladas a mais do que no mesmo período de 2018.

Segundo dados de Leandro Piquet Carneiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, o aumento das apreensões de droga pela PF está diretamente ligado ao crescimento e disseminação do consumo delas no país. Conforme o consumo da droga se espalhou pelo Brasil, houve a expansão da rota, transporte, subornos, distribuição e comercialização, descentralizando a área vermelha que cobria os maiores consumidores, São Paulo e Rio de Janeiro.

Conforme as operações do governo de Jair Bolsonaro foram limitando as rotas das facções, asfixiou quase que imediatamente a ponta da pirâmide, os grandes chefões do crime.

Só a Polícia Rodoviária Federal de Mato Grosso do Sul apreendeu um recorde de apreensões de maconha em um ano em 2020, na época, em julho, registrou 216,7 toneladas da droga fora da sociedade, maior do que o último ano com mais entorpecentes interceptados, em 2017, quando 205 toneladas de maconha foram apreendidas pela Polícia no estado, um fato que antes, em governos passados, não seria possível, pois davam margem à criminalidade com a política da boa vizinhança e vistas grossas aos crimes.

Ao passo que o governo Bolsonaro aumentou as apreensões e dificultou a corrupção e a permanência do crime organizado na política e nos setores públicos, os Estados se articularam e denotaram maior participação em inteligência, infiltrados e vigilância aprimorada nas principais rotas do tráfico de drogas e de armas, como Bolívia, Paraguai, Argentina e Colômbia, que transfixam as fronteiras dos grandes estados brasileiros.

Não só de apreensão de drogas e armas vivem os famintos e espetaculares agentes de segurança pública e de defesa, através da primorosa atuação do Ministério da Justiça e Segurança Pública, diversos leilões de produtos apreendidos das facções, como aviões, carros, caminhões, motos, joias e imóveis contribuíram para o recorde de arrecadação do Funad (Fundo Nacional Antidrogas), sendo arrecadados R$100 milhões neste ano.

De fato, as ações federais e estaduais vêm surtindo efeito na instabilidade do crime organizado no país, entretanto, para tornar o entendimento do leitor mais claro, é preciso aprofundar no mundo do crime.

Em 2006, a inteligência da policia de São Paulo desmantelou o que, talvez, fosse o início do mercado organizado do aluguel de armas a criminosos altamente perigosos. Na ocasião, Jorge Gustavo Ribeiro, 45 anos, foi preso em Santo André, acusado de alugar armas para criminosos a mando do PCC, o armamento locado era utilizado para realizar roubos de carros e proteção em bocas de tráfico.

O preço do aluguel variava de acordo com o calibre da arma e o período de locação. Uma espingarda calibre 12, por exemplo, era alugada a grupos de criminosos a R$ 2 mil pelo período de dois dias. Um revólver calibre 38, mais comum no mercado do crime, era locado por R$ 100 ao dia, um mercado compensador e que trazia grandes benefícios.

Meses depois, a Polícia Federal coordenou uma mega operação contra um depósito de armas em Guarulhos, na Grande São Paulo. No interior da instalação foram encontradas 13 armas, entre os quais fuzis AR-15 e Browning, uma caixa com bananas de dinamite, 16 baguetes de gel explosivo e aproximadamente 3.000 munições, marcando assim o início do conhecimento de um mercado de aluguel de armas no Brasil controlado principalmente pelo PCC.

Com base nas grandes apreensões de drogas no país, grupos ligados ao PCC e outras facções tiveram perdas milionárias, forçando-os a se organizarem em grupos paramilitares fortemente armados com equipamentos bélicos alugados para invadir, explodir e saquear bancos federais, a única saída das dívidas cobradas pelos chefões enjaulados nos principais presídios de segurança máxima do Brasil.

Os últimos ataques supracitados no Sudeste, Sul e Norte do País possuem muita ligação, e os motivos estão nas toneladas de drogas apreendidas pela Polícia de São Paulo. A dificuldade em atuar no sudeste é vista como empecilho em seguir 100% do roteiro criminoso, em vista disso as facções buscam outras regiões do Brasil, e o modus operandi é característico, os terroristas usam drones; equipamentos bélicos de uso exclusivo das forças armadas; carros blindados, geralmente do tipo Land Rover Discovery, Freelander e Pick-ups das mais variadas robustez, capazes de abrir espaço e alcançar velocidades em curto espaço de tempo; formação de 30 a 40 homens; e explosivos plásticos com especialista em manuseio que aprimorou a operação com o uso de celulares que acionam o artefato à distância, uma clara técnica utilizada por terroristas no Oriente-Médio.

As leis atuais estão cada vez mais brandas e mais exigentes da dupla interpretação jurídica. Em um país sério, o criminoso que porta um fuzil é tratado como terrorista, e seu fim não é a cadeia, é o cemitério, pois o presídio traz ônus ao Estado.

Para coibir futuros atos selvagens e de alta periculosidade à sociedade de bem, deve-se complementar à Lei 13.497/17, sancionada por Michel Temer, que passa a ser considerado crime hediondo a posse ou o porte ilegal de armas de fogo de uso restrito, que são aquelas reservadas aos agentes de segurança pública e às Forças Armadas, como fuzis e metralhadoras, acrescentando o “abate de todo terrorista que estiver de porte ou posse de armas de fogo restritas, mesmo não apresentando reação”, talvez uma grande solução para por fim aos atos hostis e selvagens do crime organizado no Brasil.

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