China lança o satélite final do Sistema de Navegação Beidou

Um foguete Long March 3B lançou na última segunda (22) a peça final para completar sua constelação de satélites rival do GPS americano.

A decolagem do Foguete Long March 3B ocorreu às 09h43, horário de Pequim (22h43 em Brasília) diretamente da plataforma LC-2 do Centro de Lançamento de Satélites de Xichang, localizado na província de Sichuan, sudoeste do país. Todos os eventos até o encerramento da propulsão do terceiro-estágio e a inserção inicial do satélite em órbita ocorreram com sucesso. Não houveram notícias de acidentes causados pela reentrada dos estágios do foguete, que comumente caem sobre áreas habitadas de Sichuan.

A rede de televisão estatal chinesa transmitiu o lançamento ao vivo, o que é relativamente raro no país. A decisão das autoridades de transmitir a missão sinaliza a importância da rede Beidou para o governo chinês, a qual é capaz de fornecer serviços de posicionamento e navegação de alta precisão em tempo real a nível global, o que traz aos chineses a não-dependência de sistemas de outros países como o GPS americano, o Glonass russo ou o Galileo da comunidade europeia.

O Long March 3B

O Long March-3B (CZ-3B) é um veículo lançador chinês de 3 estágios movido a propulsão líquida, fabricado pela Academia de Tecnologia de Veículos de Lançamento (CALT). Foi desenvolvido a partir do Long Marcha-3A, porém, possui tanques de propelente alongados, computadores aprimorados e uma coifa maior com 4,2 metros de diâmetro para acomodação da carga útil. O veículo também conta com a adição de quatro boosters laterais que fornecem uma boa ajuda para tirá-lo do chão no momento da decolagem. O comprimento total do CM-3B é de 54,80 metros, com um diâmetro de 3,35 m no core (seção central do foguete) e 3,00 m no terceiro estágio.

 

ESPECIFICAÇÕES – Long March 3B / CZ-3B

Primeiro-estágio: Utiliza um motor YF-21C alimentado por uma mistura hipergólica e altamente tóxica de hidrazina e tetróxido de nitrogênio (N2O4/UDMH). O motor YF-21C é capaz de fornecer um empuxo de 2.961,6 kN.

O diâmetro do primeiro-estágio é de 3,35 m e seu comprimento é de 23,272 m.

Boosters-Laterais: Os 4 boosters laterais utilizam motores YF-25, também alimentados pela mistura (N2O4/UDMH) e cada um fornece 740,4 kN de empuxo para auxiliar a decolagem.

Cada reforço possui 2,25 de diâmetro o comprimento de 15,326 m.

Segundo-Estágio: É equipado com um motor principal YF-24E (742 kN de empuxo) e possui quatro motores de controle tipo “vernier” para vetoração de empuxo (47,1 kN cada). Os motores também utilizam como propelente a mistura de hidrazina e tetróxido de nitrogênio.

O diâmetro do segundo estágio é de 3,35 m e o comprimento do estágio é de 12,920 m.

Terceiro Estágio: É equipado com um motor YF-75, desenvolvendo 167,17 kN de empuxo. O motor YF-75 é alimentado por uma mistura criogênica de Oxigênio Líquido e Hidrogênio Líquido (LOX/LH2).
Coifa para Carga-Útil: O diâmetro da carenagem do LM-3B é de 4,20 metros e seu comprimento é de 9,56 metros.

 

Além de possuir a configuração acima, o CZ-3B é adaptável para diversos tipos de missões. É atualmente o 2º maior foguete usado pela China, sendo capaz de lançar um satélite de 11.200 kg na órbita baixa da Terra ou uma carga de 5.100 kg em uma órbita de transferência geossíncrona.

 

Lançamento do último satélite da rede Beidou

O satélite foi colocado em uma órbita preliminar após 25 minutos de voo. Foi o 35º BDS-3 lançado desde 2015, incluindo satélites de teste e validação, e o 59º desde 2000. A China gastou aproximadamente US$ 10 bilhões no programa Beidou, cujo desenvolvimento foi aprovado pelo governo central em 1994. A rede Beidou, nomeada com a palavra chinesa para a constelação do ‘Grande Carro’ (Ursa Maior), inclui satélites posicionados em três tipos diferentes de órbitas e o sistema precisa de pelo menos 30 satélites operando a qualquer momento para um serviço de navegação global ininterrupto.

Satélite implantado em órbita. Créditos: Xinhua, China.

Diferentemente dos outros sistemas de navegação a rede Beidou  inclui 6 equipamentos em órbitas geossíncronas a mais de 36.000 quilômetros acima da Terra, com 3 deles estando permanentemente sobre o equador e outros 3 em órbitas inclinadas.

Apesar de sua importância para Pequim, o projeto enfrentou diversos contratempos, que vão de falhas em lançamentos a limitada cooperação de outros países devido as objeções americanas quanto à conexões com a China.

Momento em que o satélite abre seus painéis solares. Créditos: Xinhua.

O Sistema de Navegação por Satélite Beidou (BDS) foi construído, desenvolvido e é operado de forma independente pela China, levando em consideração as necessidades de segurança nacional e desenvolvimento econômico e social do país. As autoridades chinesas dizem que o sistema tem uma precisão de posição superior a 5 metros e que paralelamente à sua missão primária, o Beidou e suas capacidades são amplamente aplicados em comunicação, pesca marinha, monitoramento hidrológico, previsão do tempo, levantamento e mapeamento para informações geográficas, prevenção de incêndios florestais, sincronização de tempo para sistemas de comunicação, despacho de energia, mitigação e socorro em desastres, busca e salvamento de emergência e outros campos.

Os sistemas de navegação por satélite são recursos públicos compartilhados por todo o mundo, e a compatibilidade e interoperabilidade de vários sistemas se tornaram uma tendência. A China aplica o princípio de que “O BDS é desenvolvido pela China e dedicado ao mundo”, usando o sistema Beidou como uma ferramenta diplomática e econômica, como parte da iniciativa de política externa para o desenvolvimento do Cinturão Econômico da Rota da Seda.

“Depois que o sistema global estiver concluído este ano, o BDS poderá fornecer serviços satisfatórios para todos os cantos do mundo”, disse Yang Changfeng, projetista-chefe do sistema Beidou, de acordo com a Xinhua.

 

 

Sobre o Autor
Mateus de Paula Vieira é Engenheiro Aeroespacial e Pesquisador, é Colunista no DefesaTV desde maio de 2020. Escreve principalmente sobre Tecnologia Aeroespacial e projetos acadêmicos de foguetes e aeronaves.
Laboratório de Jato Propulsão / Bravo Rocket Team – Univap. bravorocketteam.github.io/homepage


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