Como insurgentes do Talibã se infiltraram em Campo Bastion, principal base militar do Afeganistão

Soldados do Exército do Afeganistão treinam sob supervisão americana no Campo Bastion, na província de Helmand - Adam Ferguson - 22.mar.2016/The New York Times

Alguns combatentes do Talibã se esconderam dentro de um caminhão de limpeza de esgoto, esperando que o cheiro no interior evitasse uma inspeção mais minuciosa; e deu certo. Eles entraram numa das principais bases militares do Afeganistão e então se esconderam em um armazém vazio.

Outros insurgentes usaram escadas para subir nas cercas, escalando dois conjuntos delas, depois cruzaram um espaço vazio que já havia sido protegido por sensores de movimento e câmeras infravermelho, mas agora só tinha guardas sonolentos nas torres de vigilância.

Os infiltrados também contavam com amigos em posições elevadas, segundo autoridades militares afegãs e americanas: um tenente-coronel afegão e um major sargento que explicaram aonde deviam ir e onde se esconder na base enorme.

O ataque ao Campo Bastion, na província de Helmand, em 1º de março, não foi um dos mais mortíferos do país, mas pode ter sido o mais vergonhoso. Foi a terceira vez que o Talibã se infiltrou naquela base, o quartel-general do 215º Corpo do Exército afegão.

Antes que o ataque terminasse, 23 soldados afegãos e trabalhadores da base estavam mortos, e os militares americanos mais uma vez teriam de socorrer uma base que foi entregue aos afegãos há muito tempo.

Um ataque aéreo dos Estados Unidos finalmente encerrou o ataque, depois de 20 horas de combate. Superados numericamente em 200 para 1, os talibãs mais uma vez deram uma aula que demonstrou a fraqueza dos militares afegãos, no centro de uma base responsável pela frente mais ativa na guerra do Afeganistão.

O primeiro a morrer foi o comandante da guarnição, o sargento afegão Sarajuddin Saraj, que devia sua importante posição a conexões políticas, segundo um ex-comandante. Os cerca de 20 a 30 infiltrados tinham se posicionado em trincheiras no meio da base, e quando começaram a atirar Saraj subiu num veículo com seu motorista e disparou na direção de uma emboscada. Os dois foram mortos.

Os insurgentes tomaram soldados afegãos como reféns e os fizeram atuar como guias para novos alvos. Os militantes rumaram direto para o centro de comando do batalhão, no centro da base, onde assessores americanos estavam em serviço, segundo uma reconstituição do ataque feita por dois oficiais americanos e confirmada por autoridades afegãs.

Ao mesmo tempo, os insurgentes lançaram outro ataque a uma base de fuzileiros navais americanos, o Campo Nolay, no distrito de Sangin, a 64 km de distância, aparentemente para desviar a atenção, mas os fuzileiros rapidamente o repeliram.

Em Campo Bastion, tropas de Operações Especiais dos Estados Unidos ajudaram a reunir os militares afegãos em posição de defesa. Fuzileiros navais abriram fogo das torres de vigilância ao redor de sua pequena base no interior do campo, destinada a proteger os cerca de 300 soldados de ataques internos.

Câmeras infravermelho lhes davam informação em tempo real enquanto os insurgentes avançavam do oeste em direção ao centro de Campo Bastion. As autoridades não explicaram por que o aparato tecnológico americano à sua disposição (de drones a interceptadores de rádio) não tinham advertido sobre a infiltração, para começar.

Mas o clima ruim prejudicou qualquer apoio aéreo nas primeiras horas do ataque. Mesmo assim, o dia já estava avançado quando o ataque foi dominado, com um ataque aéreo dos Estados Unidos que destruiu o armazém onde os talebans haviam s e refugiado.

Os turnos anteriores de fuzileiros em Campo Bastion tinham avisado que o Centro de Treinamento Regional no lado oeste da base, pouco defendido, era uma provável rota de ataque, mas aparentemente nenhuma medida foi tomada.

Os suspeitos no interior da base, segundo oficiais americanos, estavam encarregados daquela parte. Campo Bastion costumava ser o quartel-general da luta contra o Talibã no sudoeste da província afegã de Helmand, a área onde mais soldados americanos, britânicos e afegãos foram mortos no país.

Originalmente construída pelos britânicos, foi sua maior base no exterior desde a Segunda Guerra Mundial. Imediatamente ao lado ficava o Campo Leatherneck, uma extensa base construída pelos fuzileiros navais americanos.

Em seu apogeu, o complexo da base incluía habitações e instalações para até 30 mil soldados, 600 voos por dia usando uma pista de 3,2 km, capaz de receber aeronaves que podiam alcançar qualquer parte do mundo, amenidades como academia de ginástica com ar-condicionado, um restaurante Pizza Hut, uma engarrafadora de água mineral e defesas de última geração no perímetro da instalação de 31 km².

No entanto, ela foi infiltrada por duas vezes sob a guarda de forças internacionais. Em março de 2012, um homem-bomba arremeteu contra a cerca externa com um veículo SUV, por pouco não atingindo um general americano e um britânico, que conseguiram se esquivar.

Os dois esperavam por outro VIP, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Leon Panetta, cujo avião tinha pousado minutos antes do ataque. Alguns meses depois, em setembro de 2012, insurgentes cortaram a cerca de arame no perímetro leste da base e destruíram seis caças da Marinha americana Harrier AV-8B e danificaram seriamente outros dois, basicamente eliminando um esquadrão inteiro.

Eles também mataram o comandante do esquadrão, tenente-coronel Christopher “Otis” K. Raible, e um sargento dos fuzileiros, Bradley W. Atwell. Dois generais dos fuzileiros navais foram demitidos depois de uma investigação do Pentágono.

Os afegãos o rebatizaram de Campo Shorab depois que os americanos saíram totalmente e o entregaram em 2014, mas muitos continuaram usando o antigo nome. Eles conseguiram durante vários anos evitar intrusões dos talibãs, mesmo quando grande parte da base ficou abandonada, com prédios e campos de barracas vazios.

As defesas de alta tecnologia no perímetro, sem manutenção, desmoronaram. “Mesmo que os atacantes tivessem ajuda interna na base, a guarnição seria suficiente para detê-los se fizessem seu trabalho direito”, disse o coronel Nasimullah Alishanghai, o comandante anterior.

O analista militar general Atiqullah Amerkhel disse que a sensação de estar sitiadas havia mantido as forças afegãs concentradas na defesa, em seu prejuízo. “Nossos oficiais militares lá não têm o controle; eles geralmente apenas esperam para reagir ao Taleban”, afirmou.

As apostas são altas. “Campo Bastion é a maior e mais importante base no Afeganistão”, disse Ataullah Afghan, chefe do conselho provincial de Helmand. “Se garantirmos Helmand, garantimos o Afeganistão. Se a perdermos, perdemos o Afeganistão.”

  • Fonte: The New York Times, Via Folha de São Paulo


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