Crise na Venezuela: qual o papel da Rostec?

Sergey Chemezov, o presidente executivo da Rostec, é considerado um dos homens mais influentes da Rússia

A Rostec é responsável pela fabricação de produtos de alta tecnologia que exporta a dezenas de países ao redor do mundo – de aviões de caça a produtores farmacêuticos.

A companhia, cujas vendas contribuem para que a Rússia seja a segunda maior exportadora de armamentos do mundo – atrás apenas dos EUA -, acumula grandes empresas dos setores de aviação, defesa e eletrônica.

Uma de suas mais recentes aquisições é a Corporação Unida de Aviação, principal fabricante de aviões da Rússia. Menos conhecido internacionalmente que suas filiais, o nome Rostec tem circulado agora por causa de uma polêmica entre os Estados Unidos e a Rússia na crise na Venezuela.

Presença polêmica

“A Rússia me informou que tirou a maior parte de seu pessoal da Venezuela”, escreveu no Twitter o presidente dos EUA, Donald Trump, na segunda-feira.

O mandatário parecia confirmar uma informação publicada pelo jornal The Wall Street Journal, segundo a qual Moscou havia reduzido drasticamente a presença de seus assessores militares em território venezuelano, enviados pela Rostec. Tanto a empresa como o governo russo negaram essa informação.

Durante os últimos meses, a presença de funcionários russos na Venezuela tem sido um motivo de disputa entre Washington e Moscou, que discordam sobre a legitimidade do governo do venezuelano Nicolás Maduro.

Trump considera que o mandatário venezuelano foi reeleito em maio de 2018 de maneira fraudulenta. Por isso, em janeiro a Casa Branca reconheceu Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, como presidente interino do país.

Maduro, que tem apoio do Kremlin, acusa Guaidó de encabeçar uma tentativa de golpe de Estado planejada por Washington.

O salva-vidas de Moscou

Nos últimos meses, o governo de Vladimir Putin tem dado claros sinais de seu respaldo a Maduro por meios diplomáticos, no Conselho de Segurança da ONU e em operações de segurança e defesa.

Em dezembro, dois bombardeiros russos Tupolev 160 (TU-160) aterrisaram na Venezuela para participar nos “voos operativos combinados Rússia-Venezuela”.

No fim de março, outros dois aviões militares russos aterrizaram na Venezuela com militares encabeçados pelo segundo comandante do Exército da Rússia, Vasilly Tonkoshkurov, e 35 toneladas de equipamento, segundo informaram meios locais.

Trump respondeu e disse que a Rússia tinha que sair da Venezuela, enquanto seu enviado especial para o país, Elliot Abrams, assegurou que “os russos pagarão um preço” pelo que estavam fazendo.Mas as advertências da Casa Branca não parecem ter sido atendidas por Moscou nem então nem agora.

Essa terça, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, negou que funcionários russos tenham estado falando com o mandatário americano sobre a presença de militares da Rússia na Venezuela e assegurou que os efetivos que se encontram ali seguem com seu trabalho.

“Não sabemos o que querem dizer com ‘tiraram a maior parte de seu pessoal’. De fato, há especialistas que prestam serviços às equipes que foram enviadas à Venezuela. Esse processo continua de forma ordenada”, disse Peskov aos jornalistas.

A retirada dos empregados de Rostec também foi negada na segunda-feira por um porta-voz da empresa. Mas o que é Rostec e qual foi seu papel na estratégia do Kremlin?

Política e grandes negócios

A Corporação Estatal para Assistência ao Desenvolvimento, Produção e Exportação de Produtores industriais de Tecnologia Avançada, conhecida como Rostec, foi criada no fim de 2007 por um decreto do presidente Putin, que agrupava em um mesmo ente mais de 400 empresas estatais industriais, muitas das quais estavam falidas.

Durante seus primeiros anos, seus balanços financeiros não eram favoráveis. Foi em 2010 que começou a registrar ganhos.

Desde então, o conglomerado tem demonstrado uma crescente ambição e espera chegar à lista de maiores corporações industriais do mundo até 2025. Sua importância, no entanto, vai muito mais além de ser uma fonte de renda para Moscou.

“O Kremlin vê a Rostec como uma empresa bandeira do país, um conglomerado que usa como ferramenta em certas áreas. Seu objetivo é melhorar a capacidade da Rússia de competir no setor de alta tecnologia e de defesa”, diz William Courtney, pesquisador senior adjunto da Rand Corporation, um think tank (centro de pesquisas) que desenvolve pesquisas e análises para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

“Seu papel na estratégia russa é promover as indústrias de defesa e de alta tecnologia, mas por ser controlada pelo Estado tem que se responsabilizar por qualquer tarefa que o Kremlin lhe dê por razões políticas”, afirma.

Embaixo do guarda-chuva dessa corporação, Moscou colocou grandes empresas industriais de um amplo número de setores.

Isso inclui a fabricação de caminhões de carga, componentes eletrônicos de rádio, produtos médicos e farmacêuticos, plantas e estações de energia, veículos como o Lada, mas também fuzis Kalashnikov, helicópteros de guerra e de uso civil, bombardeiros e sistemas de mísseis.

Foi justamente esse último setor, de equipamentos e sistemas de defesa, que serviu para abrir as portas de Rostec na Venezuela.

Durante o governo do ex-mandatário Hugo Chávez, a Venezuela se converteu no principal comprador de armamentos da Rússia na América Latina e um dos maiores do mundo. Chávez e Putin assinaram acordos de milhões de dólares.

A Venezuela adquiriu mais de 20 bombardeiros Sukhoi de última geração, 40 helicópteros militares e de transporte, 100 mil fuzis Kalashnikov, quase uma centena de tanques e um avançado sistema de defesa antiaérea S-300, entre muitos outros equipamentos.

Esses armamentos foram vendidos por empresas como a Rosoboronexport, que é uma filial da Rostec dedicada à exportação de produtos de defesa. Embora a maior parte dessas compras tenha se concretizado durante o mandato de Chávez, Moscou manteve boas relações com o sucessor Maduro.

Influência

“A Rússia usa a venda de armamento como uma ferramenta para adquirir influência em certos países e para obter lucro”, diz Thomas Graham, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores, um centro de estudos com sede em Washington.

Em seu informe de 2017, a Rostec dizia que seus produtos estavam sendo vendidos a 70 países ao redor do mundo e indicava que as exportações de seu equipamento de defesa tinham passado em uma década dos US$ 6 milhões anuais a US$ 13 milhões anuais.

Uma parte dessas vendas foram direcionadas à América Latina, um mercado em que a Rússia começou a entrar mais incisivamente na década passada, mas que tem sido mais importante depois das sanções aplicadas pelos Estados Unidos contra Moscou por sua implicação na Ucrânia e na Crimeia.

Em 2013, a Rostec tinha escritórios de representação na Argentina, no Brasil, na Venezuela, na Colômbia, em Cuba, no México e no Peru.

Graham diz considerar que a Rostec “tem um bom desempenho dentro do contexto russo”. “O presidente da Rostec, Sergey Chemezov, é próximo a Putin, pelo menos desde que ele se tornou presidente, há 19 anos. Ambos vêm do setor de inteligência e se conhecem há muitos anos”, diz.

A crise na Venezuela

Qual é o papel da Rostec na crise da Venezuela? William Courtney considera que, apesar do desmentido do Kremlin, é factível acreditar que a Rostec tenha retirado o grosso de seus assessores da Venezuela.

O especialista assegura que a Rússia se preocupa que, caso o governo Maduro caia, o governo que lhe substituir não queira reconhecer as dívidas adquiridas.

Como exemplo, ele cita o que aconteceu em 2003 com a invasão do Iraque, onde, depois de ter apoiado Saddam Hussein, a Rússia teve que assumir a perda de uma dívida que ele havia contraído por US$ 13 milhões.

A petrolífera russa Rosneft tem múltiplos acordos na Venezuela, o país com as maiores reservas registradas de petróleo do mundo e também rico em gás.

Para alguns analistas, além da assessoria técnica e o trabalho de mantimento dos sistemas de defesa, a presença de pessoal da Rostec na Venezuela é parte de uma estratégia aplicada pelo Kremlin para proteger Maduro – a permanência russa serviria como um elemento de dissuasão para qualquer tentativa de uso da força por parte de Washington na Venezuela.

Ao mesmo tempo, a presença da Rostec garante a Moscou um lugar em qualquer mesa de negociação sobre a crise no país sul-americano.

Para Graham, os Estados Unidos evitam desde a época da União Soviética ter um enfrentamento com a Rússia – para evitar uma escalada e a possibilidade de um conflito nuclear devastador.

“Por isso, os Estados Unidos evitam cuidadosamente operar onde possa haver militares russos”, diz ele.

  • Com informações do site BBC Brasil

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