Curso na Academia Militar das Agulhas Negras ensina agentes como se orientar e resgatar feridos em territórios considerados hostis

Um PM recebe instruções de um militar do Exército durante treinamento em uma região de mata na Aman, em Resende: intervenção diz que traficantes têm usado áreas verdes em favelas como rota de fuga e esconderijo - Pablo Jacob / Agência O GLOBO

Há um ano, tropas do Exército desembarcaram nos acessos à Rocinha para tentar pôr fim a uma guerra entre traficantes rivais que espalhava o terror na favela. Enquanto 950 homens em veículos blindados e com o apoio de um helicóptero cercavam a comunidade, traficantes escaparam embrenhando-se pela mata fechada até chegar, quatro quilômetros depois, à Avenida Édson Passos, no Alto da Boa Vista. Outros grupos foram para o Morro do Turano, na Tijuca, o Alto Leblon e a Vista Chinesa.

Não foi a primeira vez que criminosos usaram a floresta para fugir ou mesmo esconder armas e drogas, mas o caso expôs ainda mais a fragilidade da polícia do Rio diante dessa estratégia adotada por quadrilhas em favelas cercadas por áreas verdes. Para preparar as polícias para atuar no campo do inimigo, a Academia Militar das Agulhas Negras recebeu, na semana passada, 64 policiais militares, civis e federais. Eles participaram do primeiro Estágio de Operações em Ambiente de Mata, realizado numa área de 68 quilômetros quadrados. A escola militar em Resende, no Sul Fluminense, abriga um dos mais importantes centros de treinamento tático do Exército, a Seção de Instrução Especial, responsável pela formação de combatentes brasileiros que também atuam na defesa da Amazônia.

POLICIAIS FICAM EXPOSTOS

Policiais das tropas de elite do Rio — batalhões de Operações Especiais e de Ações com Cães, Comando de Operações Especiais, Grupamento Aeromóvel e Coordenadoria de Recursos Especiais — aprenderam a usar bússolas para se orientar durante o dia e à noite em terrenos hostis. Eles também tiveram aulas teóricas e práticas de tiro, de rapel, de técnicas de abordagem e de técnicas de ação durante uma patrulha. Receberam ainda treinamento para fazer o socorro e o resgate de feridos. Chefe da Seção de Instrução Especial da Aman, o tenente-coronel Flávio Schmitz Júnior explicou que o curso tem o objetivo de preparar os policiais para enfrentar situações extremas em regiões hostis.

ÁREAS VERDES QUE SERVEM DE TRILHAS PARA O TRÁFICO

A mata é um ambiente muito peculiar, hostil, porque deixa o combatente desorientado. Ele perde as referências, não sabe para onde seguir e, neste momento, fica exposto às forças adversas. Por isso, precisa de treinamento específico, disse o militar. Um dos oficiais da Polícia Militar que participaram do curso de uma semana na Aman levou para a “sala de aula” a experiência que teve durante uma operação na Rocinha. Durante o auge dos conflitos, a gente foi apoiar uma equipe que ficou com pouca munição na mata. Os traficantes sabiam por onde entraríamos, e fomos emboscados. Ficamos duas horas encurralados, tomando tiros. Conseguimos sair ilesos, mas os bandidos fugiram para o Morro do Turano. A realidade é que os bandidos vão se adaptando ao meio, contou.

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OPERAÇÕES SIMULTÂNEAS

Para encurralar as quadrilhas, o Gabinete Federal de Intervenção (GIF), integrado por militares do Exército que comandam hoje a segurança pública do Rio, determinou que fossem feitas, na semana passada, operações simultâneas em favelas que têm ligação por meio de áreas de mata. É o caso de Rocinha e Vidigal, por exemplo. Há trilhas, também, que ligam comunidades da Praça Seca ao Complexo do Lins, assim como o Complexo da Penha ao Alemão. Segundo o coronel Marcus Vinicius Mansur Messeder, chefe da Comunicação Social do GIF, o treinamento de policiais faz parte das metas estruturantes do plano estratégico da intervenção, iniciada em 16 de fevereiro.

Até o momento, já foram realizados 49 cursos para 2.242 policiais, sendo 357 agentes de tropas especializadas e 2.065 policiais de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). O Estágio de Operações em Ambiente de Mata foi oferecido pela primeira vez para policiais. A ideia é recapacitar e fortalecer as polícias para que elas possam fazer o seu papel. E já estamos conseguindo resultados. Os equipamentos — armas, veículos e munição — ainda nem chegaram, mas já conseguimos reduzir os índices de violência — disse Messeder.

Fonte: O Globo
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