De musicista a Oficial Fuzileiro Naval: Conheçam um pouco da história da tenente Liana Arduino de Magalhães

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Primeira colocada na Turma de Auxiliar Fuzileiro Naval (AFN) no Curso de Formação de Oficiais (CFO) 2018 e 5ª na classificação geral do Curso de Aperfeiçoamento em Guerra Anfíbia e Expedicionária, a Segundo-Tenente Liana conta sua experiência até alcançar o oficialato na Marinha do Brasil (MB).

Desde 2001, as mulheres começaram a ganhar espaço no Corpo de Fuzileiros Navais (CFN). Naquele ano, militares do sexo feminino passaram a ser admitidas no concurso de Sargento Músico Fuzileiro Naval.

Uma das aprovadas foi a Segundo-Tenente (AFN) Liana Arduino de Magalhães, de 39 anos. “Éramos oito mulheres em uma turma de quase 400 homens, então ouvíamos o tempo todo que dependia de nós para que houvesse continuidade das mulheres no quadro de música do CFN. Pelo visto, deu certo”, diz ela, que concluiu recentemente o Curso de Aperfeiçoamento em Guerra Anfíbia e Expedicionária (C-Ap-GAnfE).

Atualmente, o CFN possui 49 mulheres, sendo três Oficiais, em seu efetivo de cerca de 18 mil militares. Com as novas possibilidades de ingresso da mulher tanto na Marinha, que agora admite militares do sexo feminino também na Escola Naval, quanto no CFN, esse número tende a aumentar nos próximos anos.

Em entrevista, a Tenente Liana conta como foi ser a única oficial mulher tanto no Curso de Formação de Oficiais do Centro de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW), quanto no C-Ap-GAnfE, curso com intensos treinamentos físicos.

Em uma turma que começou com 59 alunos e teve cinco desistências, a militar obteve a 5ª colocação geral. A tenente relembra, ainda, os 16 anos que passou como musicista na MB e dá dicas para as mulheres que sonham seguir a carreira de Oficial Fuzileiro Naval.

  • Conte-nos um pouco sobre sua vida antes de ingressar na Marinha. De onde veio o desejo de se tornar militar?

O desejo de me tornar militar tem relação com a música. Comecei meus estudos musicais na banda de música do Colégio São Vicente de Paulo, em Niterói, onde estudava. Conheci muitos músicos militares, porém, naquela época, ainda não existiam mulheres nas bandas militares.

Seria uma excelente maneira de conciliar vida musical com estabilidade financeira. Quando o CFN abriu vagas para Sargento Músico Fuzileiro Naval, sem distinção de gênero, não tive dúvidas e me inscrevi no concurso.

Apesar de já estar cursando a faculdade de licenciatura em música pela Uni-Rio e minha mãe achar que eu deveria terminar a faculdade antes de ingressar na vida militar, eu sabia que não poderia perder aquela oportunidade.

  • Quais experiências mais lhe marcaram durante os 16 anos em que atuou como musicista no CFN?

As viagens da banda sempre foram bem marcantes. Tive a oportunidade de conhecer todas as regiões do Brasil e vários países durante a XXVII Viagem de Instrução de Guardas Marinhas, além de explorar a cultura e a história de cada lugar por onde passei.

Porém, com certeza, a experiência mais marcante foi ter ido ao Haiti com o Conjunto Fuzibossa no Navio de Desembarque de Carros de Combate Mattoso Maia, de 2008 para 2009. Tocamos em vários locais, inclusive em praças públicas, e pude presenciar toda a miséria e o sofrimento que aquele povo passa.

  • Por que resolveu abrir mão da carreira de musicista e fazer a prova para Oficial?

De certa forma, fui influenciada pelas Tenentes Débora Freitas e Gizelle Rebouças, que foram as primeiras Oficiais do sexo feminino a passar na prova para o Quadro de Auxiliar Fuzileiro Naval. Comecei a pensar nessa possibilidade e resolvi encarar o desafio.

  • Como está sendo essa transição de musicista para combatente anfíbio?

Sinto um pouco a falta de estar mais em contato com a música e com o saxofone, mas estou feliz com a nova carreira e em como ela está se encaminhando.

  • Você obteve a 1ª colocação dentre os 27 militares na turma de Auxiliar Fuzileiro Naval (AFN) do Curso de Formação de Oficiais 2018 do CIAW e a 3ª colocação geral no curso. A que atribui esse excelente resultado?

Na verdade, não esperava ser a primeira colocada AFN. Eu estudava normalmente para as provas e tirava boas notas. Os colegas que me despertaram para a possibilidade de estar entre os primeiros colocados, mas nunca foi uma competição. Pelo contrário, todos na turma se ajudavam muito.

  • Você também obteve um excelente desempenho no C-Ap-GAnfE. Conte um pouco sobre sua experiência no curso. Como era sua rotina e quais as maiores dificuldades que enfrentou?

Ao longo desses quatro meses de curso, as maiores dificuldades pelas quais passei foram na parte física. Apesar de ter me preparado, senti muitas dores musculares, principalmente no início do curso.

Nos Exercícios no Terreno, a dificuldade é a exposição ao ambiente inóspito. Tudo o que possuíamos e podíamos usar era o que estava em nossas mochilas. Quando estávamos a bordo, no CIASC, fazíamos Treinamento Físico Militar e tínhamos aulas teóricas e práticas.

O regresso era mais cedo, pois precisávamos pegar material (capacete e colete balístico) e armamento todos os dias. Nos dias em que eu me sentia muito cansada, dormia a bordo para tentar me recuperar melhor.

Quando íamos para os Exercícios no Terreno, a rotina era mais puxada, tínhamos atividades até de madrugada e, em alguns casos, nem dormíamos. Comíamos ração e ficávamos dias sem banho.

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A tenente Liana, durante a Operação Formosa 2019
  • Como foi para você ser a única mulher da turma no curso? Sentiu algum preconceito por parte dos outros militares?

Eu já fui com a cabeça preparada para isso. Na turma de Fuzileiros Navais do CFO eu já era a única mulher. Porém, estabeleci fortes laços de amizade com alguns militares dessa turma, que foram essenciais durante o C-Ap-GAnfE.

Sentia-me mais solitária quando todos iam para o alojamento e eu ficava sozinha no meu camarote e durante as manobras, por não ter com quem dividir a barraca. Não senti nenhum tipo de preconceito.

Desde o início, quem não me conhecia viu que eu fazia tudo igual a eles: corria, nadava, fazia flexão sem os joelhos no chão. Então, acredito que isso tenha inibido qualquer preconceito que pudessem ter comigo.

  • Quais as suas expectativas com a nova fase que se inicia em sua carreira? O que representa para você ser a terceira mulher a se tornar Oficial Fuzileiro Naval da Marinha do Brasil?

São muitas as expectativas, devido às diversas possibilidades que a Marinha do Brasil e o Corpo de Fuzileiros Navais podem oferecer. Só espero estar pronta para qualquer missão que me for dada. Com certeza é uma honra e uma responsabilidade muito grande ser a terceira mulher Oficial Fuzileiro Naval e continuar o alto padrão que as Tenentes Gizelle e Débora construíram.

  • Para onde foi designada após o curso? Quais suas expectativas em relação à nova Organização Militar?

Fui designada para o 1º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais – Batalhão Riachuelo. Espero conseguir colocar em prática tudo que aprendi durante o curso.

  • Como é, na sua opinião, conciliar a vida pessoal com a carreira de Oficial Fuzileiro Naval?

Acredito ser possível conciliar a vida pessoal com a carreira de Oficial aproveitando ao máximo as folgas e os momentos de lazer. Como meu marido também é militar, fica mais fácil entender as peculiaridades da nossa profissão. Além disso, conto com o apoio irrestrito da minha família, todos estão muito orgulhosos da minha conquista.

  • Recentemente, a Escola Naval abriu vagas para mulheres ingressarem no Corpo de Intendentes, no CFN e no Corpo da Armada. Como você avalia o crescimento e o espaço que vem sendo proporcionado às militares na Marinha do Brasil?

Fico muito feliz e apoio incondicionalmente que tenhamos cada vez mais mulheres nas Forças Armadas e em posições de comando. É importante que nos seja dada a oportunidade de mostrarmos que somos capazes de atuar em qualquer profissão ou ambiente.

  • Para terminar, o que você diria às meninas que sonham um dia tornar-se Fuzileiros Navais?

O primeiro passo é querer. O segundo é se preparar fisicamente, não só por sermos mulheres, mas porque o esforço físico é demasiado para todos. Por último, DETERMINAÇÃO, persistir no objetivo até alcançar.

  • Matéria original publicada na Revista NOTANF, do Comando Geral do Corpo de Fuzileiros Navais, Edição ABR/MAI/JUN-2019
  • Adaptação: DefesaTV

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