Engenheiro aposentado mantém acervo da Segunda Guerra Mundial, na Grande Florianópolis

Sargento Dudevant em frente ao tanque que recebeu do Exército Brasileiro – Foto: Anderson Coelho/ND

Em Palhoça, os galpões estão lotados de tanques, caminhões, arsenal e uma vasta coleção que em breve será transferida para um parque temático em Tijucas

Quem ama geralmente sabe quando o amor surgiu, o porquê eclodiu. Mas há casos em que não é possível saber porque ele sempre esteve lá, guardado no peito esperando para sair e fazer história. Foi assim que aconteceu com o engenheiro Dudevant dos Santos Teixeira, que aos 74 anos está erguendo um imenso tributo à sua paixão: o Exército Brasileiro.

Às margens da BR-101, em Tijucas, está em construção o Parque Histórico e Cultural 14º Batalhão de Caçadores. São 15 mil metros de pavilhões que, mesmo com sua grandiosidade, possivelmente ainda seja pequeno diante do entusiasmo de Dudevant ao BC, a primeira faísca de sua reverência pelo Exército.

O jovem Dudevant ambicionava se alistar, prestar o serviço militar, seguir carreira e se tornar um sargento de armas. Mas, como acontece com muitas paixões, a conquista não foi fácil. A primeira tentativa de aproximação falhou, como um tiro n’água. Por ser arrimo de família, Dudevant foi dispensado.

Com o peso da frustração nas costas, ele estudou por correspondência, se preparou e saiu de Tubarão, onde morava, para fazer a prova de admissão ao curso de sargento, em Florianópolis. Diante da grandeza do 14º BC, Dudevant se emocionou e se desconcentrou. Foi reprovado e mais uma vez precisou dar meia-volta no desejo que escapava como uma bandeira arrancada do mastro pela ventania.

Ele conta que sentiu-se derrotado e não quis mais voltar à cidade natal, ficou pela Capital, ingressou no curso de engenharia e seguiu a vida. E no caminho a paixão pelo Exército se juntou ao interesse pela Segunda Guerra Mundial. Pesquisador e estudioso, passou a adquirir pequenos objetos sobre os dois temas.

A coleção de Dudevant cresceu, seu amor pelo Exército chegou ao conhecimento das altas patentes militares e então o engenheiro alcançou o objeto do desejo de toda sua vida de uma forma nunca imaginada. Ele foi diplomado ‘Sargento Honorário da Escola de Sargento de Armas’ pelo Comando da Escola e recebeu a divisa de terceiro sargento.

Como num romance, Dudevant nunca perdeu o interesse e sempre acreditou.

Parque em Tijucas

Um militar nunca perde a disciplina da rotina e entre elas está levantar cedo para as ordens do dia. O sargento Dudevant levanta às 5h para estar às 6h na obra do Parque Histórico e Cultural 14º BC, em Tijucas. São cerca de 80 quilômetros, ida e volta, a partir de São José onde mora.

Iniciada em 2014, a obra está avançada. Todos os pavilhões estão prontos e são réplicas do 14º Batalhão de Caçadores, extinto em 1973 e hoje 63º Batalhão de Infantaria, localizado no Estreito.

Como numa empreitada militar, todo o maquinário utilizado por Dudevant e os seis operários são verde oliva original, do Batalhão de Engenharia e Construção. “Todas as máquinas foram recuperadas por mim, depois de utilizadas passam por reforma e voltam para o acervo”, salienta o sargento honorário.

Construído com recursos próprios, a conclusão do parque sofreu um atraso de quase dois anos. O engenheiro conta que isso ocorreu devido a obra na rodovia. “Precisei fazer um quilômetro de acesso na margem da rodovia e isso levou tempo”, diz.

A previsão é de que o parque fique pronto no primeiro semestre de 2021. “Queremos receber crianças e jovens para colônia de férias no estilo militar. Também vamos receber adultos que queiram viver a rotina do soldado”, diz o sargento.

“É doido”

O parque não é criação recente desse apaixonado pelo militarismo. O imenso terreno foi adquirido há 28 anos e em pouco tempo os planos de uma vida estarão concretizados. Ao responder sobre o que dizem os amigos a respeito do empreendimento, o sargento solta uma gargalhada e diz: É doido!

De longe, sem conhecer bem o que move esse homem, é fácil concluir que pode se tratar de alguém meio louco, no entanto, ele é um visionário. A intenção dele é deixar para a posteridade todo a coleção em um empreendimento sustentável. “Quando eu me for, o parque poderá ser mantido sem dificuldades e continuar o trabalho de divulgação e preservação da memória militar”, afirma.

Capacetes e tanques de guerra

Em Palhoça, os 2,5 mil metros quadrados onde funciona o Pelotão Cívico Militar do 14º BC ficaram pequenos para a quantidade de história guardada e exposta nos galpões que, claro, remetem a grandes oficinas militares.

No local há muito de várias coisas, de capacetes a fardas, de documentos a armas, de caminhões a tanques de guerra. Entre eles um presenteado pelo Exército Brasileiro em 2014. A solenidade de doação contou com a presença do agora vice-presidente da República, general Hamilton Mourão.

Dudevant conta que o primeiro veículo da coleção foi encontrado por ele embaixo de uma árvore em Braço do Norte, interior do Estado. Ao pesquisar sobre o caminhão, o sargento soube que o pesado pertenceu ao 14º BC. “Viu só a coincidência?”, questiona, sorrindo.

A coleção tem diversos veículos usados na Segunda Guerra Mundial, como caminhão hospital e oficina, esse último é utilizado pelo sargento honorário quase que diariamente para os serviços de manutenção da frota. Todos os veículos são operacionais, funcionam perfeitamente.

Visitas

O Pelotão Cívico, mais conhecido como museu, recebe visitas agendadas de grupos de estudantes e de militares às terças e quintas-feiras. O local não é aberto ao público por falta de espaço.

Com informações ND Florianopolis

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