Estados Unidos rechaçam pedido do parlamento iraquiano para retirada de tropas do país

Os Estados Unidos rechaçaram o pedido do premier iraquiano, AdelAbdul Mahdi, para que enviassem uma delegação ao Iraque com o objetivo de formular um mecanismo para a saída de cerca de 5.200 soldados americanos do país.

Segundo um comunicado emitido pelo Departamento de Estado, qualquer missão enviada a Bagdá discutirá apenas a “parceria estratégica” entre as duas nações no combate ao Estado Islâmico.

“Os EUA são uma força para o bem no Oriente Médio. Nossa presença militar no Iraque é para continuar o combate ao Estado Islâmico”, diz a nota assinada pela porta-voz Morgan Ortagus. “É necessário, no entanto, que haja uma conversa entre os governos dos EUA  e do Iraque não só sobre segurança, mas sobre nossa parceria financeira, econômica e diplomática.”

A formulação de um plano para a saída dos militares americanos foi solicitada pelo Iraque na manhã de terça-feira, segundo um comunicado emitido por Bagdá, durante um telefonema entre Mahdi e o secretário de Estado, Mike Pompeo.

O pedido condiz com uma decisão não vinculante aprovada pelo Parlamento iraquiano no dia 5 de janeiro, em retaliação ao ataque aéreo ordenado pelo presidente Donald Trump contra o comboio que buscava o general iraniano Qassem Soleimani, no aeroporto internacional de Bagdá.

A operação, que o Iraque afirma ter violado sua soberania nacional, também matou Abu Mahdi al-Muhandis, vice-comandante das Forças de Mobilização Popular (FMP) que havia ido receber Soleimani.

As FMP são uma coalizão de milícias xiitas iraquianas pró-Irã formadas em 2014 para combater o Estado Islâmico e depois incorporadas às forças de segurança do Iraque.

A ação americana elevou as tensões entre os EUA e Irã a níveis raramente vistos desde a Revolução Iraniana de 1979 e a crise que a sucedeu, quando 52 americanos foram mantidos reféns na embaixada americana em Teerã por 444 dias, entre 1979 e 1980.

Em retaliação, a Guarda Revolucionária do Irã atacou duas bases que abrigam americanos no Iraque, sem causar mortes. Desde então, ambos os lados deram sinais de que não pretendem realizar novas ações militares diretas.

Ameaça de sanções

Quando o Parlamento iraquiano aprovou a retirada dos militares americanos, o presidente Donald Trump respondeu com raiva, ameaçando sancionar Bagdá e demandando reembolso pelos investimentos feitos no país ao longo das últimas duas décadas caso o Iraque insista na saída das tropas.

O secretário de Defesa, Mark Esper, por sua vez, disse acreditar que o povo iraquiano e seus parlamentares ainda querem a presença americana no país, iniciada há 17 anos. Os EUA invadiram o Iraque em 2003 para derrubar Saddam Hussein, sob o falso pretexto de que ele detinha armas de destruição em massa, e oficialmente se retiraram em 2011.

Durante o auge do conflito, havia 150 mil soldados americanos no país. Em 2014, no entanto, as tropas americanas retornaram ao Iraque após o Estado Islâmico tomar a cidade de Mossul e avançar em direção a Bagdá. Em outubro de 2019, havia cerca de 6 mil soldados americanos no país.

Hoje, a função dos militares americanos no Iraque é, basicamente, fornecer logística, inteligência e auxiliar na organização de apoio aéreo para os soldados iraquianos e milícias vinculadas ao Irã que encabeçavam o combate ao EI.

Apesar da decisão do governo iraquiano, a continuidade da presença não é alvo de consenso no país. As minorias sunita e curda, por exemplo, boicotaram o voto no Parlamento que aprovou a retirada dos soldados de Trump e teve apoio dos grupos políticos representativos da maioria xiita, entre eles as facções pró-Irã.

Parte dos muçulmanos xiitas, no entanto, procura se manter equidistante entre Washington e Teerã. O grande aiatolá Ali al-Sistani, principal líder religioso dos xiitas iraquianos, condenou o ataque americano e a retaliação iraniana, ambos em solo iraquiano, denunciando “violações repetidas” da soberania do Iraque. Segundo Al-Sistani, nenhuma força externa deveria decidir o futuro do Iraque.

“A utilização de métodos extremos por ambos os lados que têm poder e influência apenas aumentará a crise e impedirá uma solução”, disse um de seus porta-vozes durante a oração desta sexta-feira na cidade sagrada de Kerbala.

Milhares de pessoas voltaram a tomar as ruas de Bagdá nesta sexta-feira pedindo a saída dos EUA e do Irã do país. As manifestações dão continuidade ao movimento violentamente reprimido que começou no dia 1º de outubro, pedindo reformas políticas e econômicas.

A pressão fez com que Mahdi apresentasse sua renúncia, mas até o momento não há acordo sobre quem será seu sucessor.

  • Com informações da Bloomberg

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