Fragata Niterói: Sua história na Marinha do Brasil

Fragata Niterói em Salvador (BA) 2014

Recentemente a Fragata Niterói deu baixa na esquadra da Marinha do Brasil (MB), muitas unidades estão dando baixa recentemente devido a crise financeira que não permite reposição mais imediata de meios de nossa Marinha, mas esta Fragata tem muita a ver coma historia do Brasil todo e com o nosso dia a dia e muitos nem sabem disto, e está e a história do quanto um navio mudou a historia recente de nosso país.

Em 1969 a MB tinha nada menos que 5 tipos de destróieres oriundos do excedente da Marinha dos EUA, todos do período da segunda guerra mundial alguns com projeto até do inicio da guerra, como os da classe “Bertioga” e os construídos no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ) da classe MARIZ E BARROS.

Alem do tormento logístico de ter um mosaico de equipamentos, a guerra moderna  ia  em  um avanço devido a  guerra  fria  que  tornava nossa marinha quase  um anacronismo na guerra moderna, os eventos  ocorridos  no enfrentamento face a marinha  francesa na  chamada  guerra da lagosta, reforçaram ainda mais  esta disparidade de capacidade x efetividade, alem do que a disponibilidade  de  meios  que  iam se  tornando  cada vez mais  inoperantes devido a idade e desgaste, corríamos  o  elevado  risco de  termos  uma marinha inoperante devido a  idade, desgaste e ser  completamente  ultrapassada.

Em paralelo a isto   a guerra submarina tinha dado um salto qualitativo imenso no pós-guerra, e ficava patente que neste conjunto de problemas não tínhamos ou não teríamos em breve espaço de tempo capacidade de defesa de nossas águas territoriais.

Para piorar ainda mais o que não se devia piorar, o governo militar brasileiro, lançou a pretensão de expansão territorial, sobre as 200 milhas de nossa costa, pois já tínhamos a suspeitas de primeiras prospecções de um imenso campo de petróleo em nosso litoral, alem do que o evento da lagosta ainda era uma memória recente na armada e com a expansão litorânea a retomada desta crise parecia uma hipótese real.

A Marinha então criou um plano decenal de renovação da frota coma capacidade financeira que era destinada a ela na época, mas o plano desta vez não era de obter navios usados, mantidos em naftalina nos EUA, o plano era bem mais audacioso.

A Marinha queria construir meios modernos de defesa em nossos estaleiros, com o Maximo de transferência de tecnologia e se possível desenvolvimento desta aqui mesmo no Brasil.

Para começar o AMRJ projetou embarcações menores que não dependiam tanto de tecnologia, afim de já ir capacitando mão de obra para o projeto maior que viria em breve. Em 1968, começou-se a construir uma nova classe de seis navios-patrulha costeiros nomeados Classe Piratini, adaptados de baseados em projeto americano da Classe Cape.

Uma serie de diversas embarcações foi planejada de serem construídas ou no AMRJ ou em estaleiros nacionais, mas a meta final era chegar a renovação completa da força de contratorpedeiros usados como ponta de lança na defesa territorial e como meio de escolta de nosso porta aviões.

A opção natural e de continuidade de linha tecnológica era a de buscar junto a US NAVY um projeto que pudesse ser adaptado ou apenas construído aqui, como anteriormente já vinha sendo feito, mas esta ideia esbarrou em dois impedimentos criados pela marinha americana.

O primeiro era o de que queria continuar descarregando ainda excedentes de guerra e repasse de unidades da década de 50 para financiar seus novos projetos, que iam   custar muito para combater a crescente ameaça submarina da URSS.

O outro impedimento era o de que eles não pretendiam transferir tecnologia para o Brasil, em especial de sonares digitais modernos, tanto por medo de vazamento de tecnologia para a URSS, como por influência e pedido da França, que   era aliada na OTAN dos EUA e não pretendia ter a marinha do Brasil forte, devido à recente refrega da lagosta nas costas da Guiana.

Assim a via da possibilidade americana estava encerrada, e por motivos óbvios a França nem sequer era cogitada, mas o estaleiro Vosper tinha lançado recentemente uma classe de fragatas chamadas de classe Tipo 21 ou Amazon.

Oito unidades foram construídas para a Marinha Real Britânica sendo que sete navios participaram da Guerra das Malvinas e dois foram afundados. O projeto Mk 10 deriva muito das fragatas Tipo 21.

Como a Vosper queria também   aumentar  seu capital e vendas, pois a Royal Navy também ia   ter de renovar  sua esquadra face a ameaça submarina da URSS, substituindo os navios da Classe Leander e da Classe County, por navios mais novos  e modernos, e  a oportunidade criada pela  parceria com a Marinha brasileira abria um caminho bem interessante de desenvolvimento e investimento.

A MB começou a elaborar  um projeto que  pudesse ser  adaptado para a realidade brasileira e para os requisitos operativos da marinha nacional, bem como transferência  de tecnologia moderna para o Brasil, afim de capacitar  os estaleiros nacionais a produzirem maios  modernos de  combate de superfície.

A tarefa  hoje parece de  uma simplicidade  infantil, mas  o AMRJ não construía um navio de guerra de grande porte desde a segunda  guerra mundial, e os desafios  incluíam uso de materiais, soldagens, projetos, armamentos e principalmente INFORMÁTICA.

Vou aqui  explicar  o que  falei no  inicio  deste artigo o porquê este navio ser  um marco para  a industria  nacional e  ao dia a dia  de todos. Para começar os navios de guerra  tinham em sua maioria abandonado a  construção em chapas de aço, para o uso de alumínio de alta densidade e soldagem para este metal.

Só este item já demandou passarmos  de  exportador  de bauxita não processada  para  termos de  construirmos  um meio de  aumentar a fabricação e do processamento de  bauxita para extrair alumínio, fundi-lo e laminar  em chapas de alumínio de alta densidade, em parceria  com a iniciativa privada chegou-se a este objetivo em pouco tempo, criando- se assim a  primeira  sinergia de  desenvolvimento nacional, e passamos a  exportar este tipo de  alumínio para o mercado externo, criando  assim mais  um nicho de  riquezas para  industria nacional.

A mão de obra  para  construir  este material tinha de ser  formado do zero pois  este tipo de construção exigia  o  uso de  soldagem TIG, um tipo de solda  que nunca  tinha sido  feita  em nosso  território  em grande escala  e  em  um projeto  tão grande, esta soldagem alem de  usar  um eletrodo de Tungstênio que não era fabricado no Brasil, também só era  realizada em volta da poça de fusão da solda, protegidos por uma atmosfera protetora de gás inerte que  também  não era  disponível em grande escala.

Novamente, a Industria  nacional  atendeu  ao chamado da Marinha e  garantiu a viabilidade  de   fabricação dos eletrodos  em nosso pais, diante da  demanda aumentada e  da necessidade de pronta disponibilidade dos eletrodos, sem esperar importações deste material, alem disto as plantas de gases  aumentadas das  industrias permitiram novos projetos  de engenharia  fora  da  Marinha, em especial na construção civil, usando alumínio de alta densidade, hoje vemos prédios com este material  e nem imaginamos  aonde tudo começou.

O projeto da Niterói também quebrava  um paradigma  nos projetos  anteriores, pois nos projetos não  se havia a previsão de emprego em um possível ambiente de  guerra com emprego de  agentes químicos, biológicos  ou  radiológicos, começamos  do zero novamente  nestas  três  áreas, criamos  marcadores  de detecção para cada  um destes elementos, bem  como  desenvolvemos  na  industria nacional produtos para emprego nestas  três áreas.

Hoje temos filtros feitos até de palha de coco que filtram patógenos nocivos, detectores de radiação em uso na usina de Angra dos Reis e em laboratórios  de  imagem, recentemente  no  evento de ruptura da barragem de Brumadinho equipamentos de  detecção de elementos químicos  no  rio, de busca de corpos  por meio de detecção química, são frutos desta longínqua origem.

O paradigma mudado  e as normas de procedimento surgidas  deste novo  tipo de procedimento, foi  incorporado a  rotina da Esquadra e passamos a ter navios  com ar condicionado triplamente  filtrado e  com pressão positiva, que alem de aumentar a produtividade da  tripulação  pelo conforto, e quem foi embarcado alguma  vez nos  antigos  Contra- Torpedeiros, sabe bem o que  estou falando.

Os  sistemas  todo a  bordo e  os meios  de emprego  mudaram dos antigos Centro de Informações de Combate (CIC), aonde as  informações  a volta da nau eram dados em telas dos radares em  consoles separados, com um operador em cada  console e com obsoletos quadros de informações de ameaças aonde  as informações eram repassadas por  headfone e plotados nos quadros manualmente, este sistema demandava um precioso  tempo que  em tempo de  guerra de superfície com emprego de mísseis anti navio, tornava isto  quase  um  suicídio.

Passamos a adotar o sistema  de COC – aonde  cada mesa recebia  em uma tela  digital informações simultâneas de radar, sonar, armamentos, ameaças  e  condições a bordo, aonde cada  operador  recebia  não só  a  informação de ameaças e possível defesa, bem como o  próprio sistema agia  independente da iniciativa do operador, tornado  a  redução de resposta  as possíveis  ameaças  para micro  segundos.

Mas foi aí que a parte mais sensível e atrasada  de nossa industria  apareceu, toda  esta resposta imediata  tinha por  base  um  equipamento  que não fabricávamos  no Brasil, sequer  em escala  experimental, um equipamento  hoje  tão comum  que  passa até desapercebido.

A resposta  é COMPUTADORES, isto mesmo, o Brasil hoje  tem na  informática, um uso tão corriqueiro que nem notamos, mas nos  anos  70  o que tínhamos  eram alguns  computadores  de grande porte  que em nada serviam para  a missão que  a Marinha queria.

A solução  foi criar  do zero uma industria  ou ao menos  um  embrião de  industria de informática nacional, e foi criada a Computadores Brasileiros (COBRA). A fundação da empresa foi desde o inicio apoiada pela MB, o BNDES e a Ferranti inglesa.

A equipe da empresa foi formada inicialmente por membros do projeto Pato Feio da USP, da Pontifícia Universidade Católica do Rio e Janeiro e do SERPRO, o Serviço Federal de Processamento de Dados, criado em 1964 para dar agilidade a setores estratégicos da administração pública.

Inicialmente a empresa produzia os consoles das fragatas Niterói desenvolvidos pela empresa  inglesa Ferranti. Com o conhecimento adquirido, novos modelos e placas foram produzidos, até ser produzido em 1980 o COBRA 530, o primeiro computador comercial totalmente projetado e construído no Brasil.

Outro modelo que foi muito popular no Brasil nos anos 1980 foi o COBRA 210, fabricado a partir de 1983 com um processador Z80, compatível com 8080 e dois drives para disquetes de 8 polegadas (figura).

A COBRA beneficiou-se durante os anos 1980 com a lei de reserva de mercado que impedia a importação de computadores estrangeiros se houvessem similares no Brasil. A falta de competição, porém, foi considerada como não saudável, e um certo atraso nos parques computacionais brasileiros foi o resultado dessa polêmica política, que acabou sendo relaxada a partir dos anos 1990.

Assim, com a abertura do mercado, a maioria das empresas brasileiras de computadores não era competitiva e acabaram fechando as portas ou sendo vendidas. A COBRA foi adquirida pelo Banco do Brasil, e em 2013 mudou seu nome fantasia para BB Tecnologia e Serviços (BBTS), surgia assim a informática no Brasil.

Mas tal visão de futuro não  ficava restrita a estes consoles, as válvulas  automatizadas e operadas  por  computador, os controles de incêndios automatizados de bordo, o monitoramento  de  maquinas e motores por mio digital tornaram os navios  quase  tão automatizados, que hoje imaginar a ponte de comando ter de ligar para  a casa de maquinas  para  reduzir as maquinas ou fechar uma válvula quase  como algo medieval.

Desnecessário dizer que  hoje entramos  em prédios  completamente  automatizados, com monitoramento  de segurança, com brigadas  e sistemas  de incêndio automatizadas, com painéis de controle  de consumo de energia e sobre carga, tudo oriundo desta ancestral origem naval e que hoje  circula entre nos  e  que hoje soa  quase como  uma fantasia.

Tudo isto mudou completamente o meio de emprego, mas  tenho de  lembrar  que  nada disto seria  importante  se não desenvolvêssemos em nossas terras armamentos modernos destes navios, até a a forma de lutar  mudou e a Marinha vivia  ainda  como  se  enfrentássemos o Eixo da  segunda  guerra mundial, nenhum navio nosso tinha mísseis anti navio, ou salvo uns pouco contra torpedeiros adaptados também não tínhamos mísseis superfície-ar e aeronaves embarcadas.

O novo projeto usava mísseis Exocet de fabricação francesa pela Aérospatiale e  isto podia  ser  um empecilho de emprego diante da já narrada guerra da lagosta, mas a Westland Helicopters e esta empresa francesa tinham  desenvolvido em conjunto o helicóptero que  seria  usado com  orgânico nas  fragatas e com certa diplomacia e comprometimento de  contratos de não cessão de tecnologia dos Exocet e uso em  somente duas  das fragatas da série, o projeto  seguiu  sem percalços.

Hoje quarenta anos depois a industria nacional desenvolveu  seu próprio míssil anti-navio nacional e não mais  usaremos  este equipamento, mas  quase ninguém lembra   que seu emprego e  vanguarda de emprego começou em nossa marinha.

O projeto Fragata Niterói gerou um imenso desenvolvimento no nosso país, que  hoje  deixa  um legado em nosso pais  que  quase não  é lembrado,e  torna  tão penoso a sua baixa  ou sequer a sua preservação como navio museu na  cidade que lhe  dá nome.

Mas o caminho aberto por ela  foi percorrido em diversos navios posteriores inclusive com a construção integral de duas  fragatas de sua  classe (Independência – F44 e União F-45)  e o navio escola Brasil que é  uma Fragata alongada e que   pode ser convertida em  tempo de guerra em navio hospital, inclusive  há que  se mencionar  que  com base neste modelo  chegou-se a pensar  em uma Nov a classe de fragatas maiores  e  de emprego antiaéreo, mas isto não  foi adiante.

A Marinha  hoje  concentra seus esforços na direção do submarino nuclear, que  apesar de sofrer  imensas criticas dos leigos que vão desde piadas, até criticas de despesa, passando pelas sandices pacifistas  de que  não necessitamos de navios nucleares e  de mais armas.

Tais pessoas sequer podem levadas a sério ou mencionadas os adjetivos que as qualificam em um trabalho serio como presente, pois alem de não saberem  do legado da Fragata Niterói, desconhecem que a tecnologia de soldagem continua desenvolvida e aprimorada na Nuclep para os submarinos cria tecnologia de ponta, bem como o projeto do reator desenvolvido e Aramar, já  foi até alvo de espionagem devido a sua avançada tecnologia.

A marinha baixou a Fragata Niterói mas seu legado hoje reside na mentalidade de emprego da força naval e no desenvolvimento de tecnologia advinda  da mentalidade correta de nossa armada, pena que a escassez de recursos e tal mentalidade hoje é parca devido a crise e a escassez de pessoas  com mais  visão alem de suas ideologias.

Deixou historia a fragata e seu projeto que venham outros apesar das dificuldades, BRAVO ZULU FRAGATA NITERÓI.

JG

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