Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil na primeira comissão de inverno da Antártica Brasileira

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Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil na 1ª Invernada Antártica na EACF. Foram oito meses de isolamento desde a chegada em março até a chegada do navio em novembro de 1986. Da esquerda para a direita: Em pé: Elkfury, Caiado, Moreira, Nilson, Iderley e Tardin. Agachados: Luiz Felipe, Marcelo, Hadano, Plínio e Chagas (Civil do INPE). Foto via CA FN Elkfury.

Em março de 1986, após anos de estudos e planejamentos, onze militares brasileiros, imbuídos dos sentimentos de realização profissional e pessoal e espírito de aventura, participaram, voluntariamente e com muito orgulho, da primeira comissão de inverno na Estação Antártica Comandante Ferraz.

Um feito que deve sempre ser lembrado, pois os frutos dessa “aventura” foram colhidos por toda uma nação, e até hoje servem de inspiração para jovens e orgulho para os antigos.

Apesar do tema “Antártico” ser algo aparentemente alheio ao mundo militar e da defesa da nação, a realidade é que quanto mais extrema a missão, mais se aprende com a estruturação de projeção de poder, que é uma das principais atividades do planejamento de operações militares, que sempre trarão os devidos “rolls” de conhecimento e experiência que qualquer força militar moderna precisa para sua auto-afirmação como tal.

Aventura, do latim “ad venture”, significa literalmente o que vem pela frente. Participar de uma atividade de aventura significa estar preparado para o que vier. Para algumas pessoas, uma grande aventura é a busca de si mesmo, ou, a construção daquilo que já sabemos o que somos.

No contexto de uma narrativa, o gênero aventura é tipicamente aplicado às obras e/ou ações em que o protagonista, ou outros grandes personagens são constantemente colocados em situações perigosas, de grande risco, de enfrentamento do desconhecido.

Histórias heroicas mitológicas passam de cultura para cultura seguindo um padrão, começando pelo “chamado para a aventura”, seguido por uma jornada perigosa e um eventual triunfo e glória ( que muitos arriscam mesmo sabendo que a chance de obter tal seja mínima).

O “espirito de aventura”, de desafiar o desconhecido, e conquistar o que se pode ser impossível é sempre associado ao mundo militar, porém o que faz a diferença entre aventuras de conotação pejorativa para a aventura militar em tempos de paz é; o estudo, planejamento e preparação, todas estas ações sempre estiveram inerentemente ligadas ao sucesso das aventuras que somaram o carácter militar com o conhecimento científico humano.

Ler a história narrada pelo contra-almirante Fuzileiro Naval José Henrique Salvio Elkfury é viajar com esses Fuzileiros em sua aventura, é sentir na pele cada emoção que envolvem os esforços dos estudos e planejamentos árduos que esses militares da nossa Marinha realizaram em uma época que mal se imaginava a internet, computadores portáteis ou comunicação por telefonia via satélite.

PRIMEIRA COMISSÃO DE INVERNO NA ESTAÇÃO ANTÁRTICA COMANDANTE FERRAZ – 1986

O princípio de tudo…

Por: Contra-Almirante Fuzileiro Naval Elkfury¹

A gestão do Almirante Maximiano Eduardo da Silva Fonseca como Ministro da Marinha (1979-1984) foi marcada por várias medidas pioneiras, entre elas o início das atividades brasileiras na Antártica.

Embora o Brasil tivesse aderido ao Tratado da Antártica em 1975, somente em 1982 foram implementadas as primeiras ações que mostrariam nosso interesse por aquele continente: criação do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), em janeiro, sob coordenação da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM); e aquisição do Navio de Apoio Oceanográfico (NApOc) “Barão de Teffé”, que realizou nossa primeira expedição à Antártica entre Dezembro de 1982 e Fevereiro de 1983, junto com o Navio Oceanográfico “Professor Wladimir Bernard”, da Universidade de São Paulo.

Essas ações, seguidas por outras, tanto pelo Almirante Maximiano como pelos Ministros e Comandantes da Marinha seguintes – como a instalação da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), em 1983, e a primeira invernação, em 1986, tema deste artigo – transformaram o Brasil em protagonista na comunidade antártica internacional.

Durante a Operação Antártica I, as visitas a bases de vários países e a seleção de locais para instalar uma base contribuíram com os primeiros subsídios para planejar a futura estação brasileira. Participaram representantes de várias instituições, governamentais e privadas, e de diversos setores da Marinha, que poderiam vir a apoiar ou participar do PROANTAR.

Esses observadores foram organizados em grupos que obtinham dados sobre as pesquisas em andamento e sobre o funcionamento das bases visitadas, sendo que um desses grupos focava especificamente a seleção e treinamento de pessoal e a logística.

Como resultado da expedição, em que também foram levantados dados hidrográficos, oceanográficos e meteorológicos, o Brasil foi aceito como Parte Consultiva do Tratado da Antártica, em 12 de setembro de 1983, passando a ter direito a voto nas decisões daquele colegiado.

Em 6 fevereiro de 1984, na Operação Antártica II, a EACF foi ativada, na Península Keller, Baía do Almirantado, Ilha Rei George, evento que veio a reforçar a posição brasileira no Tratado da Antártica. Durante as duas operações seguintes, a EACF foi ampliada.

Nesse contexto, o ano de 1985 foi dedicado ao detalhamento do planejamento e das ações preparatórias para a terceira comissão de verão (1985-86) e para a primeira de inverno (1986).

Para esta, foram consideradas as experiências das comissões de verão na EACF e a participação de um observador brasileiro na campanha de 1984 da Base Antártica General Belgrano 2, do Exército Argentino (JAN1984-JAN1985).

Foi definido o cronograma da Operação Antártica IV, definindo-se o período de março a dezembro para a invernação, e foram escolhidos os projetos de pesquisa, conduzidos basicamente pelo Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE).

Para operação e manutenção da Estação, foi estabelecido o Grupo Base: Chefe da Estação; Subchefe e Oficial de Comunicações; Médico da Estação; Encarregado da Estação Rádio; Encarregado de Eletricidade; Encarregado de Motores e Viaturas; e Encarregado da Cozinha.

Os voluntários para a comissão, tanto da Marinha como do INPE, passaram por processo seletivo realizado em três etapas: exames médicos; avaliação psicológica, conduzida pelo Serviço de Seleção de Pessoal da Marinha (SSPM); e treinamento.

O treinamento teve duas fases. A primeira, visando o preparo da futura Tripulação e a definição dos candidatos com melhor aptidão para a missão, foi conduzida pelo Batalhão de Operações Especiais de Fuzileiros Navais, na região de Itatiaia, com participação de instrutores do Clube Alpino Paulista e psicólogo do SSPM.

Foram ensinados procedimentos de segurança e passadas orientações sobre sobrevivência em regiões frias, servindo, ainda, para o desenvolvimento do espírito de equipe, haja vista a necessidade de confiança mútua entre os integrantes de uma cordada durante escaladas. Foram dias de exercícios intensos, com baixas temperaturas, que permitiram definir a Tripulação para a invernação.

A segunda fase abrangeu assuntos básicos, comuns a todos, e tópicos específicos de cada função. A parte básica foi realizada em dois locais: na Escola de Saúde do Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD), abordando primeiros socorros e cuidados com a saúde em geral; e no então Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia, hoje Centro de Avaliação da Ilha da Marambaia (CADIM), abrangendo orientação e navegação terrestre, natação utilitária, prática com pequenas embarcações, sobrevivência no mar e atividades físicas.

O período no CADIM serviu também como oportunidade para reunir a Tripulação, em ambiente relativamente isolado, visando melhor conhecimento mútuo e desenvolvimento do companheirismo.

Os tópicos específicos foram realizados em diferentes locais, com o cuidado de, para cada função, haver outro tripulante capacitado para substituir o titular, em situações de emergência – o que só não foi possível para o Médico, mas, em emergências, haveria o apoio das outras bases.

Para os pesquisadores, o treinamento foi no próprio INPE. Para o Grupo Base, em Organizações Militares (OM) da Marinha e nos fabricantes dos principais equipamentos. O Médico passou por diferentes clínicas do HNMD, o Encarregado de Eletricidade e o Encarregado de Motores e Viaturas fizeram estágio na SAEF, empresa que estava construindo as instalações da Estação, e assim por diante.

Deve-se ressaltar que o processo seletivo e o treinamento são elementos básicos para que a futura Tripulação venha a trabalhar com eficiência e conviver em harmonia, pilares de sustentação de uma boa comissão de inverno na Antártica.

Na parte administrativa, foram levantadas as necessidades de material de consumo, com a devida margem de segurança, em especial víveres, combustível e material para a segurança do pessoal e das instalações, e equipamentos para funcionamento da Estação, incluindo tanto os itens necessários à sobrevivência do grupo como alguns meios para proporcionar o desejável nível de conforto para quem ficaria nove meses isolado.

Em situações de emergência, itens de material poderiam ser levados por aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) até a Base Eduardo Frei, da Força Aérea do Chile (FAC), de onde poderiam ser transportados por helicóptero (He) até a EACF, ou, dependendo das circunstâncias, poderia ser feito o lançamento de carga aérea a partir das aeronaves da FAB.

No sentido inverso, eventuais evacuações poderiam ser feitas por He da FAC, da EACF para a base chilena, e de lá, por avião, para Punta Arenas, cidade chilena mais austral.

Em março de 1986 foi realizado o deslocamento para a Base Eduardo Frei, em aeronave da FAB, partindo do Rio de Janeiro, com escalas em São Paulo, para embarque dos pesquisadores do INPE; em Pelotas, para pernoite, reabastecimento e recebimento do vestuário a ser utilizado em Ferraz; e em Punta Arenas, para novo pernoite e reabastecimento.

Da Base Eduardo Frei fomos para a EACF a bordo do NApOc “Barão de Teffé”, onde a Tripulação chefiada pelo Capitão de Fragata Antonio José Teixeira nos acolheu com sua peculiar fidalguia. Foi um período curto, com intenso trabalho para passagem das funções, incluindo transmissão detalhada das informações de cada setor, o que foi feito com elevado profissionalismo pela Tripulação de verão.

Visita do então Ministro da Marinha, Almirante Henrique Sabóia à EACF e o início da invernada antártica brasileira.

Finalmente, chegou o dia 19 de março, quando, com a presença de três Ministros de Estado – Almirante Henrique Sabóia, da Marinha, Abreu Sodré, das Relações Exteriores, e Renato Archer, da Ciência e Tecnologia – foi realizada a cerimônia de passagem de comando, com a transferência de responsabilidade pela condução da Estação, assegurando, assim, sua ocupação permanente, para realização continuada de experimentos científicos.

Com a partida dos convidados, iniciamos nossa comissão de inverno. O período de nove meses que se seguiu até dezembro pode ser dividido, em linhas gerais, em três etapas: a primeira, para arrumação; a segunda, conservação; e, a terceira, preparação para a próxima Tripulação.

Em qualquer desses períodos, a definição de “o que fazer” para cada membro da equipe foi importante, tanto para cada um melhor utilizar seu tempo, evitando a indesejável ociosidade, como para o saudável equilíbrio na distribuição do trabalho.

Assim, além das atribuições funcionais e limpeza de seu camarote e local específico de trabalho, cada um contribuía, dentro de suas possibilidades, com a execução das tarefas de caráter geral. Para a limpeza das áreas comuns e arrumação da mesa das refeições, havia um serviço diário, com participação inclusive do Chefe da Estação, com exceção do Cozinheiro.

Fainas gerais, como limpeza externa após uma tempestade de neve, para desobstruir os acessos, era realizada por todos que estivessem disponíveis. De um modo geral, o Chefe, o Subchefe e o Médico eram “mão de obra não especializada”, sempre prontos para fainas gerais ou para ajudar um dos especialistas em tarefas mais pesadas. Nos domingos, o Cozinheiro tinha folga, sendo substituído pelos demais tripulantes, organizados em duplas.

Vejamos, então, o que cada um fazia. Os quatro pesquisadores do INPE, o Bacharel em Física Plínio Carlos Alvalá e os Técnicos em Eletrônica José Roberto Chagas, Armando Tatumi Hadano e Marcelo Sampaio, tinham como tarefa a operação e manutenção dos equipamentos dos diferentes projetos de pesquisa.

Propagação na baixa ionosfera (FIX-VLF), medidas de radônio na baixa atmosfera, investigação geomagnética e circulação atmosférica, localizados em dois conjuntos de módulos, afastados do núcleo central das instalações da Estação, com o caminho entre eles balizado para facilitar o deslocamento sob condições adversas de tempo e visibilidade.

As tarefas eram basicamente de registro de dados e obtenção de amostras, para posterior estudo no INPE. Vale ressaltar que os quatro pesquisadores, oriundos do meio civil, integraram-se muito bem com os militares, conduziram com sucesso as atividades de pesquisa, realizaram com empenho as tarefas comuns e foram muito agregadores.

O Plínio, sempre tranquilo, supervisionou muito bem as atividades de pesquisa. O Chagas, prestativo e amigo, muito contribuiu para a harmonia do grupo. O Hadano, sempre bem disposto, calado, mas com intervenções engraçadas nos momentos certos, gostou tanto da Antártica que retornou várias vezes.

O Marcelo, que se revezava com o Dr Caiado no violão nos momentos de lazer, também ajudou muito a manter o bom ambiente da Tripulação. No Grupo Base, que assegurava o funcionamento da Estação, as tarefas específicas são evidentes, mas alguns comentários devem ser acrescidos.

O Cozinheiro, por exemplo, não era só o responsável pela preparação da comida, ele tinha a importante função de contribuir para o moral da Tripulação, pois as refeições constituem os principais eventos sociais na Estação e a satisfação decorrente de uma boa alimentação muito contribui para o bem-estar de cada um.

Nesse aspecto, o então Sargento Cozinheiro Submarinista Durval Moreira de Araújo teve atuação marcante, pelo esmero no preparo dos pratos, mesmo com as naturais limitações, pois não havia vegetais nem ovos frescos – eram desidratados ou liofilizados – o que não impediu de curtirmos nossa tradicional feijoada e ovos mexidos, sem contar o aroma das fornadas de pão.

A vivência em submarinos o fez conhecedor da importância de sua função, sem contar sua personalidade agregadora e amistosa.

O Sargento Fuzileiro Naval Nilson Gomes da Silva, especialista em Comunicações Navais, também teve valiosa contribuição para o moral da Tripulação, pois, além de manter o tráfego de mensagens entre a EACF e a SECIRM, bem como com as demais bases próximas, organizava os contatos com os familiares, via Junção Rádio (Estação Costeira da EMBRATEL) ou radioamadores.

Vale lembrar que em 1986 não havia Internet, era somente rádio, em frequências HF, com as típicas interferências eletromagnéticas daquela região. Por exemplo, durante a Copa do Mundo, estávamos ouvindo Brasil x França, pênalti a favor do Brasil e… propagação em baixa, só voltamos a ouvir quando o Brasil já estava desclassificado. Mas o Nilson era incansável em buscar boas condições para os contatos, muito ajudando cada tripulante a manter um vínculo com a família.

Pelas tarefas do Encarregado de Eletricidade, Sargento Eletricista Ézero Izidorio Tardin, podemos ter uma ideia da importância de seu trabalho para o funcionamento da Estação: redes e equipamentos elétricos, redes hidráulicas e de esgoto e faina de tratamento do lixo.

O Tardin precisou, na fase de treinamento específico, fazer diferentes cursos e passar um período na empresa SAEF, fabricante dos módulos e demais instalações, para adquirir os conhecimentos necessários à sua função que iam além da sua especialidade, particularmente na área hidráulica.

Com dedicação e esforço ele garantiu que a infraestrutura da EACF funcionassem bem durante todo o período, mesmo com as temperaturas mais baixas. Além do cuidado com as instalações, alegrava os momentos de lazer cantando sucessos de MPB ou disputando Aliado – jogo de tabuleiro, parecido com o Ludo, tradicional na Marinha do Brasil como distração nas longas travessias.

O Suboficial Fuzileiro Naval Iderley Silva de Carvalho, especialista em Engenharia de Combate e Mecânica de Aviação, como Encarregado de Motores e Viaturas era responsável pelos geradores, operava o trator e cuidava das embarcações.

Teve muito trabalho logo que chegamos na EACF, pois ajudou nas fainas de desembarque e posicionamento de vários módulos, operando o trator. Depois, seu meticuloso trabalho verificando o funcionamento dos geradores e suas rotinas de manutenção foram fundamentais para que não tivéssemos qualquer tipo de problema na usina de energia, inclusive testando os geradores de emergência.

As embarcações e motos para neve também estiveram sempre disponíveis, permitindo fazer visitas à Base Arctowski, da Polônia, situada na entrada da Baía do Almirantado – embarcação no verão e motos no inverno, com o mar congelado. No final da comissão, com a chegada de material no NApOc, mais trabalho teve operando o trator.

Para um médico, principalmente cirurgião, uma comissão na Antártica pode representar uma dificuldade, pois passará um longo período sem operar, mas poderá haver um único momento, ao longo de um ano inteiro, em que seus conhecimentos sejam necessários e, se não estiver lá, pode-se perder uma vida.

Foi o que aconteceu em 13 de julho, durante uma caminhada na elevação que fica atrás da Estação, para recolocar na posição uma das cruzes lá existentes, pois havia tombado. O Marcelo teve uma queda, com fratura na base do crânio.

Trazido para a Enfermaria, a atuação do Primeiro-Tenente Médico Arnoldi Ramos Caiado Filho foi fundamental para a sobrevivência do Marcelo, até sua evacuação para Punta Arenas, conforme previsto para situações de emergência.

Considerando a urgência do caso, o percurso para Punta Arenas foi feito com avião Twin-Otter da FAC da Base Eduardo Frei, em vez de vir um Hércules de Punta Arenas. O apoio chileno foi irrepreensível, desde o primeiro contato, com o emprego do He e a rápida preparação do avião, até a recepção, internação e tratamento em Punta Arenas.

Felizmente, tudo correu bem. Restabelecido, Marcelo retornou outras vezes à Antártica, já como Engenheiro do INPE. O Dr Caiado, cirurgião cardiovascular, falecido em 2014, também conduziu um projeto de pesquisa na área de cardiologia.

Nas folgas, sua presença era fundamental, pois tirava, no violão, qualquer música solicitada. O então Capitão-Tenente Fuzileiro Naval Luiz Felipe Xavier de Assumpção, Subchefe, teve relevante papel como coordenador das atividades administrativas, Oficial de Comunicações e Oficial de Segurança.

Possuidor de temperamento afável, exerceu com maestria suas atribuições e muito ajudou na manutenção da harmonia do grupo, além de ser exímio atleta de tênis de mesa – venceu o Primeiro Campeonato Brasileiro de Tênis de Mesa na Antártica!

Na primeira etapa da invernação, foram realizados exercícios para emergências, como combate a incêndio; o material foi identificado, contado e arrumado; foram reposicionados alguns contêineres e montado o módulo para refúgio, onde guardamos peças de vestuário e ração glacial.

Essa etapa terminou em maio, coincidindo com a redução da temperatura e aumento na frequência de tempestades, o que limitava as atividades externas. Em 3 de maio, data cívica da Polônia, participamos de uma festa em Arctowski, com a presença de representantes das demais estações da Ilha Rei George.

Durante esse evento, passamos por uma situação que bem caracteriza as condições meteorológicas locais – a rápida mudança. Alertados pelo meteorologista polonês que uma frente de mau tempo se aproximava, devendo chegar à região em cerca de três horas, colocamos nosso bote no mar e iniciamos os preparativos para retorno a Ferraz, o que levaria cerca de meia hora.

Mas, a frente nos alcançou ainda no mar. Foi um retorno difícil, mas, graças ao Bom Deus, conseguimos chegar à EACF, onde o Moreira nos esperava com um chocolate quente muito especial.

Atividades predominantemente internas caracterizaram a segunda etapa – elaboração de inventários do material, de normas e procedimentos para segurança e funcionamento rotineiro da estação etc.

Com menor ritmo de atividades, devido às condições climáticas e meteorológicas, há uma tendência a alterações no comportamento, o que precisa ser combatido com o incentivo a trabalhos e eventos recreativos em equipe e maior preocupação de cada um em contribuir para o bom relacionamento do grupo, pois o convívio fraterno é o melhor método para superar o isolamento.

Realizamos, ainda, testes de material, como a ração glacial, que mostrou resultados muito bons, e equipamentos e vestuário para regiões frias, atendendo solicitação do Corpo de Fuzileiros Navais.

Foram aplicados questionários para levantamento de dados psicológicos, fornecidos pelo SSPM, visando fornecer subsídios para os processos seletivos de futuras comissões por aquela OM. Os voos de inverno da FAB também contribuíram para o bem estar do pessoal, pois, além de material para a Estação, recebemos correspondência dos familiares e amigos.

Em junho ocorreu a menor temperatura, -25ºC, e a tempestade mais forte, com ventos de 160 km/h e rajadas de até 180 km/h. A neve ficava acumulada nos corredores, obstruindo o acesso aos módulos, o que exigia árduo trabalho para desobstruir os caminhos, mesmo sabendo que as aberturas durariam somente até a próxima ventania.

A maior frequência de temporais foi em agosto. Somente em outubro foi possível abrir completamente os corredores entre os módulos. De maio a novembro, o mar congelou em frente à EACF, de modo que para ir a Arctowski, em 21 de junho, para celebrar o solstício de inverno no hemisfério Sul, quando o Sol atinge sua declinação máxima em Latitude, empregamos as motos.

A transição para a terceira etapa iniciou em final de outubro, com menos tempestades, o mar descongelando, os períodos de luz aumentando e a vida animal reaparecendo, inclusive focas, que vinham parir na superfície da camada de gelo.

A expectativa de término da missão incentivava o preparo da Estação para a próxima Tripulação e a elaboração de relatórios com dados sobre pessoal, material de consumo, equipamentos e instalações, para as futuras comissões. O NApOc “Barão de Teffé”, acompanhado pelo rádio desde o Rio de Janeiro, foi recebido com entusiasmo.

Os dias seguintes à chegada do navio foram longos, em luminosidade e trabalho, pois cada minuto era precioso para executar as atividades desse período – desembarcar o material, acomodar o pessoal e realizar a detalhada passagem das funções, principalmente para os que ainda não conheciam a Estação.

Transcorreu tudo muito bem e o Dia do Marinheiro, 13 de dezembro, foi celebrado com a cerimônia de transmissão de responsabilidade para a Tripulação do verão 1986-87. Foi um dia muito especial na vida de cada um, marcado pela satisfação do dever cumprido.

Finda a cerimônia, deslocamento para a Base Eduardo Frei no NApOc “Barão de Teffé”, e de lá, em aeronave da FAB, o retorno ao Brasil e o esperado encontro com os familiares. Alguns dias depois, o reconhecimento institucional, na forma da Medalha Naval de Serviços Distintos, outorgada pela Marinha aos integrantes da primeira invernação na EACF.

Certamente este artigo poderia ser transformado em um livro, tantos são os registros que compõem uma comissão desse tipo. Mas, ainda que com mais palavras, a mensagem a transmitir seria a mesma: onze brasileiros, imbuídos dos sentimentos de realização profissional e pessoal e espírito de aventura, participaram, voluntariamente e com muito orgulho, da primeira comissão de inverno na Estação Antártica Comandante Ferraz.

VIVA A MARINHA! TUDO PELA PÁTRIA!

Nota do Editor: (1) – O Contra-Almirante Fuzileiro Naval José Henrique Salvio Elkfury, autor do artigo, participou, como observador, da primeira expedição brasileira à Antártica, a bordo no NApOc “Barão de Teffé”, e da campanha de 1984 da Base Antártica General Belgrano 2, do Exército Argentino; em 1985 trabalhou como Ajudante de Operações e Logística no Programa Antártico Brasileiro; e, em 1986, foi o Chefe da Estação Antártica Comandante Ferraz, durante a primeira invernação.

Nota do Editor: (2) – A matéria fora originalmente produzida em Abril de 2018, para o site Orbis Defense, a fim de contar a saga dos pioneiros da Marinha do Brasil na Antartica. O presente artigo contou com a narrativa do contra-almirante Fuzileiro Naval Elkfury e a valorosa colaboração do também Contra-Almirante Fuzileiro Naval José Luiz Corrêa da Silva pelo incentivo em me ajudar apresentar o valoroso trabalho de nossos Fuzileiros Navais, onde os quais podem cumprir missões em qualquer lugar do mundo, com ou sem mar para chegar… 

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