General Lecointre declara; Macron, jornalistas e parte da sociedade não sabem nada sobre o espírito das Forças Armadas

blank
Imagem de captura de tela da RTL.

Há alguns meses, já corriam informações de que o general François Lecointre deixaria o cargo de Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas (CEMA), que ocupa desde julho de 2017.

Por fim, no dia 13 de junho, o General Lecointre, de 59 anos, pôs fim às especulações, ao anunciar, em entrevista ao vivo na TV RTL, que deixará o serviço ativo, a seu pedido, a partir de 14 de julho.

O general Lecointre sempre foi considerado pelo presidente Macron como “seu bom soldado”, não apenas pela sua carreira impecável, mas como pela eficiência com que ele “controlou” os ânimos nas Forças Armadas desde a eleição de Macron, que nunca foi visto com bons olhos pelos militares franceses.

Apesar da versão oficial de sua saída afirmar que trata de um certo “apaziguamento político em tempos de eleições que se aproximam, as informações que circulam pelos meios militares é que o general Lecointre agora estaria “mudando de lado”, devido à diversas circunstâncias que vão desde promessas não cumpridas pelo presidente para os militares, desmoralização frente aos colegas devido à sua lealdade cega ao presidente, e finalmente, um “convencimento com bons argumentos” feito pelos colegas generais e almirantes…

« Vous ne connaissez rien aux Armées » “Vocês não conhecem nada das Forças Armadas” – général Lecointre

Na entrevista para o canal de TV “RTL/LCI”, o general declarou de forma polida diversos pontos em que ele se demonstrou “não partidário” das decisões governamentais mais polêmicas que prejuducaram as Forças Armadas, desde cortes orçamentários (o que causou a saída do general de Villiers, na primeira semana de governo Macron) até as ingerências políticas na guerra contra o terrorismo interno e externo.

No seu ponto mais forte, o general Lecointre declarou;

“Vocês não conhecem nada das Forças Armadas… o presidente não conhece nada também sobre o que é o espírito das Forças Armadas…o caso não se aplica apenas ao presidente (Macron), mas à toda a classe política atual, incluíndo boa parte dos mesmos de sua geração, incluíndo os jornalistas que aqui estão ( se referindo aos repórteres presentes) e também aos jovens atuais… O presidente assim como quase todos de sua geração jamais tiveram a experiência de fazer longas marchas, dormir ao relento, experimentar privações, dificuldades diversas, enfrentar a dor…”

“O que me impressiona não é o caso particular do Presidente da República, é o caso de toda a classe política hoje, é o caso de todos os jornalistas, é que vocês não sabem nada de exércitos , porque não conhece o coração dos exércitos ”, afirma o chefe do Estado-Maior dos exércitos, após anunciar que estava a abandonar as suas funções.

“O presidente não mais do que ninguém da sua geração não experimentou longas caminhadas, noites de tédio, dificuldade, dor”, continua o General Lecointre. “Os exércitos não são apenas um soldado ou um civil que foi uniformizado. Um exército é algo muito particular, com sua própria cultura, uma cultura de compromisso, uma cultura de doação. Em si, uma cultura de fraternidade nas armas … Tudo isso é caricaturado ”, lamenta.

blank
Imagem de captura de tela traduzida da pagina da RTL onde está a matéria de referência. Fonte: https://www.rtl.fr/actu/politique/vous-ne-connaissez-rien-aux-armees-lance-le-general-lecointre-7900044457

A versão oficial da saída do general Lecointre

Oficialmente, o general Lecointre afirmou que os motivos de sua saída, explicou, é “evitar qualquer politização da função de chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. “E para esclarecer:“ Não queria que o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas saísse no final do mandato de um Presidente da República, […] só queria um Chefe de Estado-Maior dos Exércitos , que é um líder militar, está associado a um político ”.

Este afastamento não está ligado às recentes polêmicas nos fóruns de protesto anti-governo publicados pelos militares, nem aos anúncios sobre a o fim da Operação Barkhane no Sahel (e por boas razões, ele aparentemente foi o principal arquiteto …).

“O General François Lecointre apresentou há vários meses ao Presidente da República o seu pedido de cessação do serviço ativo depois de 14 de julho de 2021. O Presidente da República deseja saudá-lo como um grande líder militar e o servidor do Estado, ”Comentou a Presidência da República, segundo a AFP.

O que é como uma renúncia, embora o termo não seja usado. Como um lembrete, o general Lecointe sucedera o general Pierre de Villiers, que renunciou após criticar duramente os novos cortes orçamentários então efetuados pelo pesidente Macron, quebrando suas promessas de campanha.

Realizado durante audiência na Assembleia Nacional, suas palavras “vazaram” para a imprensa, apesar da sessão à porta fechada, que deu origem a um apelo do Presidente Macron em 13 de julho de 2017. “Eu sou seu chefe”, disse ele na tradicional recepção dada no Hôtel de Brienne antes das cerimônias de 14 de julho.

O Presidente Macron “agradece em particular ao General Lecointre pela atuação incansável ao seu lado na direção das operações militares durante quatro anos e envia-lhe os melhores votos para o futuro”, acrescentou a mesma fonte.

“Durante os seus quatro anos como Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, prestou assessoria valiosa ao Ministro num contexto estratégico cada vez mais exigente e assegurou com dinamismo e determinação a condução das operações decididas pelo Presidente da República”, sublinhou Florence Parly, Ministro das Forças Armadas.

Ainda segundo os rumores dos últimos meses, a sucessão do general Lecointre seria disputada entre o almirante Pierre Vandier e o general Thierry Burkhard. E é o segundo que será o próximo CEMA, dois anos após ter sido nomeado Chefe do Estado-Maior do Exército [CEMAT]. Segundo o Eliseu, assumirá as novas funções “dentro de algumas semanas”.

Abaixo, o vídeo da declaração do general Lecointre para a rede de TV RTL France:

  • Com informações AFP, Ministére des Armées, RTL/LCI France, France Inter, Opex 360, Voice of Europe e Dàmoclés France, via redação Orbis Defense Europe.