General Santos Cruz fala sobre a missão na República Democrática do Congo

General Carlos Alberto dos Santos Cruz, quando atuava como chefe das Forças Militares na Missão da ONU na República Democrática do Congo. Foto: Monusco/Sylvain Liechti

O General Santos Cruz que comandou as forças de paz da ONU no país africano, Monusco, explica um pouco sobre o trabalho da ONU no terreno, dos esforços para consolidação da paz na República Democrática do Congo, e a contribuição de mulheres às tropas e cooperação regional.

  • Quais são os destaques do relatório que entregou ao chefe de missões de paz, Jean-Pierre Lacroix?

Ontem, eu tive a oportunidade de conversar com o senhor Lacroix, e entregar o relatório. É um relatório que fala sobre as dificuldades para vencer ali aquelas barbaridades que a ADF está fazendo ali na região de Beni, e também tem alguns comentários sobre a segurança a ser fornecida para as equipes que estão tratando do ebola.

  • Até que ponto a situação congolesa ameaça a estabilidade em África?

Aquela região ali dos grandes lagos africanos é uma região em que os problemas, eles são, alguns problemas deixam de ser puramente congoleses para serem também alguns problemas regionais.

Por exemplo, esse grupo armado ADF, ele vive na fronteira com Uganda. Então, a participação do outro país, de Uganda, também para ajudar na contenção da ADF também é importante. Então, os problemas ali naquela linha de fronteira eles sempre envolvem no mínimo um entendimento entre os dois países para combater o grupo armado.

  • Nesse momento o que é prioritário para evitar a escalada do conflito?

Esse aí é um conflito que não tem o risco de escalada. O que ele tem o risco é da ADF cometer crimes bárbaros, como vem fazendo. Mais de 200 pessoas mortas em dois meses, com requintes de crueldade.

Com inclusive crianças pequenas mortas com facões e machados. Uma coisa bárbara. Então, não é uma questão de escalada, é uma questão de contenção desse grupo que é uma mistura de fundamentalismo, com grupo armado e crime organizado também.

  • O senhor falou da ADF, que é apenas um das dezenas de milicias armadas que atuam no Congo. Como melhorar essa situação ou atuação das forças de paz?

Em primeiro lugar, o número de grupos armados é muito grande. Porque são pequenos grupos localizados em algumas vilas e em alguns locais que se comportam como crime organizado. Eles não têm nenhum objetivo político.

Eles têm um interesse de exploração local ali, de exploração da população local, extorsão etc. Comércio ilegal na fronteira. E isso aí só a presença governamental mesmo com o reforço da presença governamental que pode solucionar.

  • E como é que os países da região que falou a pouco podem ajudar? E outros países até da comunidade internacional a terem influência nessa região?

Os países vizinhos ali, todos eles são importantes na solução porque isso acontece na linha de fronteira. Então, o comércio ilegal, o comércio de minerais, o comércio de armas, tudo isso acontece numa linha de fronteira, sempre envolvendo a RD Congo e seus vizinhos. Então, existem alguns entendimentos que precisam ser melhorados para que todos participem da solução.

  • General, num país com o grande número de casos de violência sexual, na maioria dos casos. Como é que esta atuação das Nações Unidas pode ser, de fato, mais eficaz?

Nós estamos falando do Congo, estamos falando das Nações Unidas, mas as Nações Unidas estão só basicamente na parte leste do Congo. As Nações Unidas não estão no país inteiro porque é impossível.

O Congo é o décimo-primeiro país do mundo em tamanho. Praticamente toda a Europa cabe dentro do Congo. Então com essa dimensão, você assume responsabilidades de ajuda, naqueles locais onde você está presente. Então a participação da ONU é limitada, tendo em vista a dimensão do país, e o tamanho da missão.

  • Agora existe uma estratégia que é envolver mais mulheres. Como é que forças femininas ajudariam a amenizar a situação de violência de gênero por exemplo?

Isso daí é uma expectativa. Não existem ainda números comprovando essa nova estratégia, mas é uma tentativa de utilizar o segmento feminino que, às vezes, entende melhor alguns problemas, consegue equacionar melhores soluções também. Mas ainda é uma estratégia que está no seu início.

  • Que conselho que daria, ao novo comandante das Forças da Monusco, após a sua passagem por lá?

Eu evito de dizer “conselho”, baseado na minha época, porque a dinâmica muda, a realidade atual muda. Mas talvez o que permaneça no tempo é a motivação para fazer um bom trabalho, a motivação para trabalhar pelas pessoas mais carentes, por aqueles que estão mais em risco, como as crianças, os civis, as mulheres. Então é trabalhar inspirado pela proteção daqueles que são mais fracos.

  • A pouco o senhor acaba de deixar um cargo ministerial no seu país, e com essa experiência internacional e nacional, pensa num futuro na política?

Olha, eu tenho até alguns amigos, algumas pessoas conhecidas, que têm feito esse estimulo aí. Mas ainda não chegou a hora de decisão, e eu vou decidir um pouco mais à frente.

  • Algo mais a dizer, general? Ligado aqui à ONU, às forças de paz.

Não, só quero agradecer aqui. E desejar que os nossos companheiros que estão no terreno aí, em nome da ONU, em nome de seus países, países contribuintes com tropas na ONU, que eles tenham bastante sucesso e que se dediquem à proteção das pessoas mais desfavorecidas.

  • Com informações do site NewsUN.org


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