Governo Francês admite ter forçado Polinésios e Taitianos à aceitarem seus testes nucleares

"Licorne” (unicórnio, em francês) foi o quarto e penúltimo teste nuclear da França de uma bomba termonuclear no Atol de Mururoa, na Polinésia Francesa.

O governo Francês reconheceu, pela primeira vez, de forma oficial que a população da polinésia francesa foram forçados à aceitar quase 200 testes nucleares, conduzidos ao longo de 30 anos, quando enfim o parlamento francês emitiu projeto de lei reformando o status da coletividade de 118 ilhas no sul do Pacífico.

O projeto de lei reconhece que as ilhas foram “convocadas” a aceitar os testes com o propósito de “construir ‘sua’ dissuasão nuclear e defesa nacional”. O texto também diz que o governo Francês “garantirá manutenção e vigilância dos locais em questão (..) apoiando a restruturação econômica e estrutural das ilhas após a cessação dos testes nucleares”.

De acordo com os parlamentares franceses, esse movimento deve facilitar a solicitação da população local para compensar as doenças causadas por precipitação radioativa, como os numerosos casos de câncer e deformidades.

Patrice Bouveret, do Observatoire des armements (Observatório de Armamentos), uma organização independente encarregada de avaliar os impactos dos testes nucleares realizados pela França na Polinésia desde 1984, elogiou o projeto:

“Ele reconhece o fato de que a saúde das pessoas locais poderia ter sido afetada e, portanto, é responsabilidade do Estado francês em compensá-los por esses danos. “Até agora, o discurso francês era de que os testes eram ‘limpos’ (essa era a palavra usada) e que eles haviam tomado as devidas precauções para proteger os funcionários e moradores locais.”

O especialista também criticou os longos 23 anos que a França levou para reconhecer oficialmente sua responsabilidade. O ceticismo foi reproduzido pelo deputado polinésio Moetai Brotherson, que alegou não haver medidas específicas para a reparação financeira citadas no projeto de lei.

Da mesma forma, a também parlamentar polinésia Maina Sage insistiu que a reforma era um “reconhecimento de claras compensações” e “o fato de que isso deveria se traduzir em apoio em um nível sanitário, ecológico e econômico”.

No ano passado, o presidente da Polinésia Francesa, Edouard Fritch, confessou que a população das ilhas foram enganadas anos por seus líderes em relação aos perigos dos testes nucleares.

“Eu não estou surpreso de ter sido chamado de mentiroso por 30 anos. Nós mentimos para essa população que os testes eram limpos. Nós mentimos”, Fritch assumiu.

A França realizou 193 testes nucleares de 1966 a 1996 em torno das ilhas paradisíacas, incluindo Bora Bora e Taiti. Cedendo a décadas de pressão, em 2010, o governo francês já tinha compensado os países em milhões de euros pelos 201 testes nucleares no Pacífico Sul e na Argélia.

Após mais de 1.500 casos de compensação para militares e outros funcionários nas instalações nucleares da Polinésia, uma cláusula sugerindo que os testes eram de “risco insignificante” para o resto da população tornou impossível a sua aplicação.

Ainda assim, pesquisadores detectaram taxas desproporcionais de tireoide, leucemia, tumores e deformidades entre os 280 mil habitantes da Polinésia. Até o momento, apenas algumas dezenas de pessoas receberam indenização.

Três anos antes, documentos do Ministério da Defesa desclassificados expunham os testes como mais tóxicos do que o afirmado oficialmente. A Polinésia Francesa havia sido atingida por níveis de plutônio devido aos testes enquanto que o Taiti foi exposto a 500 vezes os níveis máximos aceitos de radiação.

  • Com informações de agências de notícias internacionais


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