Impasse sobre venda de caças F-35 ameaça acordo entre Israel e Emirados Árabes Unidos

A disponibilização de uma das mais avançadas armas de guerra americanas provocou uma discussão em Israel

Photo: CJTF-OIR

Colocado como um dos grandes sucessos diplomáticos do mandato do presidentes dos EUA, Donald Trump, o acordo para normalizar as relações entre Israel e os Emirados Árabes Unidos (EAU) foi posto em xeque diante da possibilidade da venda do caça de quinta geração F-35 ao país do Golfo Pérsico.

Logo após o anúncio dos planos para a normalização dos laços entre os dois países, a imprensa israelense começou a circular a informação de que caças F-35, da empresa Lockheed-Martin, poderiam ser oferecidos aos Emirados, e que inclusive que teriam sido apresentados como parte do acordo, o que foi negado pelo premier Benjamin Netanyahu.

Dias depois o conselheiro sênior da Casa Branca, Jared Kushner, admitiu que, diante do novo contexto diplomático, poderia cogitar a venda das aeronaves. Mais do que apenas um item na já longa lista de compras militares feitas pelos Emirados, a disponibilização de uma das mais avançadas armas de guerra americanas provocou uma discussão em Israel sobre o compromisso histórico de Washington com a segurança do país.

“Isso poderia ser uma violação explícita do acordo tácito que prevê, desde a década de 1950, que Israel receba armamento pelo menos uma geração à frente dos disponíveis aos países árabes”, explicou o professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Fernando Brancoli.

Ao mesmo tempo, existe o interesse dos EUA de assinar novos contratos no Oriente Médio. Ele argumentou que, ao contrário do governo Obama, que gastava muito na região, agora eram os parceiros locais que estavam fazendo compras bilionárias de armamento.

‘As intenções são fluidas’

Ainda não está claro se o governo de Netanyahu incluiu os caças no acordo com os Emirados, um texto que pegou de surpresa boa parte do mundo político israelense, incluindo o ministro da Defesa, Benny Gantz, que em tese divide o comando do Gabinete.

“Não é bom para Israel se esse avião estiver circulando em outros lugares. Precisamos falar isso aos Emirados, aos americanos, e garantir que nossos interesses de segurança estão sendo mantidos”, afirmou Gantz a repórteres no dia 18 de agosto.

Um dos pontos de maior preocupação de Gantz é a incerteza sobre o futuro. Hoje, as duas nações estão sentadas no mesmo lado da mesa, com inimigos em comum, como o Irã. Mas ninguém sabe como essa parceria com um país que vem incrementando suas Forças Armadas vai se comportar daqui pra frente.

“Israel jamais pode esquecer, nem por meio segundo, que qualquer peça dessa engrenagem pode puxar o tapete de seus pés a longo prazo”, afirmou em entrevista a rádio Al Jazeera o diretor do Instituto de Política e Estratégia no Centro Interdisciplinar de Herzliya, Amos Gilead. As intenções são fluidas e vulneráveis a mudanças rápidas.

O governo do EAU, que tenta comprar as aeronaves há pelo menos seis anos, afirma que as desconfianças não têm razão de existir. Ao mesmo tempo, dá sinais que os vetos ao negócio podem afundar o acordo como um todo.

Na semana passada, autoridades do país cancelaram uma reunião que formalizaria o estabelecimento de relações; um ato que renderia imagens e uma narrativa positiva para Donald Trump. Segundo o site Axios, o adiamento foi por tempo indeterminado.

“Temos demandas legítimas que estão lá. Nós devemos obtê-las. A ideia de um estado de beligerância ou guerra com Israel não existe mais”, afirmou o chanceler do EAU, Anwar Gargash, em entrevista ao centro de estudos Atlantic Council.

Relações complexas

Apontado como uma das mais sofisticadas máquinas de guerra já produzidas pelos EUA, o F-35 é a imagem visível de um programa com orçamento estimado de US$ 1 trilhão. Em seus primeiros passos, foi alvo de críticas por problemas no projeto e o alto custo final.

Em 2016, o então senador republicano John McCain chamou o programa de “um escândalo e uma tragédia com respeito a valores, prazos e performance”. Nos anos seguintes, arestas foram aparadas, valores ajustados e o caça voltou a ser um produto atrativo.

Hoje, cerca de 12 países, além dos EUA, operam as aeronaves — mas a relação que envolve o F-35 vai muito além do simples “comprador-vendedor”.

Em se tratando de uma tecnologia avançada, sem alternativas viáveis no mercado, as nações passam a ter uma relação privilegiada com o setor de Defesa dos EUA, com potenciais benefícios para o desenvolvimento de sua própria indústria. Ao mesmo tempo, o Pentágono cria uma dependência que acaba cerceando as próprias escolhas dos governos.

Foi o caso, por exemplo, da Turquia, que teve sua participação no programa suspensa depois de ter decidido comprar o sistema de defesa aérea russo S-400 — para os EUA, isso abriria as portas para que Moscou tivesse acesso a detalhes da tecnologia do F-35.

Mesmo Israel, aliado preferencial dos EUA, sofreu represálias por ter vendido peças usadas em drones para a China. Depois da ameaça, as vendas foram paralisadas.

  • Por Felipe Barini, Via Jornal O Globo


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