Irã Operando Na Fronteira De Israel: Colinas De Golã

A relação entre persas e libaneses marcam séculos de alianças, dissidências e comunhão, é o retrato indiscutível do Oriente-médio. Segundo o livro Relações Distantes: Irã e Líbano nos últimos 500 anos de Houchang Chehabi, as ligações históricas entre o Irã e o Líbano datam do Império Aquemênida, também conhecido como Primeiro Império Persa, no qual as cidades costeiras fenícias de Tiro, Sidon, Byblos e Arvad estavam iniciando batalhas entre os gregos e os persas.

Na verdade, os fenícios, capitalizando desde cedo sua habilidade como comerciantes, também se beneficiaram da vastidão do império persa. Esses laços iniciais prenunciaram a futura natureza “comercial, capitalista e política” dessa relação.

Milênios se passaram, e mudanças na morfologia de governo ocorreram em toda a região do Oriente-médio, e os persas mantiveram sua influência em algumas áreas para consolidar seu modelo político.

A Revolução Iraniana de 1979 parece que solidificou a ligação do Irã com o Líbano, e o líder persa Ruhollah Khomeini, que lutou pela queda do Xá Mohammad Reza Pahlevi, expandiu sua ideologia xiita radical e obteve uma das suas maiores conquistas, a institucionalização oficial do Hezbollah em 1985, no Líbano, como grupo paramilitar apoiado integralmente pelo Irã, porém já caminhava antes de 1979 como um grupo político de apoio ao aiatolá Khomeini.

Com os anos, o grupo paramilitar foi se organizando na estrutura política e social libanesa com o financiamento bélico e econômico dos persas na tentativa de ganhar espaço no governo central e virar a maior força de oposição contra seu maior inimigo ao sul, o Estado de Israel.

A guerra civil no Líbano afugentava toda e qualquer possibilidade de reorganização política por qualquer classe política, tanto o governo central quanto o Hezbollah ansiavam pela pacificação para assim restabelecer o equilíbrio interno ausente desde 1975. Em 22 de outubro de 1989, foi acordado a Carta Nacional de Reconciliação na cidade de Taif, na Arábia Saudita, um grande documento que enterrou definitivamente a Guerra Civil Libanesa e buscou estabelecer uma nova estrutura para um sistema político de compartilhamento de poder, o que permitiu ao Hezbollah participar das eleições parlamentares de 1992.

À medida que o grupo se enraizou na política libanesa e se constituiu de um Exército forte e organizado superior ao Exército Libanês, ganhou adeptos do modelo xiita, e continuou os objetivos do grupo em impedir a expansão israelense em direção ao norte, controlar algumas fronteiras ao sul e ao leste do Líbano, e vem atuando na linha de frente contra o ISIS na Síria, ou seja, transfixou fronteiras e implantou diversas células em locais estratégicos de defesa e da política para Israel, as Colinas de Golã, um planalto rochoso no sudoeste sírio.

A batalha pelas Colinas de Golã, na Síria, remonta 1967 durante a Guerra dos Seis Dias, ou Guerra árabe-israelense, entre Egito, Síria, Jordânia e Iraque contra o Estado Israel que saiu vitorioso ao vencer o conflito desproporcional em número de nações. No terceiro dia de guerra, toda a Península do Sinai já estava sob o controle de Israel, e as Colinas de Golã foram tomadas da Síria nos estágios finais do conflito.

Israel anexou unilateralmente a região em 1981, tal movimento não foi reconhecido internacionalmente, somente por Donald Trump em março de 2019. Atualmente, existem mais de 30 assentamentos judeus nas colinas, com cerca de 20.000 colonos.

A importância das Colinas de Golã a Israel está na gerência de combate, uma espécie de “olho que tudo vê”, já que o sul da Síria e a capital Damasco, cerca de 60 km ao norte, são claramente visíveis do topo das Colinas, e a topografia da região fornece ampla proteção natural contra qualquer ataque militar sírio e avanço sobre a riqueza hídrica, uma clara e indiscutível vantagem no beligerante que traz grandes desconfortos aos iranianos que apoiam o presidente Bashar al-Assad por meio de sua maior força externa após a eclosão da guerra civil em 2011, o Hezbollah, considerado um grupo terrorista pelos EUA desde 1995.

Em junho de 2016, Hassan Nasrallah, líder do grupo Hezbollah, afirmou publicamente pela primeira vez que recebe total apoio financeiro e armamentista da República Islâmica do Irã, um dos motivos da baixa preocupação do grupo paramilitar diante das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos.

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e sua força de elite, a Força Quds, transformaram o Hezbollah em um dos representantes regionais e internacionais mais importantes e poderosos do Irã.

A ambiciosa e tentadora dominação das Colinas de Golã preocupam Israel. Em 2015, o líder do Hezbollah relatou em público que a região seria a próxima arena de atividade do grupo e, portanto, do Irã. Um fato curioso ocorreu em 18 de janeiro de 2015, após Israel soltar um ataque aéreo impressionante contra um comboio de três carros perto de Quneitra, uma cidade na região de Golã, tal atividade revelou uma charada, tratava-se de uma delegação iraniana e do Hezbollah.

Na época, segundo informações da mídia israelense, havia seis agentes do grupo e talvez até seis oficiais da Guarda Revolucionária do Irã, incluindo o general Mohamed Ali Allahdadi, confidente do comandante da Força Quds da época, Qassem Suleimani, e seguiriam a um possível planejamento de uma base de mísseis local.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu sabe que o Irã busca estabelecer uma segunda frente contra Israel nas Colinas de Golã, além da própria fronteira libanesa. A economia iraniana está em ruínas, o presidente Hassan Rohani não possui outra saída a não ser negociar com os EUA para retardar as sanções penosas contra a nação, e até que as eleições americanas não tome um rumo definitivo para assim negociar com o futuro presidente americano, os persas precisam proteger seus interesses, isso inclui seu programa de armas nucleares e um possível ataque israelense.

De fato, para manter essas linhas de dissuasão, o Irã, também na figura do Hezbollah, precisa estabelecer a segunda frente que, segundo a correspondente do Jerusalem Post, Anna Ahronheim, o Irã já está ativo na fronteira Israel-Síria, e a célula por trás da colocação de perímetro de minas antipessoal e outros IEDs nas Colinas de Golã é a Unidade 840 operada por militares de elite da Força Quds iraniana, é uma unidade operacional relativamente secreta que está articulando e planejando estabelecer infraestruturas de terror na região contra alvos ocidentais e grupos de oposição ao regime persa e de Bashar al-Assad, uma clara amostra da competência de terror do Irã contra a força israelense ao longo da fronteira em Golã que sofre por terra e ar através de ataques orquestrados.

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