Kursk: o desastre submarino foi a primeira mentira de Putin

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Dezoito anos após o afundamento dramático do submarino nuclear de Kursk com a perda de 118 vidas em agosto de 2000, o advogado Boris Kuznetsov vê a tragédia como tendo sido um ponto de virada para a Rússia moderna.

O desastre de Kursk e suas conseqüências, diz Kuznetsov, foi a “primeira mentira” do presidente Vladimir Putin.

“As mentiras começaram com o afundamento do Kursk”, diz Kuznetsov. “Quando o Kursk afundou, o governo começou a interferir nos sistemas legais e de aplicação da lei. O governo começou a reunir todos os meios de comunicação sob seu controle. Todo o processo de minar a democracia na Rússia, em muitos aspectos, começou com isso.”

Kuznetsov, 67, representou as famílias de 55 dos marinheiros Kursk afogados. Agora ele tem asilo político nos Estados Unidos. O governo russo abriu um processo criminal contra ele e emitiu um mandado de prisão internacional para ele. Ele diz que as acusações foram  criadas  apenas  para calar ele sobre o ocorrido –  o acusam de revelar segredos de Estado porque ele demonstrou a um tribunal russo que o Serviço Federal de Segurança (FSB) estava escutando ilegalmente um membro do parlamento – tinham a intenção de impedi-lo de cumprir suas obrigações legais sobre  levar ao público falhas que levaram ao afundamento.

De fato, a Rússia era um país diferente quando o Kursk afundou em 12 de agosto de 2000, durante um massivo exercício naval no Mar de Barents. Foi apenas alguns meses depois que Putin começou seu primeiro mandato como presidente. A televisão nacional era controlada por oligarcas e mantinha relações duras com o governo.

Em outubro de 2000, o proeminente jornalista de televisão Sergei Dorenko publicou um especial de uma hora sobre a tragédia de Kursk na televisão nacional ORT da Rússia, então controlada pelo magnata Boris Berezovsky. Depois de enumerar as falhas do governo em lidar com o desastre, Dorenko terminou a peça com esta conclusão:

“A história do Kursk ainda não terminou. Levantamos apenas as primeiras questões e conclusões. A principal conclusão é que o governo não respeita nenhum de nós – e por isso está mentindo. E o principal é que o governo nos trata desse jeito apenas porque nós permitimos.

Quando Putin, visivelmente abalado, se encontrou com as esposas e famílias dos marinheiros Kursk em 22 de agosto de 2000, ninguém teve medo de gritar com ele e acusá-lo de incompetência ou coisa pior:

Esse encontro, diz Kuznetsov, pode ter sido “o pior momento” da vida de Putin – e ele imediatamente decidiu garantir que nunca mais enfrentaria algo semelhante.

Kuznetsov está marcou o 15º aniversário com a segunda edição de seu livro sobre o caso. O volume – intitulado It Sank – detalha o que Kuznetsov vê como a culpabilidade do governo na tragédia, bem como os esforços do Kremlin para impedi-lo de descobrir os fatos do caso.

O relatório de 133 volumes do governo sobre o incidente continua classificado e apenas um resumo de quatro páginas foi divulgado ao público em 2002.

Kuznetsov rejeita todas as teorias conspiratórias sobre o desastre de Kursk – que o submarino colidiu com outro submarino ou navio de superfície, que foi afundado por um submarino da OTAN ou por “fogo amigo” de outro navio russo que participava do exercício.

"[Putin] foi obrigado a ouvir os especialistas e os relatórios dos comandantes e os relatórios do comando naval. ... E ele não o fez", diz o advogado Boris Kuznetsov.

 

“[Putin] foi obrigado a ouvir os especialistas e os relatórios dos comandantes e os relatórios do comando naval. … E ele não o fez”, diz o advogado Boris Kuznetsov.

A evidência acústica e o dano ao Kursk – parte do qual foi recuperado cerca de 14 meses após o naufrágio – mostram convincentemente, diz ele, que o combustível de um torpedo que estava sendo preparado para o lançamento explodiu e que a explosão levou, dois minutos depois, a uma explosão maciça das ogivas de muitos dos 10 torpedos a bordo. A segunda explosão foi tão grande que foi captada por sismógrafos por toda a Europa e no Alasca.

Mesmo assim, diz Kuznetsov, o governo e os militares russos ainda têm muito a responder, começando pelo próprio Putin. Como comandante em chefe das forças armadas, Kuznetsov diz que Putin era obrigado a conhecer o exercício naval fatal – que era o maior da história pós-soviética da Rússia – por dentro e por fora.

“Ele era obrigado a ouvir os especialistas e os relatórios dos comandantes e os relatórios do comando naval. Ele foi obrigado a fazer tudo isso”, diz Kuznetsov. “E ele não fez.”

Se tivesse feito isso, conclui Kuznetsov, ele saberia, por exemplo, que o Kursk nunca havia disparado esse tipo de torpedo sob nenhuma circunstância. Ele também poderia ter sabido que o mecanismo para prender um veículo de resgate à escotilha de escape do Kursk nunca havia sido testado no Kursk. Muitos especialistas concluíram que a tentativa da Marinha Russa de abrir a escotilha falhou porque o Kursk tinha um revestimento antiacústico especial que impedia o mecanismo de estabelecer um selo à prova d’água.

Além disso, Kuznetsov diz: ” um operador de sonar a bordo do cruzador de batalha Pyotr Veliky identificou e reportou uma explosão às 11:28 da manhã de 12 de agosto. Ele localizou a explosão na posição exata onde o Kursk era conhecido”.

No entanto, nada aconteceu.

INFOGRÁFICO: A tragédia do Kursk (clique para ampliar)

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“O que o comandante do navio e os líderes dos exercícios deveriam ter feito?” Kuznetsov diz. “Eles deveriam ter identificado a explosão e determinado de onde ela veio e o que a causou. Eles não fizeram isso.”

Em vez disso, o relógio começou a passar para os 23 marinheiros que sobreviveram ao desastre inicial e conseguiram se abrigar no nono compartimento do submarino atingido.

“O Kursk foi declarado em apuros apenas às 23:30”, diz Kuznetsov. “Ou seja, 12 horas se passaram. Essas 12 horas foram perdidas.”

Comandantes navais asseguraram a Putin que eles poderiam lidar com uma tentativa de resgate sem aceitar as ofertas de assistência estrangeira que vieram da Grã-Bretanha, Noruega, Estados Unidos e outros. Putin aceitou apenas tais ofertas cinco dias após o desastre e após os  métodos  russos terem fracassado.

Quando os comandantes fizeram tais garantias, Kuznetsov diz, eles sabiam que os veículos de resgate de submersão profunda nunca tinham sido testados em conjunto com o Kursk.

“O fato é que esses [veículos] foram criados especialmente para uso com vários tipos de submarinos, inclusive para o Kursk”, diz Kuznetsov. “Mas eles nunca foram, nem uma vez, testados com ele – não durante os testes no mar, não durante os  quatro anos de serviço  do submarino, e não durante a preparação para esses exercícios.”

Ninguém foi responsabilizado pelo desastre de Kursk. Kuznetsov disse que Putin tomou “uma decisão política” para proteger o almirante Vladimir Kuroyedov, comandante da Marinha. Kuroyedov se ofereceu para renunciar ao incidente, mas essa oferta foi rejeitada e ele foi autorizado a se aposentar em 2005.

Putin removeu um total de 13 oficiais superiores, incluindo o comandante dos submarinos da Frota do Norte, o vice-almirante Oleg Burtsov, mas todos eles logo receberam posições de prestígio em empresas controladas pelo governo ou pelo estado.

E com esta serie de manobras e mentiras Putin se consolidou como o novo Tsar da Rússia.

JG

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