Marinha do Brasil e o preparo anti-terror & ilícitos no Atlântico Sul.

Tripulantes do NDCC G-25 "Almirante Sabóia" em exercício de monitoração de radar de superfície e navegação. Uma das atividades mais importantes na vigilância operacional em operações de superfície.
Por: Yam Wanders.

Uma das muitas interceptações à embarcações de “pescadores” na costa da
Somália que ocorrem desde 2008 quando começou a Operação ATALANTE,
organizada e conduzida pela EUNAVFOR na costa leste da Àfrica.
Na Imagem, a ação da Real Marinha Espanhola. Foto via EUNAVFOR.

Recentemente foram divulgados nas grandes mídias especializadas do setor naval de transporte marítimo diversas manchetes sobre a migração dos ataques de pirataria marítima que acontecem no Oceano Indico para o Oceano Atlântico, em especial para a região central, com a tendência ao deslocamento para os mares ao sul. porém o que poucos sabem é que a Marinha do Brasil já se antecipa a muito tempo aos problemas mais incisivos das ameaças assimétricas e/ou convencionais que possam oferecer riscos ao nosso mar territorial bem como para o trafego marítimo que tem direito de passagem em nossa região de responsabilidade operacional. 

Nesse artigo poderemos ver como se desenrolou em 2017 um dos maiores e mais completos exercícios que visam garantir a segurança do trafego naval na nossa região do Atlântico Sul, que é de interesse do Brasil e de nações amigas. Graças ao esforço da Marinha do Brasil sabemos que nosso mar territorial é um dos mais seguros devido ao apronto operacional de nossa Marinha!

Grupo de visita e inspeção, que atuam sempre que situações de suspeitas ocorram em embarcações que apresentem “situações anormais”

Introdução:

Desde muito tempo em que a navegação oceânica se tornou um instrumento de poder para as nações dentro do contexto comercial e militar, todos sempre procuraram não só se aperfeiçoar na construção naval como em técnicas marítimas na área tática e estratégica, e uma das muitas ações que nações e grupos insurgentes praticam contra seus oponentes é a negação do uso de áreas marítimas pela imposição de forças navais militares ou em pequena escala, como sempre foi mais comum por forças menores, o ataque a embarcações mercantes civis, visando minar os recursos das nações oponentes.


Como bem conhecido exemplo histórico, temos os famosos piratas dos século 17, e, apesar de que se sabe que a pirataria é bem mais antiga que isso, nesse período da história foi que vimos que a captura de bens e o enfraquecimento de vias comerciais marítimas acabou por ser uma arma eficiênte nas mãos  das grandes potências da época e que em certos casos beneficiou “grupos insurgentes” daqueles tempos, que eram os piratas que tiravam proveito para si do que em outro momento era ordem das coroas de países europeus que disputavam o domínio das vias marítimas que traziam as riquezas das Américas para o Velho Mundo.

Uma das muitas interceptações de embarcações e até mesmo de botes salva-vidas no Oceano Ìndico, aonde piratas se utilizam do artifício do disfarçe de náufragos para serem resgatados pelas tripulações de navios mercantes e assim uma vez à bordo, dominar tripulantes e receber outros piratas que controlarão a embarcação sequestrada. Na imagem, militares da Real Armada Espanhola efetuam a interceptação. Foto via EUNAVFOR.

No século XX outro exemplo interessante de táticas e estratégias de domínio de rotas navais e negação do uso de áreas marítimas foram as atividades de navios cargueiros em cores civis com armamentos dissimulados (polêmico até hoje sob vários aspectos) e o emprego de submarinos a partir da 1a Guerra Mundial por diversas nações. Após o período das grandes guerras a pirataria voltou aos mares, mas desta vez promovida não por nações mas por grupos que visam unicamente o proveito do comércio dos bens capturados e ganhos com pagamentos de resgates de tripulantes e/ou passageiros. Junto com essa atividade comercial fora da lei, ainda temos hoje toda uma miríade de ameaças assimétricas no escopo do terrorismo internacional e até mesmo um polêmico mercado de sabotagens encomendadas contra grandes concorrências comerciais. 


E com o auxílio da moderna tecnologia e farto armamento disponível no mercado negro, a pirataria marítima voltou a ser um rentável negócio para criminosos e terroristas nos mares de regiões de terceiro mundo. Uma das consequências mais impactantes dessa situação foi o aumento dos preços de seguros, frentes e despesas com segurança para Cias Marítimas e Marinhas de Guerra de várias nações, as quais tiveram que deslocar forças tarefas permanentes em diversas regiões do planeta para garantir a passagem segura de embarcações e até mesmo efetuar contra-ataques e missões de resgate de reféns. 

Embarcação civil utilizada pelos piratas somalis para a transferência de carga extraída de um navio de carga tomado de assalto no Oceâno Ìndico, interceptado pela Real Marinha Espanhola. Foto via EUNAVFOR.

De acordo com informações da INTERPOL (Polícia Internacional) e IMO- International Maritime Organization (Organização Marítima Mundial, órgão da ONU responsável pelas regulamentações e atividades marítimas mundiais) praticamente todos os mares e oceanos do mundo registram casos de pirataria nos seus mais diversos níveis e modalidades, sendo o Oceano Índico o recordista, com as regiões do Golfo de Aden (costa leste africana) e os mares do Sudeste Asiático as regiões mais perigosas de todas. 


Após o estabelecimento de uma missão liderada pela França e com base permanente no Dijibouti (País de posição estratégica no Golfo de Áden, possuindo a ponta costeira mais oriental da Àfrica) de nove “Operation Atalanta*” em 2008, os piratas locais que não foram presos em diversas ações acabaram por migraram para a costa ocidental da Àfrica, local de onde acabam por colocar em risco as rotas mercates e de outras atividades civis no Atlântico Sul, e, devido ao barateamento da tecnologia os mesmos tem a possibilidade de projetar a capaciade de ameaças assimétricas aos mares territoriais brasileiros com uma certa facilidade. 

Outra importante missão da EUNAVFOR tem sido o resgate de tripulantes de embarcações de Marinha Mercante gravemente feridos após ataques de piratas fortemente armados. Foto via EUNAVFOR.

A regularidade dos ataques piratas a nível mundial acabou também por obrigar a formação de uma IRT – Incident Response Team (ou, Time/Força de Resposta de Incidentes), para auxiliar Cias Marítimas e Seguradoras, para garantir a solução de diversos casos aonde não só para garatir a recuperação de cargas e embarcações como também de tripulantes mantidos reféns em muitos casos. Com o crescimento em amplitude e diversidade dos movimentos terroristas islâmicos pelo mundo, a pirataria não só tem se tornado um instrumento de obtenção de renda e material de pronto emprego para esses movimentos, como uma ferramenta de aplicação do terror propriamente dito.


Assim como na aviação, os riscos de um ataque com a utilização de navios, ou, contra os mesmos, é tão aterrador quanto os ataques que se utilizam de aeronaves para os diversos fins do terrorismo. Em outra esfera, mas ainda dentro do aspecto dos recursos marítimos de interesse das nações, estão a salvaguarda da integridade das plataformas de exploração petrolífera, estas já consideradas de grande valor estratégico desde o começo da Guerra Fria em meados dos anos 60 quando a OTAN organiza toda uma estratégia de defesa das plataformas do Mar do Norte devido ao risco de ataques soviéticos em caso de guerra, não só por submarinos e embarcações de superfíce como também por grupos de Commandos.

Hoje a ameaça de ataques aos nossos recursos marítimos é un tanto remota, porém nossas Forças Armadas, em especial a Marinha do Brasil, preferem não subestimar esse tipo de ameaça, e assim mantêm um esforço contínuo para manter e aperfeiçoar ações que garantam a proteção de nossas área marítima territorial como também manter a dissuasão contra ameaças que possam planejar ações mais ousadas.

* Operation “Atalanta”, COUNCIL JOINT ACTION 2008/851/CFSP of 10 November 2008 on a European Union military operation to contribute to the deterrence, prevention and repression of acts of piracy and armed robbery off the Somali coast.

A reunião de apresentação do Exercício “Bell Buoy” 2017. Foto via Marinha do Brasil.

O Exercício “Bell Buoy” 2017

O Exercício “Bell Buoy” foi designado como um meio de teste da capacidade de interação entre forças navais e a comunidade marítima civil, com a intenção de facilitar as ações de proteção  e assegurar um melhor entendimento das atividades exercidas pelo PACIOSWG – Pacific and Indian Ocean Shiping Working Group, o qual usa como doutrina o NCAGS – Naval Guidance and Cooperation for Shipping, aplicada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), um guia internacional implementado para promover e organizar a cooperação da atividade maritima comercial. 


O Exercício “Bell Buoy” ocorreu de 8 a 12 de maio de 2017 e coincide com o evento BRASILTRAN 2017. Durante o exercício, ocorerram diversas situações inerentes geradas pelo  DISTAFF (orgão do COMCONTRAN* – Comando do Controle do Tráfego Marítimo, orgão que coordena e também arbitra os eventos organizados dentro do exercício na área de jurisdição internacional atribuída por tratados internacionais à Marinha do Brasil.

Participantes do Exercício “Bell Buoy”2017 no CONTRAM. Foto via Marinha do Brasil/COMCONTRAM.

*O COMCONTRAM foi efetivamente criado em 18 de junho de 1968 pelo Decreto Nº 62.860. Saiba mais sobre o COMCONTRAM acessando: https://www1.mar.mil.br/comcontram

Os objetivos do exercício

O objetivo principal é gerar imagens de cenários plotados o mais próximo possível da situação em tempo real (já que coberturas ocêanicas de radares são extremamente limitadas mesmo com a possibilidade de uso de plataformas aéreas para exclarecimento, providas por nações amigas) de situações de ameaças, e, dentro da geração desses cenários e dos exercícios em curso, promover a interação entre os participantes de diversas nacionalidades* envolvidos com o meio da atividade marítima (inclusive Petrobras e Polícia Federal do Brasil) na área de abrangência do exercício e observadores internacionais convidados. 


O Exercício também visa o aperfeiçoamento de sistemas digitais de gerenciamento de tráfego e comunicação como o Nâmesis 3.0 e Sistram IV e a aplicação do Maritime Traffic Naval Control (CNTM), que são as ferramentas mais utilizadas para monitoramento do tráfego marítimo internacional, assim como todas as plataformas de comunicações via fonia e digitais em uso, incluíndo suas alternativas viáveis. 

A “HRA” ou Área de alto risco do Exercício “Bell Buoy” 2017. Imagem via Marinha do Brasil/COMCONTRAM.

Outra grande preocupação da organiação do Exercício “Bell Buoy” foi o respeito ao tráfego marítimo que já estava presente na área e outrso que viriam a ingressar na mesma, sendo todos avisados por meio de “Avisos Rádio Náuticos”, com o detalhamento da área abrangida, ações prováveis, e estabelecimentos de corredores de navegação seguros, sendo que, todos forma convidados a praticarem (não obrigatório) a navegação dentro desses limites e assim evitarem a HRA – High Risk Área ou “àrea de alto risco”, aonde se desenrolava a parte mais crítica da operação.


* Entre os participantes extrangeiros, estiveram presentes representantes da Austrália, Chile, Colômbia, Equador, Peru, México, USA, França, Reino Unido, Nova Zelândia, Coréia do Sul, distribuídos ém áreas diversas, como operações, inteligência e comunicações.


O cenário

A montagem do cenário não difere muito de outros grandes exercícios militares, aonde a região abrangida recebe designações táticas que descaracterizam nomes de nações e regiões, visando a preservação política das mesmas, somente a região geográfica permaneceu a mesma que vigora nas conveções internacionais da área jurisdicional sob responsabilidade marítima do Brasil. A área “quente” do exercício foi designada na região dos campos petrolíferos da região de Macaé, costa do Rio de Janeiro, após a descoberta de uma ameaça de um grupo terrorista que tenciona atacar uma ou mais plataformas e/ou embarcações de grande porte, fazendo uso de outras embarcações de grande porte já capturadas em outras regiões.

Imagem via Marinha do Brasil/COMCONTRAM.

Nesse cenário principal, uma das mais importantes tarefas é a monitoração do tráfego marítimo internacional que circula nessa área de responsabilidade brasileira, e nessa monitoração a situação mais importante é saber quem são, a origem de cada embarcação e seu “status” de segurança. Para isso as comunicações desempenham um papel primordial no exercício. 


Essas estruturas de comunicações vão além da simples utilização do chamado “two way”, isto é, comunicações bilaterais com utilização de um único canal de rádio em ondas curtas ou VHF, mas também comuicações digitais e enlances com meios aéreos que podem ser utilizados  para finalidades de atividades “SAR” (Search and Rescue) aéreas e atividades de neutralização de ameaças marítimas com a utilização de meios aéreos, seja com a utilização de infiltração de tropas de Commandos Anfíbios, Grumecs ou o ataque aéreo direto à uma embarcação sob controle de terroristas.

TIKUNA Continent, Lopine X JUPIARA Continent, Cafua, Fuzarca, Mocambo e Quitute + Oxalá Organization

Imagem via Marinha do Brasil/COMCONTRAM.

Digna de um romance de Tom Clancy, a estruturação e descaracterização dos nomes de regiões geográficas bem conhecidas foi utilizada não só para a preservação moral  dos territórios reais, como também é uma doutrina para a codificação de nomes que serão utilizados no tráfego de informações durante as comunicações por todos os meios empregados. Mas o cenário é baseado em riscos que foram levantados pelos serviços de inteligência de forças militares e empresas de consultoria em segurança marítima de todos os países envolvidos, e no final das contas não foge a realidade que está no mundo real.


Tikuna é o continente em que a nação “Lopine” está localizada, e, essa nação fictícia tem um dos maiores mares territoriais e uma ampla área marítima sob sua responsabilidade jurisdicional e possuidora de amplos campos petrolíferos entre outras riquezas que motivam a cobiça internacional. Jupiara é o continente localizado no outro extremo do oceano e nesse continente existem várias nações com governos desestruturados e sob influência de um grupo guerrilheiro/terrorista  que luta para implantar um estado fundamentalista na região apoiados por um grupo religioso de nome “Afoxé”, grupo esse que utiliza frequentemente da pirataria para a obtenção de fundos no mercado negro e do terrorismo como ferramenta de intimidação direta. Esses grupos terroristas conseguem grande amplitude de ação devido não só ao desestruturamento dos governos das nações de “Jupiara” como também contam com a colaboração de muitos elementos simpatizantes dentro desses governos assolados pela incompetência e corrupção reinantes.

Imagem via Marinha do Brasil/COMCONTRAM.


No continente Tikuna, as nações Platinum, Charrua e Guarani, advertem a nação Lopine que um ataque dos grupos da Organização Oxalá está em curso à suas regiões de exploração petrolíferas, com o uso de embarcações civis de pesca e outras. Seguindo os protocolos internacionais já estabelecidos, a nação Lopine decide ativar o ORGACONTRAM, para acionar todos os meios de proteção e pronta-respota à ameaça, com a utilização de todos os meios aéreos e navais disponíveis para ações de contra-terrorismo, interdição naval e SAR na região sob sua jurisdição marítima. Dentro de todo esse cenário e com múltiplas variedades de situações, a simulação em seu nível mais complexo é a melhor maneira de conhecer possíveis pontos de deficiências e aperfeiçoar métodos e doutrinas que visam a melhor eficiência de ações isoladas e/ou conjuntas envolvendo diversas entidades que visam o objetivo comum da segurança de nossas instalações petrolíferas como do tráfego marítimo internacional em nossa área de responsabilidade.

Organizando tudo e todos

A estrutura básica inicial do Exercício “Bell Buoy” 2017. Imagem via Marinha do Brasil/COMCONTRAM.

No espectro de ações que caberão às entidades governamentais militares e civis em uma operação como essa, é o grande número e a complexidade das comunicações entre os meios aéreos e navais envolvidos. Para quem conhece atividades SAR e já trabalhou no meio aéreo e/ou naval, é bem conhecido o amplo uso de radiocomunicação em diversas frequências e bandas do spectro de rádio para garantir o alcance em grandes distâncias, e, como se trata de uma situação de crise com um oponente beligerante relativamente bem estruturado, existe ainda toda uma doutrina para evitar a intercptação dessas comunicações e até mesmo a aplicação de contra-medidas eletrônicas que possam afetar essas comunicações. 


A semana que ococrreu o Exercício “Bell Buoy 2017” coincidiu com um dos maiores ataques cibernéticos já realizados em escala mundial, e como todo profissional de segurança sabe, hoje uma boa parte dessas informações viaja pela internet ou intranets em uso por empresas e até mesmo Forças Armadas. Nesse contexto, o uso de aplicações e ferramentas de comunicação é essencial no tocante aos meios já em uso cotidiano como as alternativas para uso de outros meios já considerados arcaicos, como a comunicação “two way” (canal de frequência bilateral) seja na faiza de onda que for.  E uma ação de proteção à nossos mares, entram navios militares, civis, aeronaves militares de até 3 forças diferentes, aeronaves civis que podem ser requisitadas em auxilio, e, todos podem ser de diversas nacionalidades diferentes caso a situação ocorra sem aviso.

Publicado originalmente no site/blog Orbis Defense com o titulo: Exercício “Bell Buoy 2017”, Marinha do Brasil e aliados sempre alertas!

https://orbisdefense.blogspot.com/2017/05/exercicio-bell-buoy-2017-marinha-do.html

Com informações da Marinha do Brasil via redação Orbis Defense Brasil.

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