Marinha do Brasil tem sua primeira aspirante fuzileiro naval

Seis aspirantes femininas se qualificaram para o corpo da Armada; duas escolheram ser FN, mas apenas uma conseguiu ingressar neste quadro. 

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Helena de Souza Monteiro é a primeira mulher aspirante fuzileiro naval no Brasil. (Foto: Marinha do Brasil)

O ano de 2014 marcou a história das Forças Armadas do Brasil. Pela primeira vez, mulheres foram aceitas para ingressar na prestigiada Escola Naval (EN) – instituição de ensino superior da Marinha do Brasil (MB), localizada no coração da cidade do Rio de Janeiro, de ingresso dificílimo, onde há centenas de candidatos por vaga.

Foram 12 vagas designadas exclusivamente para mulheres e apenas para o Corpo de Intendência. Aquelas pioneiras se graduaram em dezembro de 2017, passando a ser as primeiras guardas-marinha na história do Brasil.

Mas foi apenas em 2021 que as aspirantes da EN puderam ingressar nos outros dois corpos da MB: Armada e Fuzileiros Navais (FN). Seis aspirantes femininas se qualificaram para o corpo da Armada; duas escolheram ser FN, mas apenas uma conseguiu ingressar neste quadro. Diálogo conversou com Helena de Souza Monteiro, a primeira mulher aspirante fuzileiro naval no Brasil.

Diálogo: Você já parou para pensar que daqui a alguns anos, pode ser a primeira mulher a comandar o Corpo de Fuzileiros Navais (CFN) no Brasil?

Aspirante Helena Monteiro: Sim. Existe essa possibilidade. Claro que sou aspirante ainda, mas às vezes passa na minha cabeça um dia ser comandante geral do CFN. Converso com minhas colegas de turma sobre isso. É uma responsabilidade muito grande, mas é uma oportunidade também, algo que seria inesquecível e marcante na história da MB e em nossas vidas.

Diálogo: Como a primeira aspirante fuzileiro naval, você vai ficar muito tempo ainda sendo a única no meio só de homens. Isso não a incomoda?

Aspirante Helena Monteiro: Não, não me incomoda. Até porque aqui na EN, por exemplo, muitas vezes sou apenas eu de mulher nas atividades e todos agem naturalmente. Com minhas colegas de turma acontece o mesmo, ou seja, de ser a única mulher na sala de aula, e assim por diante.

Todos já estão acostumados e isso não incomoda nem interfere em nada. Não sei se, no futuro, eu chegando a um batalhão, sem conhecer ninguém, se será diferente. Mas, mesmo assim, não vai me incomodar porque sei que todos os FN são altamente profissionais.

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A aspirante Helena Monteiro junto ao Comandante da Escola Naval, Contra-Almirante Guilherme Costa. (Foto: Marinha do Brasil)

Diálogo: Você se vê participando ombro a ombro em qualquer ação operacional com seus colegas homens ou acha que o padrão tem que ser diferente por você ser mulher?

Aspirante Helena Monteiro: Eu não acho que o padrão tem que ser diferente ou diminuído, de jeito nenhum. As atividades têm que ser as mesmas. Assim, como já acontece com outras mulheres que não passaram aqui pela escola, mas que também são oficiais FN. O tratamento tem que ser o mesmo. Eu me vejo fazendo as mesmas ações que meus colegas homens, sim.

Diálogo: Sendo da área operacional da MB, acha que pode ser visto como prejudicial o fato de você querer formar uma família ou ter filhos no futuro?

Aspirante Helena Monteiro: Não. Eu acredito que a MB já se preocupa e lida muito bem com isso. Já há praças e oficiais FN que engravidam e não há problema algum.  Nunca ouvi ninguém criticando ou vendo isso como prejudicial. Não vejo ninguém reclamando. Até porque, como disse anteriormente, há muito profissionalismo dentro do CFN. Sei que quando chegar meu momento, a MB saberá lidar muito bem com isso.

Diálogo: Mesmo sem querer, você será – ou já é – um modelo, um exemplo a ser seguido por outras meninas. O que você sente em relação a isso? E quem foi a sua modelo?

Aspirante Helena Monteiro: Isso só me incentiva a continuar me dedicando em ser uma aspirante o mais padrão possível. Ter sempre uma boa apresentação pessoal, me portar bem, dentro e fora da EN.

Quero sempre representar bem o CFN. Acho que isso é o principal que tenho em mente, não exatamente por ser uma pioneira ou mulher, mas como ser humano e como militar.

Como referência na minha vida, sempre menciono minha mãe. Ela sempre foi um grande exemplo para mim. Sempre se preocupou muito com minha educação e meu bem-estar. Ela sempre vai ser uma heroína para mim.

Diálogo: Você é filha única. Seu pai também a apoiou na decisão de ser militar e FN?

Aspirante Helena Monteiro: Sim. Meu pai sempre me apoiou em tudo. Ele também é um grande exemplo pra mim. Também é o meu herói. Sempre me incentivou muito a fazer o que eu queria. Com relação a ser militar, ele sente muito orgulho de mim. Tanto meu pai como minha mãe vibram muito com essa minha escolha profissional.

Diálogo: Como a primeira mulher aspirante FN, o que você acha que vai trazer de contribuição para a MB?

Aspirante Helena Monteiro: Acho que em querer manter os padrões já estabelecidos. Não pedir para mudar nada por eu ser mulher. Sei que ainda é algo meio diferente uma mulher FN, mas não quero ser tratada de modo especial. Quero fazer a diferença nesse sentido, de dar sempre o meu melhor para contribuir com a pátria, contribuir com o Brasil, seja da maneira que for, independente do desafio que me for imposto.

  • Por Marcos Ommati/ Revista Diálogo Américas