“Minas Gerais – A melhor maneira de dizer Marinha”, A história do primeiro Navio Aeródromo da Marinha do Brasil

O navio serviu em três marinhas de guerra ao longo dos seus cinquenta e seis anos de serviço ativo

Navio Aeródromo Leve (NAeL) Minas Gerais - A-11

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Quando a Marinha do Brasil (MB), anunciou o fim das operações do Nae São Paulo (A-12), gerou um mar de incertezas e especulações onde as quais inundaram as redes sociais, de como seria o seu futuro da MB sem um navio aeródromo em sua flotilha.

Mas logo estas dúvidas e teorizações tiveram fim. Em 2017 a MB adquiriu o Navio Aeródromo Multipropósito (NAM) Atlântico – A-140 – (ex-HMS Ocean), junto a Marinha Real britânica, por £84 milhões de libras (R$ 359,5 milhões).

Vindo da Holanda onde fora reformado, entrando na baia da Guanabara em 1960, o A11 Minas Gerais, ex-HMS Vengeance da marinha britânica.

Com isso, um ar nostálgico nos faz lembrar a época de ouro da nossa Marinha, tendo a chegada de seu primeiro navio aeródromo ligeiro NAeL Minas Gerais ou simplesmente o “Minas”, que assim era chamado carinhosamente por seus tripulantes e admiradores, como o grande auge desta época.

O navio serviu em três marinhas de guerra ao longo dos seus cinquenta e seis anos de serviço ativo, que teve um fim não tão nobre nas impiedosas praias de Alang (Índia), maior centro de sucateamento de navios, onde encontrou o seu descanso ao lado de tantos outros guerreiros dos 7 mares.

Nasce um símbolo de liberdade

O porta-aviões HMS Vengeance (R-71) fora projetado e construído pelos Estaleiros Swan Hunter & Wígham Richardson Ltda., em Wassend on Tyne, sua quilha foi batida em 16 de novembro de 1942, e fora lançado ao mar em 23 de fevereiro de 1944 sendo incorporado à Marinha Real Britânica no dia 15 de dezembro de 1944, e finalmente no serviço ativo em 15 de janeiro de 1945.

HMS Vengeance

Ele foi concebido como esforço de guerra para apoiar as tropas aliadas na guerra do pacífico, mas com o desenrolar da guerra acabou por não chegar a entrar em combate, ele estava baseado em Sidney (Austrália) quando deu-se o armistício da II Guerra Mundial.

Foi dele a honra de ser o primeiro navio britânico a entrar em Hong Kong após o final da guerra, servindo de base aliada para a reconstrução da cidade, e foi a bordo dele que os japoneses assinaram sua rendição.

Na Austrália: Um substituto temporário

Com sua curta carreira na Marinha Real Britânica, o porta-aviões no ano de 1952, foi “cedido” à Marinha Real Australiana pois o Governo Australiano tinha efetuado a compra de um porta-aviões Britânico, cuja a sua construção encontrava-se bastante atrasada, e valendo-se do final da guerra o Governo Britânico meio que arrendou o Vengeance aos australiano e com uma frase “vai usando esse aí enquanto o seu não fica pronto”, o navio navegou por lá durante 4 anos.

HMAS em uso pela Marinha Real Australiana

Agora sobre o nome HMAS (Her Majesty’s Australian Ship), o Vengeance de novo quase entrou em combate, na Guerra da Coréia, onde chegou a ser preparado mas acabou com o envio de outro navio australiano para a região de conflito.

No Brasil: O orgulho da frota e uma nova história

Após 4 anos de serviço na Marinha Real Australiana, o HMAS, foi devolvido ao Reino Unido em uma época de vacas magras e cortes orçamentários, sendo assim o HMS Vengeance (voltou ao nome original) foi descomissionado e o Brasil, viu uma grande oportunidade.

O país vivia uma época de euforia, estávamos construindo uma nova capital e agora chegava a notícia que poderíamos comprar um porta-aviões, ele seria o primeiro de uma Marinha latino-americana.

Adquirido pela Marinha em 13 de dezembro de 1956, teve sua modernização iniciada em 17 de julho de 1957 e terminada em 25 de novembro de 1960, pelos estaleiros VEROLME, na Holanda sendo incorporado à Armada em 06 de dezembro de 1960, pelo Aviso Ministerial n° 1.763.

NAel Minas gerais durante operação com a Marinha do Brasil

Rebatizado como Navio-Aeródromo Ligeiro (NAeL) Minas Gerais (A-11), teve a fortuna de ser o segundo navio a ganhar o nome, em homenagem ao Estado de mesma grafia.

Sendo assim foi escolhido para ser o navio capitânia da Esquadra (ou seja, o navio mais importante) Brasileira, e assim entrávamos de vez em um seletíssimo grupo de países utilizadores de porta-aviões, um grupo que até hoje inclui somente nove membros. Durante esta reforma, o navio sofreu importantes alterações estruturais no convés de voo e na ilha, bem como nos sistemas de aviação e eletrônica.

Os serviços estenderam-se até o final de 1960, com a realização das provas de cais e mar, registrando-se, no dia 14 de outubro, o primeiro pouso a bordo realizado por uma aeronave da Marinha do Brasil, o helicóptero S-55 Whirlwind.

Westland-Sikorsky WS-55 Whirlwind HU-2W no convoo do Minas

Ocorria em dezembro de 1960 na cidade de Rozemburg (Holanda) a mostra mundial de Armamentos, e lá nesta ocasião tão especial o navio foi recebido e incorporado à Marinha do Brasil, e finalmente em 1° de fevereiro de 1961, o NAeL MINAS GERAIS chegou ao Rio de Janeiro, ostentando o pavilhão do Comandante em Chefe da Esquadra Almirante Silvio Monteiro Moutinho.

A Ordem do Dia alusiva ao fato, assinada pelo então Almirante de Esquadra Jorge dá Silva Leite, Chefe do Estado Maior da Armada, assim se referia ao primeiro navio-aeródromo da nossa Marinha: “…representa a posse pela nossa Esquadra do elemento básico e fundamental do Grupo de Caça e Destruição, que constitui hoje a única força naval capaz de se opor, com êxito, ao principal adversário marítimo dos tempos atuais: o Submarino…. O navio-aeródromo, com seu grupo de contratorpedeiros e submarinos e seus aviões e helicópteros constitui o núcleo, a peça “mater”, em torno da qual se compõem e se movem, se entendem e se ajudam aquelas unidades combatentes, dotadas de um mesmo impulso, possuídas de um só espírito, governadas por uma única força, comandadas por um só chefe, sem o que seria o desarranjo, o desencontro, o desequilíbrio, a confusão, a anarquia, a derrota…”.

À época de sua incorporação o NAeL MINAS GERAIS possuía as seguintes características: casco, conveses, anteparas e todas as partes estruturais de aço macio espessura máxima das chapas do costado de 19mm e das chapas das anteparas longitudinais de 17,5mm, cavernas numeradas de proa a popa, comprimento total de 214,10m e entre perpendiculares de 191,992m, boca na linha d’água de 24,46m, boca moldada de 24,384m e boca extrema de 15,857m, calado máximo de 7,5m, deslocamento normal de 16.700t, deslocamento leve de 13.320t e deslocamento carregado de 19.211t.

Lançar!!!

Estava equipado com um convés de pistas oblíquas, catapulta a vapor BS-4 (inglesa), aparelho de parada com três unidades MK-12 (inglês), espelho de pouso MK-4 (fabricação americana), podendo operar com qualquer tipo de avião A/S conhecido à época, bem como qualquer helicóptero, além de aviões a jato de porte e comparáveis ao FJ-4 “Fury”, de origem americana, e menores.

Suas máquinas eram compostas por dois grupos propulsores (turbinas Parsons), tendo uma potência máxima de 4O.OOOHP. Possuía ainda, como defesa antiaérea, dois reparos quádruplos de 40mm, Bofors, na ilha, e um duplo, em plataforma bombordo AR, à altura do convés da galeria.

Era dotado com aviões bimotores S2F e helicópteros HSSI, podendo embarcar 16 desses aviões. Como armamento de defesa imediata existiam dois reparos quádruplos de 40mm e um reparo duplo de 40mm, sendo os canhões dirigidos por três diretoras: uma l51 e duas MK-63.

Grumman (S2-A) P-16 Tracker, matrícula nº 7036 operando a bordo do Minas

Em 1963, com a criação da Força Aeronaval, passou o navio a ser subordinado àquela Força, tendo operado aviões e helicópteros, até o final de 1964. Em 26 de janeiro de 1965, o Decreto-Lei do Presidente da República reorientou o emprego das aeronaves embarcadas, passando a Aeronáutica a operar a bordo os Grumman (S2-A) P-16 Tracker, cabendo à Marinha a operação dos helicópteros antissubmarino.

Nesse perfil de operação, que se estendeu por 28 anos, em clima de perfeita integração dos militares das duas Forças, foram realizados cerca de 3.000 catapultagens e 17.000 pousos. No período de 1974 a 1979 sofreu reformas de grande extensão, sofrendo modificações em suas características.

Retomando suas atividades normais em 1979, realizou diversas comissões de instrução e adestramento, além das Operações UNITAS XXII, KATRAPO I, KATRAPO II, KATRAPO III, DRAGÃO XVII e DRAGÃO XVIII. De 1991 a 1993, deu-se atenção especial à eletrônica, aos sistemas de computação, de comunicações e transmissão de dados, que foram modernizados e integrados aos dos demais navios da Esquadra.

Nessa ocasião, foi instalado a bordo o sistema de controle Tático de projeto nacional, o SICONTA. Ao final de 1993, a aeronáutica deixou de operar a bordo, propiciando à Marinha a oportunidade de emprego de suas próprias aeronaves de asa fixa, o que foi autorizado pelo Decreto Presidencial, de 08 de abril de 1998.

Primeiros pousos com gancho e catapultagens de um AF-1 em janeiro de 2001.

Quando ocorreu a aquisição de 23 unidades do caça A-4 KU Skyhawk dos Emirados Árabes Unidos (EAU), iniciou-se o preparo de toda a sua infraestrutura de bordo para a operação daquelas aeronaves, efetuando-se extenso programa de revisão da catapulta e do aparelho de parada, bem como a instalação de novo aparelho de pouso.

Em setembro de 2000, voltava o navio a receber no seu convés de voo, aeronaves de asa fixa da Marinha do Brasil, tendo sido realizados vários toques e arremetidas que permitiram a ajustagem final dos sistemas de bordo. Finalmente, em janeiro de 2001, tiveram lugar os primeiros pousos com gancho e as primeiras catapultagens de um AF-1.

E como todo início tem seu fim, a Portaria n237 de 21 de setembro de 2001 determinou a baixa do navio com Mostra de Desarmamento em 09 de outubro de 2001 (Ordem do Dia n° 8), de seus 40 anos de serviço ativo na Marinha do Brasil, neste período o NAeL MINAS GERAIS navegou 285.972 milhas, levando o nome da Marinha e do Brasil aos quatro cantos do mundo por onde o “Minas” passou, deixando saudade em várias gerações de Homens do mar e aos cardeais, que a bordo dele presenciaram muitas histórias e o nascimento de diversas lendas…

  • Referências Bibliográficas e Fotográficas: 
  • Diretoria de Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha; Site História Militar Online;
  • Fotos: Acervo Facebook José Alvarenga.
  • Matéria original publicada no site Orbis Defense, em maio de 2017 e atualizada para a data atual


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