Munições para Carro de Combate: Uma análise de características e possibilidades

O mercado de produtos de defesa, atualmente, conta com inúmeras opções de munições para diversos tipos de armamentos, sistemas de armas e outros materiais de emprego militar.

A variedade é tanta, com diferentes tipos de compatibilidade, níveis de tecnologia aplicada, efeitos sobre o alvo, entre outras características técnicas, que muitas vezes torna-se difícil entender quais delas servem aos propósitos da nossa Força.

Representam um passo no caminho da criação de capacidades necessárias e quais são aquelas cuja aquisição nos traria benefício a curto ou a longo prazo.

Para facilitar o entendimento, dividiremos os vários tipos de munição em três grandes grupos principais: munições de energia cinética, munições de energia química e munições de emprego especial.

As munições de cada um destes grupos possuem propriedades, comportamentos e finalidades distintas.

A tentativa de análise da qualidade ou eficiência de uma munição através da sua comparação com outra, de um grupo distinto, é o primeiro dos equívocos mais comuns sobre os quais trataremos aqui.

Neste sentido, é importante lembrar que cada munição dos grupos citados, têm um propósito para o qual foram desenvolvidas. Esperar que uma munição projetada para penetrar blindagens pesadas, por exemplo, tenha um melhor desempenho ao penetrar blindagens leves do que aquela que foi desenvolvida especificamente para essa tarefa é, parafraseando Albert Einstein, como “julgar um peixe pela sua capacidade de subir em uma árvore”.

Por mais que o exemplo usado, à primeira vista, possa parecer ilógico (afinal, se uma munição consegue penetrar uma blindagem pesada, seu efeito sobre uma proteção menor “obviamente” será devastador) o motivo para esta verdade “inusitada” se encontra nas diferentes mecânicas de funcionamento destas munições. Vamos à explicação:

As munições de Energia Cinética (EC) não possuem carga explosiva em seu projétil, apenas um penetrador de metal extremamente duro e denso. Este é o tipo de munição utilizado na atualidade por Carros de Combate (CC) contra outros CC por apresentar os melhores resultados contra blindagens pesadas.

Mas como alguém poderia perguntar: um projétil sem carga explosiva é eficaz contra blindagens pesadas? A resposta está no nome dado a este tipo de munição, energia cinética.

As mais modernas munições EC para CC são subcalibradas, ou seja, seu projétil é de menor calibre em relação ao armamento que o dispara.

O tiro, neste caso, é possível graças ao uso de calços, também conhecidos como sabot, que preenchem o restante de espaço entre o projétil e a parede do tubo do canhão, evitando que os gases provenientes da queima do propelente escapem pelas laterais do projétil, sem impulsioná-lo para frente.

Poucos metros após abandonar o tubo, o calço é “descartado”. Desta forma, o sabot, na balística interior, faz com que toda a energia gerada pela queima do propelente seja impressa no projétil, na forma de movimento (ou energia cinética).

Em seguida, fora do tubo, ao destacar-se do projétil principal, permite que este prossiga seu voo sozinho em direção ao alvo, perdendo o mínimo de velocidade em decorrência da resistência do ar.

Assim, o sabot permite que as munições EC percorram sua trajetória com a velocidade proveniente da propulsão de um armamento de um alto calibre e com a desaceleração aerodinâmica de um projétil de médio calibre, visto que é subcalibrado.

O projétil principal, ou penetrador, varia muito em forma e constituição, dependendo do modelo da munição. Como característica constante se apresentam a constituição de material duro e denso, normalmente ligas metálicas de tungstênio ou urânio empobrecido, e a utilização de penetradores cada vez mais longos.

Isto se dá porque estas características (densidade, dureza e comprimento do penetrador) estão entre as mais decisivas para o sucesso da munição no processo de degradação mútua que será abordado a seguir.

Ao atingir seu alvo, as munições EC são forçadas a desacelerar repentinamente. Sendo assim, pela Lei da Conservação da Energia, a maior parte da energia cinética, decorrente de sua velocidade, transforma-se em energia térmica (calor).

Este, incandescendo tanto projétil quanto blindagem, permite a degradação gradativa de ambos até que (se suas características, como dureza, densidade e comprimento, permitirem) o projétil perfure a blindagem.

Lograda a penetração, o interior do alvo é tomado por metal incandescente proveniente tanto da blindagem quanto do projétil, incendiando os materiais inflamáveis ali existentes, como munição empaiolada e óleos hidráulicos, em uma provável reação em cadeia.

Assim o dano ao alvo é, em sua maior parte, decorrente deste efeito secundário. Voltando ao exemplo citado no início deste artigo, contra uma blindagem pesada, em uma explicação simples, a desaceleração do penetrador é maior, pois se dá por mais tempo, fazendo com que seu potencial para conversão de energia seja melhor aproveitado.

Contra blindagens leves, o projétil normalmente tenderá a atravessar duas paredes do alvo (na entrada e na saída) sem, no entanto, desacelerar e converter energia suficiente para gerar danos colaterais no interior do alvo. Daí o motivo pelo qual aquilo que, neste caso, podia parecer óbvio não representar a verdade.

Ainda no tocante às munições EC, uma questão interessante que cabe ser analisada cuidadosamente é a de sua validade. Diferentemente das munições de outros grupos, o material que compõe o projétil das munições EC é inerte (ou relativamente inerte no caso do urânio empobrecido), o que faz com que suas propriedades mecânicas (responsáveis pelo seu efeito sobre o alvo) não variem significativamente com o tempo.

Desta forma, o projétil de munições EC não possuem validade, podendo ser armazenados por longos períodos de tempo sem representar qualquer tipo de risco, necessitando de, no máximo, alguma manutenção periódica em sua pintura, cintas plásticas e marcações.

A espoleta, estopilha e o restante da sua carga propelente, ainda estão sujeitos às interações químicas normais e apresentam as mesmas características de validade que as cargas propelentes das munições de outros grupos.

No entanto, a troca destes componentes é bastante simples e rápida, além de ser mais barata em relação à troca do conjunto todo da munição.

Assim, reservas deste tipo de munição podem ser mantidas por tempo indeterminado, desde que não sejam empregadas, sem a necessidade de compra de novas munições, observando-se apenas a necessidade de substituição periódica da carga propelente.

Como o uso de munições EC em treinamento é antieconômico, tendo em vista a existência, no mercado, de munições de treino a preços mais baixos, a manutenção de reservas estratégicas deste tipo de munição, com a necessidade de substituição periódica apenas dos elementos mais baratos que a constituem (propelentes), preservando-se os mais caros (penetradores) indeterminadamente, torna-se não só uma atitude viável, mas economicamente vantajosa.

As munições de Energia Química (EQ), diferentemente das EC, possuem carga explosiva em seu projétil (que por esta característica também pode ser chamado de granada). Esta carga explosiva varia em constituição, tamanho e forma, em função do modelo de munição e a finalidade para a qual foi desenvolvido.

Apesar de alguns destes modelos, como as munições de carga oca, terem sido desenvolvidas para o enfrentamento de blindagens consideradas pesadas na época, hoje em dia são utilizadas, normalmente, contra blindagens mais leves, tendo em vista o aumento da proteção blindada em uso e a maior eficiência das munições EC contra este tipo de alvo.

Os efeitos das cargas explosivas variam muito, de acordo com suas características, indo do usual efeito de estilhaçamento ao de penetração em blindagens leves, passando por efeitos de degradação de interna de superfícies por ondas de choque.

Ao contrário do que acontece com as munições EC, o efeito no alvo das munições EQ não varia em função da distância, já que não depende da energia cinética com que atinge o alvo, mas do explosivo que carrega

Estas munições, no entanto, apresentam trajetória menos tensa e menor velocidade de voo (consequentes de sua maior massa e desenho menos aerodinâmico), que acarreta em uma tímida perda de precisão.

Em contrapartida, por possuir carga explosiva, mesmo em caso de errar o alvo, seus efeitos secundários ainda podem causar algum dano a ele ou a elementos próximos. Os modelos mais “clássicos” deste grupo possuíam apenas um efeito principal sobre o alvo, complementado por um possível efeito secundário de estilhaçamento.

Atualmente, no entanto, as munições mais modernas possuem a característica de serem multipropósito, com efeito programável na ocasião do disparo.

Normalmente este tipo de munição dispõe dos seguintes efeitos: estilhaçamento no ar (pré impacto), detonação no impacto e penetração em construções (detonação com retardo, a fim de causar efeito de estilhaçamento no interior de uma construção, por exemplo).

Por possuírem carga explosiva, este tipo de munição deve passar por controles rigorosos de validade, a fim de garantir a segurança no seu armazenamento e emprego. Esta característica faz com que não seja viável a manutenção de um mesmo lote de munição em reserva estratégica por períodos muito longos de tempo.

Assim, mesmo que a utilização, em treinamento, de munições de treino seja uma alternativa mais econômica e propicie maior desenvolvimento das técnicas de tiro, algumas destas munições podem ser utilizadas, antes de serem dadas como inservíveis, nos ciclos de treinamento para a obtenção de dados balísticos e estatísticos.

A utilização de todas as munições prestes a vencer nem sempre é considerada vantajosa, por não proporcionar ganhos significativos no desenvolvimento de técnica de tiro.

É essencial, no entanto, observar-se que os efeitos colaterais de um tiro com munição de EQ em treinamento são muito maiores em relação à mesma atividade, se realizada com munições EC ou de treino.

Isto se dá pela possibilidade de, por algum motivo, as granadas não explodirem no impacto, algo que nem sempre é perceptível para a equipe de condução de tiro.

Então, torna-se imperioso que a atividade de tiro com munições EQ seja realizada em áreas delimitadas exclusivamente para o tiro com munições explosivas, interditadas permanentemente, a fim de evitarem-se acidentes fatais.

É, portanto, ideal a existência de duas estruturas de estandes de tiro distintas para munições inertes (EC ou treino) e outra(s) exclusiva(s) para munições explosivas. O terceiro e último grupo é o de munições de emprego especial. Este grupo engloba todos os modelos de munição que não se enquadram nos dois anteriores.

Fazem parte deste grupo munições antipessoais de curta distância, fumígenas, iluminativas, de treino, entre outras. Seus efeitos, como se pode imaginar, são tão variados que não podem ser discorridos aqui. Neste artigo nos concentraremos na análise das munições de treino.

Estas buscam similaridade e equivalência a algum modelo de munição de emprego real, seja ela uma munição EC, EQ ou mesmo outra munição de emprego especial. A grande diferença entre a munição de treino e seu equivalente de emprego real é o efeito reduzido.

Para munições EC, buscam-se utilizar projéteis mais baratos e que possuam um alcance máximo reduzido. Já para munições de EQ, tenta-se moldar um projétil de forma e massa iguais ao modelo explosivo, porém totalmente inerte.

O uso de munições de treino representam além de uma alternativa economicamente vantajosa, por serem fabricados com materiais muito mais baratos em relação aos seus equivalentes de emprego real, uma opção facilitadora para o treinamento.

Isto se dá, primeiramente, pela diminuição dos efeitos colaterais do tiro (alcances reduzidos e cargas inertes), que aumentam o número de locais onde podem ser empregadas com segurança.

Em segundo lugar, por serem inertes, estas munições podem ser disparadas contra alvos móveis e sensorizados, sem o risco de inutilizarem estes equipamentos.

A variedade de opções e o rápido avanço tecnológico a que estão submetidos ininterruptamente os meios de defesa podem ser desconcertantes.

É primordial, no entanto que busquemos nos manter atualizados, a fim de garantir o melhor uso dos nossos meios em todas as situações. Esperamos que os dados aqui expostos possam contribuir para facilitar um pouco esta tarefa.

AÇO, BOINA PRETA, BRASIL!

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Por: André Almeida do Nascimento – capitão do Exército Brasileiro, Instrutor do CI Bld & Carlos Alexandre Geovanini dos Santos – tenente-coronel do Exército Brasileiro, Comandante do CI Bld.



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