MUSEU DO AR: UMA VIAGEM PELA MEMÓRIA DAS ASAS LUSITANAS

Foto: Leo Melo

Portugal é um país com um histórico de preservação da memória poucas vezes encontrado no mundo todo. Cada cidade, aldeia ou vila de Portugal preserva dentro de suas possibilidades o seu passado. Logicamente esse cuidado atinge todas as instituições do país e em especial ás forças armadas lusitanas e hoje, o leitor do DefesaTV vai nos acompanhar na visita ao Museu do Ar em Sintra, um dos três polos do museu, pois há outros dois em Alverca e Ovar. Na chegada ao museu o visitante pode perceber como o cuidado com a memória da Força Aérea Portuguesa recebe tratamento especial.

Em um muro está escrito com letras de bom tamanho em caixa alta: O Dever da Memória. Mais especifico, impossível. O museu é composto de três hangares, que datam do início dos de 1920 século passado. Esses hangares pertenciam a base Aérea n° 1. Após a compra do ingresso que é bem barato, 3 euros, adentramos o hangar principal do museu e de frente já encontramos um réplica do 14 bis sustentada e abaixo, uma outra réplica de um Caudron G III, que foi a primeira aeronave a ser produzida em Portugal com cerca de 50 unidades. Em frente ao Caudron, temos um Junkers Ju-52, com o manequim de um paraquedista à porta, pronto para saltar.

Foto: Leo Melo

Embaixo deste uma réplica do Demoiselle ao lado de um busto de Santos-Dumont e atrás do um painel ilustrando a demonstração do padre Bartolomeu de Gusmão para D. João V, em agosto de 1709. No acervo do museu, há uma aeronave bem rara. Um Avro 631 Cadet. Esta aeronave foi uma das avaliadas para suceder o Caudron G-III mas o escolhido acabou sendo o Tiger Moth. Em frente ao Cadet está o substituto do Tiger Moth na FAP, o De Havilland DHC-1 Chipmunk e logo atrás deste temos um helicóptero Sikorsky UH-19 com as portas abertas. Continuando a visita no mesmo hangar, temos aeronaves de caça usadas pela FAP. Lado a lado temos Spitfire HF IX, Republic F-84 G, NA F-86 F, Corsair II T e o FIAT G-91.

Com exceção do Corsair II e do Spitfire, todas as outras aeronaves citadas acima viram ação nas Guerras de Ultramar, sendo que o F-86 foi enviado para África pois era o que Portugal tinha de melhor para enfrentar os Mig-17 que já estavam sendo usados pela Guiné Bissau. Embora nunca tenham se enfrentado para valer, num combate aéreo, houve uma escaramuça célebre, quando um piloto da Guiné num Mig-17, atacou um navio que navegava no limite marítimo do país, achando que era uma embarcação portuguesa, mas para embaraço das Força Aérea da Guiné, o navio era cubano.  

Neste mesmo hangar, temos um Douglas DC-3 com uma museografia bastante interessante. A aeronave está pintada com dois padrões de pintura. De um lado, a pintura usada pela empresa aérea TAP e do outro lado com as cores da Direção de Aeronáutica Civil. Segundo o pessoal do museu, o mais atraente nesta aeronave não é a pintura mas o fato de ser uma das poucas aeronaves veteranas do Dia D. Neste hangar também podem ser vistos um Becch AT-11 e um Noratlas.

Foto: Leo Melo

Normalmente em museus aeronáuticos, é dada ênfase à aviação militar mas no caso deste museu a aviação comercial é lembrada e muito bem. Há uma sala dedicada a TAP desde sua fundação em 1945 até o presente, mostrando não apenas aeronaves mas lembrando do pessoal de apoio em terra, algo raro neste tipo de museu. Há de tudo um pouco, desde uniformes das tripulações até uma vitrine que mostra a evolução do serviço de bordo ao longo da existência da companhia. Num mural estão as fotos da personalidades mundiais que voaram pela TAP, entre elas, Pelé e Garrincha.

Passando para o hangar seguinte chamado de Hangar Histórico, temos as aeronaves que marcaram a aviação portuguesa. Aqui estão os helicópteros que lutaram nas Guerras do Ultramar e aqui, cabe uma nota importante. A FAP foi uma das primeiras, se não a primeira a usar aeronaves de asas rotativas em larga escala numa guerra, algo que os americanos vieram a usar no Vietnã. Uma das aeronaves merece destaque por ter sido protagonista de um voo histórico. Trata-se de um Beechcraft F 33A Bonanza em que o comandante Antonio Faria e Mello (1942-2006) deu não uma, mas duas voltas ao redor do planeta.

Batizado de Alice, nome de sua mãe, a aeronave encontra merecido e destacado lugar na coleção do museu. O comandante Mello adquiriu a aeronave nos EUA e foi voando da Terra Nova até Portugal, via Lajes, em voo solo. Um notável feito aeronáutico. Uma outra aeronave que merece destaque é um Cessna T-37 pintado nas cores da esquadrilha de demonstração aérea Asas de Portugal. A esquadrilha operou de 1976 até 2010 quando encerrou suas atividades. Neste período, usou o T-37 e do Dassault-Dornier Alpha Jet.

Foto: Leo Melo

Saindo deste hangar entramos na Sala dos Pioneiros, onde os nomes de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que realizaram a primeira travessia do Atlântico Sul em 1922. Gago Coutinho é o inventor do Sextante de Horizonte Artificial ou Sextante de Bolha. Sarmento de Beires, que fez a primeira travessia noturna do Atlântico, Carlos Bleck que ligou Portugal à África e foi um dos fundadores da TAP e outros são exaltados com justificada razão. No lado externo, temos um conjunto de aeronaves grandes. O P-3 Orion, Neptune P2PV-5 e outras menores como o T-38 Talon, o Alpha Jet nas cores das Asas de Portugal.

A DEFESA TV expressa aqui seus mais profundos agradecimentos ao Ten-Cel Paulo Mineiro e ao 1º sargento Jorge Fernandes pela enorme generosidade com que nos receberam no Museu do Ar.

Serviço aos que desejarem conhecer o Museu:

Endereço:

  • Granja do Marquês 2715-021, Pêro Pinheiro, Sintra

Horário de Visitação:

  • Terça-Feira a domingo das 10 às 17 horas

Valor da Entrada:

  • Adultos – € 3
  • Estudantes e Crianças acima de 7 anos: € 1
  • Idosos – € 1,50
  • Menores de 6 anos – Gratuita
  • Estacionamento grátis

Acessibilidade

  • O museu dispõe de acessos para portadoras de necessidades especiais.

Site do Museu do Ar: www.museudoar.pt

Boa viagem!

O autor do artigo Leo Melo, é Museólogo, formado pela Universidade do Rio de Janeiro UNI-RIO. Trabalhou no Museu Aeroespacial, Museu Histórico e Diplomático, e na Secretaria Municipal de Cultura (SMC) do Rio de Janeiro. Também é fotógrafo e locutor.

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