O aluno da USP que foi parar em centro de pesquisa de defesa nos EUA

Yuri Peres Asnis, de 22 anos, cursa bacharelado em Física no Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP. No ano passado, estava cursando o terceiro ano quando recebeu a notícia de que tinha sido selecionado para uma bolsa da Universidade para pesquisar na famosa General Atomics, empresa especializada em projetos de defesa.

A bolsa de empreendedorismo é oferecida pela Agência USP de Inovação (Auspin). O período de intercâmbio pode variar de dois a seis meses e incentiva alunos de graduação de toda a USP a desenvolverem projetos nas diversas áreas do conhecimento da ciência.

Ao todo, a Auspin disponibiliza R$ 1 milhão para os auxílios. O diferencial é que essa bolsa tem como premissa a independência do aluno nas escolhas. É de sua responsabilidade definir o projeto e a instituição de destino (centro de pesquisa, empresa preferencialmente com base tecnológica, universidades etc.). Foi assim que Yuri chegou à General Atomics.

A empresa é filiada ao Departamento de Energia americano e está sediada em San Diego, Califórnia. O estudante de Física chegou aos Estados Unidos no dia 25 de janeiro e desde então desenvolve sua pesquisa no setor nuclear. Morando a 20 quilômetros da General Atomics, ele conta que a rotina é tranquila, mas o estudo do projeto está sendo bem difícil. Ele quer contribuir no avanço da fusão termonuclear como um recurso energético adicional, já que ela é uma potencial fonte de energia segura, sem emissão de carbono e ilimitada.

Segundo Yuri, diferentemente dos reatores de fissão nuclear, como o de Chernobyl, que utiliza elementos radioativos e o remanescente pode ser perigoso para o meio ambiente e saúde, caso seja exposto, a fusão nuclear tem como subproduto o hélio, um gás que não reage quimicamente com outra substância e não polui.

Outro benefício da fusão termonuclear é liberar cerca de quatro milhões de vezes mais energia do que em reações químicas, como a queima de carvão, petróleo ou gás, e quatro vezes mais energia que a fissão nuclear. “Mas é difícil fazer fusão nuclear porque precisa de uma pressão e temperatura muito grandes dentro do reator. Como não conseguimos reproduzir tamanha pressão, aumentamos a temperatura, que é a chave para fazer fusão”, explica o estudante de Física.

Dentro dos reatores de fusão nuclear, são observadas instabilidades. “Quando isso acontece, o campo magnético carrega energia e a libera para o plasma. Isso acaba esquentando o plasma – o que é bom. Só que ninguém sabe o porquê disso acontecer.” O projeto dele quer descobrir a natureza que fica por trás dessas instabilidades. “Sabendo o motivo, você pode aprimorá-las.”

Ainda na graduação, mas já um cientista

A experiência o fez sentir na pele as dificuldades de ser um cientista. “Estou aprendendo como é trabalhar em uma área acadêmica, tendo que lidar com frustrações e cálculos errados.” No entanto, a pesquisa caminha para o progresso e o quase físico acredita que a experiência abrirá muitas portas em um futuro próximo.

Yuri conheceu seu orientador, Gustavo Paganini Canal, professor do Instituto de Física (IF) da USP, em São Paulo, lendo um artigo sobre fusão nuclear. Como no IFSC ainda não há essa área de pesquisa, resolveu entrar em contato com o professor da capital. “Quando estava fazendo a iniciação científica, descobri sobre a bolsa de empreendedorismo e sugeri para o meu orientador. Ele falou que a General Atomics seria o melhor lugar para aplicar.”

Ele conta que a empresa admite diversos estrangeiros de todo o mundo. “Estou morando com dois suecos e dois finlandeses, o que está sendo uma experiência muito boa.”

A diferença mais perceptível, para ele, é em relação à infraestrutura. “A pesquisa no Brasil é muito boa, mas a estrutura aqui é diferenciada”, destaca. A General Atomics fica localizada em um grande parque científico, com várias empresas das mais diversas áreas tecnológicas. A qualidade de trabalho é um diferencial para o andamento da sua pesquisa.

“Eu recebi o dinheiro da Auspin para fazer a pesquisa aqui. Pelo edital, não posso receber nenhum dinheiro externo. Mas a bolsa está sendo o suficiente”, afirma o estudante de Física.

Já seu orientador no Brasil, Gustavo Paganini Canal, fez o caminho inverso de Yuri. Recentemente, foi contratado como professor da USP depois de ficar dez anos fora do País fazendo seu doutorado e pós-doutorado. Voltou para estimular o desenvolvimento de pesquisas na área de fusão nuclear no Brasil.

No Instituto de Física, há o Laboratório de Física de Plasmas TCABR, um dos laboratórios que impulsionaram a criação do Departamento de Física Aplicada na USP e importante para o desenvolvimento da área no Brasil.

Yuri volta dia 27 de junho ao Brasil para terminar os estudos e se formar, mas conta que tem projetos para um futuro próximo. “Meu orientador de São Paulo já me ofereceu uma bolsa de doutorado direto para fazer aqui.” Mas essa não é sua única opção, Yuri também fala da possibilidade de receber um convite direto da General Atomics para desenvolver mais pesquisas por lá depois de se formar. O certo é que ele pretende voltar para San Diego “de algum modo ou de outro”. Por enquanto, ele continua desenvolvendo sua pesquisa em um dos mais renomados centros de energia nuclear do mundo.

Por USP

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