O assassinato de George Floyd, o racismo e as lições que precisamos aprender

Eugênio Ricas é Delegado
Federal, Adido da PF nos
EUA, Mestre em Gestão
Pública pela UFES,
cofundador do Mais Ética

 

            Em 2009, na Alemanha, foi realizado o Campeonato Mundial de Atletismo. Na ocasião, o jamaicano, negro, Usain Bolt se tornou o ser humano mais rápido do planeta, completando os 100m rasos em incríveis 9,58 segundos (recorde que ainda persiste). O evento contou com a participação de 2101 atletas, representando 202 países diferentes.

            Além do novo recorde, o evento teve outros dois pontos altos. Após a vitória de Bolt, ele e o mascote do evento, o urso “Berlino”, se ajoelharam em frente à multidão fazendo a já tradicional pose do raio. A imagem rodou o mundo!

            O segundo ponto a se destacar foi o encontro público promovido pelo Comitê Organizador do campeonato entre as famílias dos atletas Jesse Owens e Luz Long. Naquele mesmo estádio, nas Olimpíadas de 1936, numa Alemanha dominada pelo nazismo (que tinha no racismo uma de suas bases ideológicas e que tentou colocar o mundo de joelhos), o negro americano Jesse Owens venceu o alemão, hexa campeão de salto em distância, Luz Long. A vitória, no entanto, não teria sido possível sem os conselhos técnicos que o próprio Luz Long deu ao seu rival Jesse Owens. A amizade, o companheirismo e o grande fair-play esportivo demonstrados num momento em que o racismo predominava na Alemanha são um dos marcos na história mundial dos esportes.

            No último dia 25/05, o americano, negro, George Floyd foi covardemente assassinado pelo policial branco, Derek Chauvin, na cidade de Minneapolis. Derek ajoelhou-se sobre o pescoço de George por longos 8 minutos e 46 segundos (nesse mesmo tempo, Usain Bolt seria capaz de completar os 100m rasos 54 vezes), enquanto a vítima agonizava sem ar.

            O assassinato de Floyd provocou a mais intensa onda de protestos jamais vistos desde a morte do ativista negro Martin Luther King Jr, ocorrida em 1968 e, apesar de acontecer 84 anos após as Olímpiadas de 1936, da Alemanha Nazista, o fato evidencia o longo caminho que a humanidade ainda precisa percorrer para exterminar, de uma vez por todas, o racismo e todos os movimentos ou ideologias dele derivados ou que dele sejam incentivadores.

            A última frase dita por Floyd: “I can´t breathe” (eu não posso respirar) continua a ecoar mundo afora e deixa sem fôlego todos nós, seres humanos dotados de empatia. Uma das características que nos faz diferentes dos animais é nossa capacidade de aprendizagem. Não podemos, em hipótese alguma, nos esquecer das lições ensinadas pela história. Mesmo em um dos momentos mais tristes da humanidade, como foi o nazismo, exemplos vindos do esporte encheram de esperança o mundo da época. Não podemos repetir os equívocos do passado, sob pena de perdermos as perspectivas do futuro. Se for para ficarmos de joelhos, que seja para seguirmos os exemplos de Bolt e “Berlino”. Se for para ficar sem ar, que seja de tanto repetir as lições aprendidas com os erros do passado. Uma delas, aliás, nos foi ensinada por Marthin Luther King Jr e merece, a todo momento, ser repetida: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.”.