O Brasil, as Forças Armadas e a riqueza da miscigenação do país

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Por Gustavo Daniel Coutinho Nascimento

“Somos um país com mais de 200 milhões de habitantes, cuja população contém em si própria riquezas geradas desde 1500, decorrentes da miscigenação em que as três raças se mesclaram, cada uma delas aportando características ímpares. A criatividade, a alegria de viver, a tolerância, a adaptabilidade, a resiliência, a religiosidade, o sentido de família, o patriotismo, enfim, esses e outros atributos são como uma vasta produção de frutos, à espera de serem colhidos e colocados na grande cesta da nacionalidade brasileira.” (General Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, antigo Comandante do Exército) [i]

A miscigenação é uma das características mais marcantes da sociedade brasileira e a ela intrínseca e indissociavelmente está ligada. Dos povos indígenas pré-cabralinos, passando pela colonização portuguesa, a escravidão, as invasões holandesas e francesas, chegando às imigrações do início do século XIX e XX, o povo brasileiro se tornou um amálgama indissolúvel de etnias. As Forças Armadas (FFAA), compostas por um extrato da população, homens e mulheres, são, por sua dimensão em efetivo (364.409 militares em julho de 2019, BRASIL, 2019) e por sua capilaridade em todo o território nacional, uma amostra significativa dessa miscigenação, um retrato muito verossimilhante.

Ao longo da História do Brasil, as FFAA demonstraram alto nível de comprometimento com a união de etnias, como observado ao longo das Guerras Brasílicas, nas Batalhas de Guararapes (1648 a 1649), cujo morro de mesmo nome é amplamente conhecido como o “berço da nacionalidade brasileira” e do Exército Nacional que com ela nascia. Foi nessa região que, em 1645, líderes pernambucanos assinaram o “Compromisso Imortal do Ipojuca”, selando a união de índios, negros e brancos para a expulsão dos holandeses do nordeste do país.

Fusão de raças, forte semente,
Em Guararapes pujante surgiu,
Presença nacional no continente,
É a Força Terrestre do Brasil,
É a Força Terrestre do Brasil.
 
(Refrão do Hino à Guararapes)
FIGURA 1 – União de Raças nas Guerras Brasílicas. Fonte: Victor Meirelles. “Batalha dos Guararapes”, 1879, óleo sobre tela, 494,5 x 923 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

Pouco mais de dois séculos depois, na Guerra da Tríplice Aliança (GTA – de 1864 a 1870), mais uma vez a união de etnias, pelo estamento militar, garantiu a integridade territorial e fez precipitar o fim da escravidão no Império do Brasil. Um exemplo emblemático dessa união, foi o Batalhão de Zuavos da Bahia que, além das armas, jogavam a capoeira, se tornando o embrião do Combate Corpo a Corpo[ii], atualmente ensinado nas escolas e nos quartéis das FFAA.

FIGURA 2 – Zuavo da Bahia.
Fonte: Estampas Eucalol (sabonete / pasta dental) – Série Uniformes do Brasil –Império, circulou nas décadas de 1930 e 1940.

A GTA uniu diferentes etnias nas hostes militares contra o inimigo externo comum, como, 216 anos antes, acontecera na Grande Recife.

Em 1865, durante a GTA, nascia Cândido Mariano Rondon, descendente dos índios Bororó, Terena e Guará, que mais tarde se tornaria o Marechal e, depois, Patrono da Arma de Comunicações do Exército, deixando um legado na integração nacional, na fronteira oeste brasileira e na Amazônia (DEFESA, 2017).

FIGURA 3 – Homenagem ao Marechal Rondon.
Fonte: Casa da Moeda do Brasil. Nota de 1.000 cruzeiros, circulou entre os anos 1990 e 1993.

Outro exemplo de miscigenação de etnias nas FFAA foi João Baptista de Mattos[iii], nascido no ano de 1900, neto e bisneto de escravos, cadete da Academia Militar do Realengo, em 1918, 30 anos após a Abolição da Escravatura no Brasil. Foi Oficial de Infantaria, colega de turma de Humberto de Alencar Castello Branco, Artur da Costa e Silva, Amaury Kruel, Emílio Maurell e Waldemar Levy Cardoso. João Baptista foi um afrodescendente que atingiu o último posto da Instituição – Marechal.

FIGURA 4 – Marechal João Baptista de Mattos.
Fonte: Foto disponível no Núcleo de Documentação e Memória (NUDOM) do Colégio Pedro II. Iconografia. Ex-aluno. Foto sem data (S.D.). Inscrição no verso da foto: “Marechal João Baptista de Mattos. Primeiro negro a ganhar o título de Marechal no Brasil. Neto e bisnetos de escravos”.

No ano de 1944, o Governo de Getúlio Vargas decidiu enviar 25.334 militares para apoiar os esforços aliados no combate ao nazi-fascismo. A Força Expedicionária Brasileira (FEB) é mais um exemplo da riqueza multiétnica do país. A guisa de exemplo, pela representatividade das origens, pode-se citar a naturalidade (não etnias) dos 68 sargentos mortos em campanha, de um universo total de 443 perdas humanas brasileiras:

Dentre os 68 sargentos tombados 18 eram mineiros, 16 fluminenses e cariocas e 13 paulistas respectivamente, em maioria, integrantes dos então 1º RI do Rio de Janeiro, 11° RI de São João Del Rei, e 6º RI de Caçapava-SP. Pereceram 4 cearenses e 2 gaúchos e igualmente 2 pernambucanos, 2 norte rio-grandenses, 2 alagoanos e 2 espírito-santenses. Os amazonenses, acreanos, paraibanos, sergipanos, baianos, paranaenses e mato-grossenses contribuíram cada com um sargento tombado. (BENTO, 2011).

Nesse contexto, convém registrar, uma diferença fundamental entre a FEB e as tropas norte-americanas, com as quais a Divisão Brasileira teve contato no Teatro de Operações Italiano. Havia a 92ª Divisão de Infantaria, Buffalo Soldier[iv], um grande comando operativo composto somente por negros, à exceção de seus oficiais. Em 1983, essa Divisão foi eternizada na música de Bob Marley, ficando mais conhecida pela melodia jamaicana, que pela historiografia oficial.

FIGURA 5 – 92ª Divisão de Infantaria Norte-americana, Buffalo Soldier.
Fonte: https://brooklynwargaming.files.wordpress.com/2014/02/buffalsoldierscmnd.jpg, acesso em 08 JUN 20.

A segregação era evidente não só na Divisão Búfalo, como também: no Esquadrão de Caças Tuskegee, composto de militares afro-americanos oriundos do Haiti, Trinidad e Tobago e República Dominicana; e no 442º Regimento de Infantaria, integrado pela 2ª geração de japoneses nascidos nos EUA (nisseis).

Essas três unidades tiveram participação no Teatro de Operações Italiano, no qual o Brasil também combateu.

Essa característica multirracial da FEB fica mais evidente quando se comparada, além das frações norte-americanas acima, às Unidades Inglesas, que também segregavam seus integrantes (indianos, gurkhas, árabes e judeus palestinos); e às Divisões Francesas (antigos colonizados: marroquinos, algerianos e/ou argelinos).

A única tropa multirracial e não segregada entre os Países Aliados, no Teatro de Operações Italiano, era a brasileira – a FEB, combatendo o nazi-fascismo. Na FEB, a foto do Soldado Francisco de Paula, militar negro, sorridente, prestes a carregar o obuseiro 105 mm com uma granada onde está escrito: “A Cobra está Fumando” [v] é a síntese da integração saudável entre diferentes etnias na 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.

FIGURA 6 – Soldado Francisco de Paula.
Fonte: https://olapaazul.com/tag/francisco-de-paula/, acesso em 08 JUN 20.
Há diversos exemplos de variadas etnias no seio das FFAA; são brasileiros ocupando postos e graduações, de soldado a marechal, almirante, general ou brigadeiro. Seguem alguns poucos exemplos dessa grandeza:
Entre setembro de 2004 e outubro de 2017, na Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) “o Brasil enviou cerca de 37 mil militares para a MINUSTAH, organizados em 26 contingentes em sistema de rodízio” (HAMANN e TEIXEIRA, org. 2017). Havia, além dos militares das três FFAA, policiais militares e civis brasileiros em diversos cargos da estrutura da missão.
Dentre as razões do sucesso da missão no Haiti, verificou-se:

A forte identificação étnico-social – a descendência africana do Haiti, com a consequente origem comum escravocrata do povo haitiano e do soldado brasileiro, além da extrema pobreza daquele povo, possuem semelhanças em algumas regiões do nosso país, e o nosso soldado percebe isso. (HAMANN e TEIXEIRA, org. 2017, p. 61).

Entre 2007 e 2015, o Comandante da Aeronáutica era um descendente de japonês nascidos fora do Japão – Nikkei (DEFESA, 2008).
FIGURA 7 – Brigadeiro Juniti Saito.
Fonte: Aerovisão – A Revista da Força Aérea Brasileira, Nr 222, o Voo dos Nikkeis, JUN/JUL/AGO 2008.
Em 2011, a Fundação Cultural Palmares, homenageou o então Secretário-geral da Marinha, um militar negro (PALMARES, 2011).
A partir de fevereiro de 2018, para enfatizar ainda mais toda essa naturalidade com que o Brasil e suas FFAA assimilaram (e assimilam) em seu seio as mais variadas origens étnicas e culturais, verifica-se o caso da Operação Acolhida. Mais de 264 mil venezuelanos receberam atenção inicial básica na fronteira e foram internalizados no território brasileiro, incorporando-se social e economicamente à sociedade nacional[vi].
Desde janeiro de 2019, na atual estrutura do Ministério da Defesa, a Chefia do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (CEMCFA) é ocupada por um oficial-general, o primeiro da Força Aérea Brasileira (FAB) a ocupar tal cargo, possuindo ancestrais africanos, como o Marechal João Baptista de Mattos e o Soldado Francisco de Paula.
FIGURA 8 – Campanha do Ministério da Defesa pelo Alistamento Militar 2020
Fonte: https://www.defesanet.com.br/defesa/noticia/35454/Jovens-que-vao-completar-18-anos-em-2020-devem-fazer-o-alistamento-militar-ate-30-de-junho/, acesso em 08 JUN 20.
Há, ainda, exemplos de descendentes de alemães, italianos, judeus, árabes, sírios, e tantos outros que compõem a miscigenação da Nação Brasileira.
O General Carlos Meira Mattos, um dos maiores geopolíticos brasileiros e que empresta seu nome ao Instituto que conduz o Programa de Pós-graduação da ECEME, registrou em sua obra “Geopolítica e Trópicos” (1984):

“O homem brasílico moderno vem sendo observado atentamente por estudiosos de todo o mundo porque está construindo uma obra de civilização, embora ostente duas características que foram estigmatizadas pelos cientistas europeus e anglo-saxões – ser produto da miscigenação do branco, índio e negro e habitar um território maioritariamente tropical (…) este homem brasílico vem revelando um desempenho eficaz, na luta pelo desenvolvimento de seu enorme país (no passado foi capaz de uma obra espantosa de autocolonização); quando experimentado numa guerra de grandes, na II Guerra Mundial, teve igualmente um comportamento como combatente que em nada ficou devendo aos seus aliados europeus, norte-americanos, ingleses ou franceses, ou ao seu inimigo alemão[vii]”.

Um ano depois, o Coronel Tiago Castro de Castro, autor do Livro Método[viii] – largamente utilizado pelos Oficiais brasileiros, ao estudar os Campos do Poder Nacional, reflete, com questões, acerca da Expressão Psicossocial das Nações (no item das nacionalidades, raças e etnias componentes):

“As minorias raciais foram absorvidas ou discriminadas? Ações de limpeza étnica? Há raça dominante? O preconceito e a discriminação raciais geram ressentimentos internos, obstam a integração das raças e dificultam a miscigenação e a aculturação, impedindo a homogeneização da população e a coesão interna? A existência de agrupamentos raciais na área cria problemas internos? Tendências políticas dos núcleos estrangeiros e dos quistos raciais? Problemas decorrentes da discriminação? Legislação a respeito?” 

A resposta conclusiva a essas perguntas, segundo o método do coronel professor, poderia ser: favorece ou desfavorece a Unidade Nacional, revelando o peso da questão étnica / para fortalecer o país como um todo.
A partir das observações acima e dos exemplos de variadas etnias ocupando posição de destaque das FFAA, ratifica-se a riqueza brasileira e faz-se coro ao pensamento do General Villas Bôas:
“Somos, talvez, o único país com capacidade de inaugurar um novo caminho de desenvolvimento, a partir das qualidades de nossa gente, assinaladas no início dessas palavras.”
A valorização dessa miscigenação, dessa mistura de raças, é uma das potencialidades do povo brasileiro. Essa força deve servir para pavimentar esse “novo caminho de desenvolvimento”.
Referências
BRASIL. Ministério da Defesa. Memento Edição Nr 85. Brasília: Departamento de Organização e Legislação, Dez 2019, pág. 25 – “2.6.1 – Série Histórica da Folha de Pagamento dos Militares”.
BENTO, Cláudio Moreira. Os 68 Sargentos da FEB mortos em Operações de Guerra. Edição da Federação de Academias de História Militar Terrestre do Brasil (FAHIMTB). Resende-RJ. 2011.
DEFESA. Ministério da. Exército Brasileiro. Exército e seus brasileiros de etnia indígena. Disponível em <https://www.eb.mil.br/web/noticias/noticiario-do-exercito/-/asset_publisher/MjaG93KcunQI/content/exercito-e-seus-brasileiros-de-etnia-indigena>, Publicado em: 09 AGO 17, acesso em 15 JUL 20, às 0200 h.
DEFESA. Ministério da. Força Aérea Brasileira. Comandante da Aeronáutica ministra palestra para empresários japoneses em SP. Disponível em < https://www.fab.mil.br/noticias/imprime/1147/ > Publicado: 19 AGO 08, acesso em 15 JUL 20, às 0200 h.
___________________________________________ Tenente-Brigadeiro Botelho é o primeiro integrante da FAB a assumir o EMCFA. Disponível em <https://www.fab.mil.br/noticias/mostra/33427/TRANSMISS%C3%83O%20DE%20CARGO%20-%20Tenente-Brigadeiro%20Botelho%20%C3%A9%20o%20primeiro%20integrante%20da%20FAB%20a%20assumir%20o%20EMCFA> Publicado: 15 JAN 19, acesso em 17 JUL 20, às 1000 h.
HAMANN, Eduarda Passarelli. TEIXEIRA, Carlos Augusto Ramires. (Org) A participação do Brasil na MINUSTAH (2004-2017): percepções, lições e práticas relevantes para futuras missões. Edição especial – Coletânea de artigos. Rio de Janeiro. Instituto Igarapé (a think and do tank). CCOPAB – Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil. OUT 17.
PALMARES. Fundação Cultural. Entrega do Troféu Raça Negra em noite de gala. Disponível em < http://www.palmares.gov.br/?p=15844 > Publicado: 16 NOV 2011, acesso em 15 JUL 20, às 0200 h.
ROCHA, William. ROCHA, William Simão. Hino à Guararapes. Portaria Nº 004-SGEx, de 06 de fevereiro de 2001, publicada no Boletim do Exército Nº 06/2001, de 09 de fevereiro de 2001.
[i] Carecemos de um projeto nacional. O Estado de São Paulo, 10 JUL 20, disponível em <https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,carecemos-de-um-projeto-nacional,70003359516> acesso em 14 JUL 2020.
[iv] Essa denominação remonta às Unidades de Cavalaria, logo após a Guerra de Secessão, que foram empregadas na Marcha para o Oeste e no combate aos índios que resistiam à ocupação do homem branco.
[vi] Operação Acolhida, Histórico, disponível em <https://www.gov.br/acolhida/historico/>, acesso em 14 JUL 2020.
[vii] Geopolítica e Trópicos. 1ª Edição. Rio de Janeiro. BIBLIEx. 1984, p. 121.

[viii] Método de preparação e abordagem de temas e questões discursivas de História, Geografia e Geoestratégia. 2ª Edição. Rio de Janeiro. BIBLIEx. 2010. p. 53. A 1ª edição é de 1985.

Gustavo Daniel Coutinho Nascimento é Militar do Exército Brasileiro, atualmente mestrando em Ciências Militares (http://lattes.cnpq.br/7558436102907731). O autor agradece as orientações seguras e oportunas do professor Hélio Caetano Farias e do Coronel Ariel Martim de Oliveira e Silva Junior.
Original disponível em: Diálogos Internacionais UFRJ


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