O Brasil e seus desafios

Diante do atual quadro do país, muitos brasileiros devem ter se perguntado esta questão: o Brasil conseguirá superar os seus desafios? Com a complexidade do mundo contemporâneo, a velocidade das informações, o poder exercido pelas redes sociais e a propagação das Fake News, responder esse questionamento não é simples.

Para isso, este artigo revisita o papel exercido pela geopolítica ao longo da história brasileira, analisando-a desde sua origem até os dias atuais. A geopolítica brasileira nasceu em meados do século XIX, na Escola Militar da Praia Vermelha.

O positivismo propagado por Benjamin Constant rapidamente encontrou adesão na intelectualidade brasileira, colocando a Escola como protagonista no pensamento nacional. Não pelo acaso, sob a liderança do Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, os brasileiros presenciaram, em 1889, o nascimento da República brasileira.

Entretanto, o novo status político não foi capaz de imunizar a jovem República. Episódios como a Guerra de Canudos e a Revolução Federalista descortinaram um cenário interno deveras instável, ameaçando a integridade territorial brasileira.

Imersa nesse ambiente, a geopolítica brasileira não ficou imune ao que estava ocorrendo. Contribuiu com a resolução dessas crises, elaborando conceitos para que o Brasil obtivesse a efetiva integração nacional, que até então era considerada incipiente.

Dispostos a alcançar a concreta soberania em seu território, sucessivos governos apoiaram-se nessas ideias e implementaram diversas ações estratégicas durante a primeira metade do século XX para integrar o espaço brasileiro.

Não pelo acaso, dois brasileiros lideraram o processo de integração nacional. No plano externo, o Barão do Rio Branco envidou esforços diplomáticos para demarcar e legitimar as fronteiras do País junto ao Sistema Internacional.

No plano interno, o Marechal Rondon literalmente costurou o perímetro brasileiro, desbravando os recantos mais isolados do território nacional, integrando-os aos principais centros do País.

A eclosão da 2ª Guerra Mundial e a presença brasileira nesse conflito foram determinantes para os desígnios do Brasil na segunda metade do século XX. Conhecido como Guerra Fria, o conflito ideológico travado por norte-americanos e soviéticos gerou reflexos no Brasil, colocando em xeque a jovem democracia brasileira.

Não por mera consequência, o País assistiu ao protagonismo de ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira no cenário nacional.

No pensamento geopolítico, o destaque ficou por conta do General Meira Mattos, que publicou valiosas obras geopolíticas e é considerado, por muitos, o maior geopolítico brasileiro de todos os tempos.

Na esfera pública, a proeminência pairou sobre o Marechal Castello Branco, presidente do Brasil entre 1964 e 1967, que em meio à efervescência da Guerra Fria, tornou-se um dos responsáveis pela manutenção do regime democrático no País.

A queda do muro de Berlim e a consequente globalização marcaram o tom no final do século XX. Com território consolidado e conflito ideológico aparentemente resolvido, restou ao Brasil assumir o papel que lhe era por vocação: ser uma potência mundial.

Com isso, a geopolítica brasileira produziu conceitos que buscavam atingir dois objetivos: consolidar a posição do Brasil como líder regional e alçar seu status como potência global.

No tocante à liderança regional, essa ficou materializada pela inserção da África, do Atlântico Sul e da América do Sul nos principais documentos de defesa: Política Nacional de Defesa (PND), Estratégia Nacional de Defesa (END) e Livro Branco de Defesa nacional (LBDN).

No que se refere à potência global, esse objetivo foi traduzido nos esforços realizados pelo governo brasileiro para ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, justificados em grande parte pela crescente e destacada participação brasileira nas operações de paz da ONU.

O alvorecer do século XXI mostrou-se promissor para o Brasil. A descoberta de grandes reservas de petróleo na camada de pré-sal brasileira, a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de futebol em 2014 e da cidade do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas em 2016, foram alguns fatos que impulsionaram o boom econômico brasileiro, fazendo transparecer que o Brasil caminhava a passos largos para se tornar um player global.

No entanto, um fato ocorrido em 2010 iria mudar os ditames do Brasil: a Primavera Árabe. Mais que um fenômeno geopolítico regional, o movimento apresentou ao mundo o poder das mídias sociais.

Com o mundo altamente interconectado, os reflexos desse fenômeno puderam ser percebidos em terras brasileiras, local onde encontrou um ambiente propício para a sua propagação.

O que se viu, desde então, foi uma onda de acontecimentos de natureza político-social que, impulsionada pelas redes sociais, erodiu a aparente estabilidade político-econômica brasileira: movimento dos Black Blocs em 2013, impeachment em 2016, prisão de ex-presidente em 2018 e eleições em 2018, com a renovação dos quadros políticos.

Mas, o Brasil conseguirá superar seus obstáculos?

Com inúmeros desafios pela frente, como a realização da Reforma da Previdência e da Reforma Trabalhista, entende-se que tão ou até mais importante do que essas reformas, é a reintegração da sociedade brasileira.

Sem um projeto de Nação definido, somente pelo acaso o Brasil logrará êxito: pensar estrategicamente esse gigante é condição sine qua non para que a resposta seja positiva.

Se a nossa geração se orgulha em proclamar em alto e bom som que habita em um país continente e com várias idiossincrasias, muito se deve à centenária relação de sucesso entre geopolítica e políticas públicas adotadas que, em conjunto, superaram desafios de toda ordem ao longo da história brasileira.

Mas, se existe algo que a nossa geração pode fazer em prol das gerações futuras é pensar estrategicamente o Brasil, gerando contribuições verde-amarelas voltadas para restabelecer a coesão social brasileira, fortemente afetada pelos embates deflagrados nas mídias sociais, lebensraum dos dias atuais.

  • Fonte: E-Blog
  • Nota da Redação: O presente artigo é de autor20ia do Srº Anselmo de Oliveira Rodrigues, que é tenente-coronel da arma de Infantaria, formado pela AMAN – 1998; Curso Básico Pára-quedista – 2002; Curso de Mestre de Salto – 2003; Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais na EsAO – 2006; Curso de Comando e Estado-Maior na ECEME – 2014/2015; Doutorado em Ciências Militares – 2019; Instrutor do Instituto Meira Mattos, da ECEME; Pesquisador do Laboratório de Estudos de Defesa (LED/ECEME); e Atualmente realiza o Curso de Segurança e Defesa na Academia Nacional de Estudos Políticos e Estratégicos do Chile.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Enter the text from the image below