O Brasil na era dos blindados: Renault FT-17 no Exército Brasileiro 1921/1942

A produção do FT-17 atingiu a marca de 4.000 unidades, sendo 3.200 até o fim da Primeira Guerra Mundial

blank
Renault FT-17 preservado no Centro de Instrução de Blindados.

O carro de combate (CC) surgiu durante a Primeira Guerra Mundial (194-1918) na Inglaterra, e acabou sendo desenvolvido em diversos países ao longo daquele conflito. A França, em particular, projetou e fabricou um CC leve, moderno para os padrões da época.

Seu projeto, influenciado por Louis Renault e sua equipe, fez surgir uma extraordinária e pequena máquina que foi estudada, fabricada em série e posta em serviço com uma incrível rapidez.

O Renault FT-17 foi revolucionário na sua época, pois possuía uma torre com giro de 360o, e um canhão Puteaux de 37 mm ou metralhadora Hotchkiss de 8mm.

Tinha uma arquitetura de construção simples: motor na parte traseira, torre no centro do veículo e sistema de direção à frente; Sua fabricação seguiu as mesmas técnicas de produção em série, como se fosse uma linha de produção de automóveis; e por fim foi projetado para possuir uma família sobre o mesmo  chassis.

blankA produção do FT-17 atingiu a marca de 4.000 unidades, sendo 3.200 até o fim da Primeira Guerra Mundial, onde o CC teve várias versões como: TSF (Telegrafia sem fio), projetor, tracionador de Balão (para observação), transportador de ponte, fumígeno, e lança-chamas.

O início da história dos Blindados no Brasil

Na  Primeira  Guerra Mundial, o Exército Brasileiro (EB)  enviou  para  a  França  o Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, onde iniciou os estudos de motorização e mecanização na Escola de Carros de Combate de Versalhes e, posteriormente, serviu no 503° Regimento de Artilharia de Carros de Assalto, em 1919, onde teve a oportunidade de conhecer os CC’s Renault FT-17.

Ao retornar ao Brasil, influenciou o EB na aquisição de CC’s, tendo sido escolhido o modelo Renault FT-17, muito embora ele próprio achasse que não era o modelo ideal de carro-de-combate para equipar nossa força blindada.

Escreveu um livro sobre o desenvolvimento e emprego da arma blindada no teatro de operações europeu, durante a Primeira Guerra Mundial, intitulado Os Tanks na Guerra Europeia, publicado em 1921, no Rio de Janeiro, sendo esta a primeira obra sobre o tema na América Latina.

blankA compra de CC’s se deu antes da chegada de uma Missão Militar de Instrução, pois, após a Primeira Guerra Mundial, o EB contratou uma Missão Militar Francesa para auxiliar na modernização e reestruturação de nosso Exército.

Em 1920, chegam ao Brasil 12 CC’s Renault FT-17, novos, oriundos da fábrica Delaunay- Belleville, na França, sendo seis com torre fundida (Berliet) e  armados  com  Puteaux de 37mm, cinco com torre octogonal rebitada (Renault), armados com metralhadoras Hotchkiss de calibre 7mm , e um  modelo TSF desprovido de torre giratória como os demais para comunicação com os escalões superiores.

Surge a Primeira Companhia de Carros de Assalto

A Companhia de Carros de Assalto (CCA) foi criada pelo Decreto 15.235, de 31 de dezembro  de 1921, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, tornando-se, desta forma, o Brasil pioneiro da arma blindada na América do Sul, muito embora ela já se encontrasse operacional mesmo antes da sua formalização.

É curioso ressaltar que estes  CC’s foram entregues ao Chefe da Missão Militar Brasileira em  Paris,  em  maio de 1919, e chegaram ao Brasil no início de 1920, sendo depositados no 1° Regimento de Infantaria, no Rio de Janeiro, e lá ficaram até 28 de setembro de 1921.

blankOs blindados foram entregues ao então Capitão José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, encarregado de organizar a CCA, conforme  Boletim  n°  223 de 1°-10- 1921,  só que mesmo sendo novidades, não tiveram um boa aceitação entre os militares mais antigos.

Ao que tudo indica o nascimento da arma blindada no Brasil começou de uma forma pouco convencional. Vale ressaltar que esta Companhia era considerada tropa independente, adida à 1º Divisão de Infantaria, e o ingresso nela era aberto aos oficiais de todas as armas.

Empregos Operacionais Manobras e Conflitos

Em 3 de novembro de 1921, ocorreu o primeiro exercício de CC’s em conjunto com a aviação militar no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, na colina boscosa, na Vila Militar. Sua primeira aparição pública se deu em 25 de agosto de 1922, quando toda a Companhia se apresentou no Campo de São Cristóvão, Rio de Janeiro.

O primeiro emprego operacional no país ocorreu durante a Revolução de 1924, quando esta Companhia foi destacada para ocupar a cidade de São Paulo  após  a retirada das forças rebeldes daquela cidade e, onde foram utilizados seis Renault FT-17 operacionais naquele momento.

blankO Decreto n° 20.986, de 21 de janeiro de 1932, extinguiu  a  Companhia  de  Carros de Combate; eles não haviam conseguido motivar nossa oficialidade e, devido ao precário estado em que se encontravam, foram  transferidos para o Batalhão Escola de Infantaria.

Meses mais tarde, os remanescentes da então CCA foram empregados operacionalmente em virtude da eclosão da Revolução Constitucionalista levada a cabo por São Paulo em 9 de julho.

Estes veículos, provavelmente meia dúzia deles, foram empregados separadamente ou em duplas, em alguns setores onde ocorreram combates entre tropas rebeldes e legalistas, sendo usados para manter pontes, atacar ninhos de metralhadoras e em locais montanhosos, como a divisa de Minas Gerais com São Paulo, não apropriados para seu uso e desta forma não foram decisivos como instrumento para definir a superioridade e até mesmo garantir a vitória das forças legalistas naquele conflito.

blankEm 1935, pelo Aviso n° 248, de 22 de abril, é criada a Seção de Carros de Combate no Batalhão de Guardas, que aproveita os CC’s existentes no Batalhão Escola de Infantaria. Também foi criada a Seção de Motomecanização no Estado-Maior do Exército, por influência direta do chefe da Missão Militar Francesa, General Paul Noel, o  que  sem  dúvida foi um grande avanço.

Conclusão

A CCA foi uma tentativa isolada do Capitão José Pessoa, caindo no abandono, não tendo continuidade, mas a iniciativa foi pioneira. As motivações contrárias à sua sobrevivência serviram de alerta e seriam habilmente contornadas em nova oportunidade.

Em 1938, o General Waldomiro Castilho de Lima, depois de ter observado o desenvolvimento das operações de guerra realizadas pelos italianos na Abissínia, decidiu substituir os velhos CC’s Renault FT-17, já obsoletos, por modernos carros de combate Fiat-Ansalto CV-3/35 II que vinham de operar, com relativo sucesso, no terreno montanhoso em que se desenvolveu a Guerra Civil Espanhola e nas terras áridas da Etiópia.

As ideias do Capitão José Pessoa foram retomadas por um outro capitão que iria conseguir implantar definitivamente a arma blindada no Brasil. Trata-se do Capitão Carlos  Flores de Paiva Chaves, e, em 25 de maio de 1938, pelo aviso nª 400, é criado o Esquadrão de Auto Metralhadoras do Centro de Instrução de Motorização e Mecanização, no Rio de Janeiro.

Novos CC’s adquiridos na Itália, são agregados aos últimos cinco Renault FT-17 da Seção de Carros de Combate do Batalhão de Guardas, que passa a denominar-se Pelotão de Carros de Combate do Centro de Instrução de Motorização e Mecanização.

Durante a Segunda Guerra Mundial, após o Brasil passar a receber modernos CC’s dos Estados Unidos para modernizar suas unidades recém criadas, o Decreto-Lei Reservado n.ª 4.130, de 26 de fevereiro de 1942, transformou o Pelotão de Carros de Combate do Centro de Instrução de Motorização e Mecanização na Companhia Escola de Carros de Combate, encerrando, de vez, o uso dos Renault FT-17 e substituindo-os por carros-de-combate médio Sherman M-4 e M-4A1.

  • O autor do presente artigo, Sr° Expedito Carlos Stephani Bastos, é coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora. Pesquisador de Assuntos Militares do Centro de Pesquisas Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora. Curador do Museu Militar Conde de Linhares, na parte de blindados e veículos militares, no Rio de Janeiro. [email protected]