O dia em que os cariocas ocuparam as ruas para ver a chegada do dirigível Graf Zeppelin, há 90 anos

O Graf Zeppelin sobrevoando a orla do Flamengo, em 25 de maio de 1930 | Foto de arquivo

Havia uma multidão espalhada por toda a orla de Copacabana naquela manhã de domingo. Muita gente havia passado a noite em vigília. Não apenas lá, mas em várias partes do Rio, como no Centro, no Flamengo e em Santa Teresa, era enorme a expectativa para ver a chegada do famoso dirigível Graf Zeppelin LZ 127, que saiu da Alemanha em 18 de maio de 1930, fez uma escala em Recife, no dia 22, e partiu para o Rio, chegando à Cidade Maravilhosa em 25 de maio. Noventa anos após o acontecimento que levou à criação do primeiro voo comercial entre Europa e Brasil, o Blog do Acervo refaz a crônica daquele dia. O carioca parou tudo para observar a passagem da estranha aeronave de 240 metros de comprimento que, apesar de gerar encantamento, não cruzou os céus por muito tempo. Em 1937, os dirigíveis saíram de cena após uma tragédia que deixou 50 mortos em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

Contruído pela empresa de Ferdinand Von Zeppelin, o balão de superfície rígida se deslocava a 110km/h, levando até 25 passageiros e 40 tripulantes. A estrutura se baseava numa carcaça de alumínio, revestida por uma tela recoberta por lona de algodão. Dentro, havia 60 balões inflados com gás hidrogênio, com cinco motores de 12 cilindros. Na área dos passageiros, havia suítes, salas de estar e de jantar. Um hotel “flutuante” que, em agosto de 1929, completou um voo ao redor do mundo em 21 dias. Para atracar esse mastodonte em terra firme, eram necessários até 150 funcionários. A tripulação no alto lançava cordas ao chão, dando início a uma sequência de amarrações e escaladas nos cabos, o que rendeu àqueles homens o apelido sagaz de “aranhas”. A cidade de Recife preserva até hoje a Torre do Zeppelin, usada para atracar o dirigível em 1930 e nos voos que aconteceram entre 1933 e 1937.

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O Graf Zeppelin parado no Campo dos Afonsos, em 25 de maio de 1930 | Foto de arquivo

A aeronave levou menos de quatro dias para percorrer os cerca de 7,7 mil quilômetros de Oceano Atlântico entre Friedrichshafen, no Sul da Alemanha, e Pernambuco. Foi recebida  com festa no Nordeste, o que aumentou a expectativa no Rio. Dias depois, como ninguém conseguiu confirmar o horário exato da chegada do Zeppelin na cidade que, na época, era a  capital do Brasil, os cariocas foram para as ruas ainda na noite de sábado, 24 de maio. Não
queriam perder o sobrevoo do dirigível por nada. Muita gente passou a noite em animada vigília, até que, à luz do amanhecer, por volta de 6h30, o titanic voador surgiu em marcha vagarosa sobre a Baía de Guanabara. A multidão explodiu em urros e aplausos, festejando diante da novidade. Depois de dar o ar da graça na orla da Zona Sul, a aeronave embicou na direção do Centro e partiu em linha reta ao Campo dos Afonsos, onde atracaria.

O Zeppelin chegaria ao Rio no sábado, mas o comandante Hugo Eckener recebeu aviso de que o paulista Júlio Prestes, então recém-eleito presidente do Brasil pelo Congresso, estava a bordo do navio Almirante Jaceguay, rumo aos Estados Unidos. Num gesto de diplomacia, o alemão desviou o curso para sobrevoar a flotilha que seguia o político, para só depois retomar seu trajeto rumo à capital federal.

O domingo mal tinha amanhecido quando uma multidão já se dirigia, a pé, de carro ou ônibus, para o Campo dos Afonsos, na Zona Oeste, local escolhido para receber a aeronave. Eram milhares querendo ver a chegada. O espaço local foi dividido entre geraldinos, que não tinham convite para o evento; as cadeiras de segunda classe, onde ficaram os jornalistas; e a primeira classe, com oficiais do exército e outras autoridades. Cerca de 2 mil soldados faziam a demarcação entre as classes. “Praças de cavalaria galopavam, correndo na penumbra da manhã indecisa, transmittindo ordens e dando caça impiedosa aos que tentavam melhorar de classe”, descreve a crônica do GLOBO na edição do dia 26 de maio de 1930. De acordo com o jornal, a cena era digna de um quadro do francês Édouard Detaille, o pintor por retratar cenas de grandes batalhas militares.

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Primeira página do GLOBO de 26 de maio de 1930 | Acervo O GLOBO

“É ele! É ele!”, gritou alguém em meio à multidão no Campo dos Afonsos, quando o balão surgiu no horizonte, cessando as conversas e fazendo toda aquela gente se voltar para o céu e seguir com os olhos o gigante que refletia a luz fina da manhã de outono carioca. Quando a sombra do dirigível começou a tomar conta do local, teve início a agitaçao dos “aranhas”. Às 7h20, a tripulação lá do alto jogou o primeiro cabo para a atracação. Depois outro e muitos outros. Foram quase 90 minutos de trabalho até que a aeronave finalmente tocasse o chão, para delírio da plateia. A tripulação e os passageiros desciam enquanto centenas de pessoas se mexiam para tentar conhecer o interior do Zeppelin. A começar pelos funcionários da alfândega, que foram ao Campo dos Afonsos apenas para fiscalizar a chegada. O capitão Eckener, bem-humorado, chegou a perguntar se eles encontraram algum contrabando.

Entre as personalidades presentes, estava o então prefeito do Distrito Federal, Antonio da Silva Prado Júnior, que por pouco não teve seus assistentes barrados por um alemão com cara de poucos amigos que controlava o acesso ao interior da aeronave. Os jornalistas, impedidos de entrar, ficaram revoltados. Restou a eles entrevistar passageiros como o engenheiro e escritor Vicente Licínio Cardoso, que, apressado para rever sua família, disse apenas que a viagem “foi maravilhosa”. A equipe do GLOBO que cercava a movimentação também ouviu dois gaiatos conversando enquanto olhanvam admirados para o dirigível. Um deles viu o código LZ 127 em grandes letras na aeronave e perguntou o que queria dizer aquela sequência. “O comandante mandou pintar quando chegou a Pernambuco. É um palpite para o jogo do bicho”, respondeu o outro, antes de a dupla cair na gargalhada.

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Foto que estampou a capa do GLOBO mostra dirigível sobrevoando o Centro do Rio | Foto de arquivo

Menos de duas horas depois de chegar, o Zeppelin começou a preparar sua partida rumo aos Estados Unidos. Quando se livrou das amarras, partiu deixando um entusiasmo que levou o Brasil a estabelecer, com os alemães, uma linha regular entre Frankfurt e Rio, com a mesma escala em Recife. Uma área em Santa Cruz, na Zona Oeste, foi escolhida como terminal para os voos. O aeródromo Bartolomeu de Gusmão foi inaugurado em dezembro de 1936, com 58 metros de altura, com direito a uma linha de trem para o Centro. Mas o local funcionou por pouco tempo. Em 6 de maio de 1936, o LZ 129 Hindenburg explodiu quando estava perto de atracar em Nova Jersey, nos Estados Unidos. O acidente matou 36 pessoas, entre passageiros e tripulantes. Foi a primeira tragédia daquele tamanho assistida por um número grande de pessoas, dando fim à era dos dirigíveis na aviação comercial.

Em 12 de fevereiro de 1942, seis meses antes de o Brasil declarar guerra aos países do Eixo, o aeroporto foi transformado na Base Aérea de Santa Cruz, ainda hoje uma das mais importantes da Força Aérea Brasileira (FAB).

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O hangar construído para receber os dirigíveis, em Santa Cruz | Foto de divulgação

Fonte: Arquivo Jornal O Globo





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