O Impacto Do Acordo Abraão Sobre O Oriente-Médio

Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, President Donald Trump, Ministro das Relações Exteriores do Bahrein, Khalid bin Ahmed Al Khalifa, e Ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed al-Nahyan em Washington. (AP Photo/Alex Brandon)

Após o fim do domínio britânico sobre a Palestina, a guerra árabe-israelense se tornou presente em 1948, o ambiente no oriente-médio se tornou ainda mais instável, as disputas por territórios e vias logísticas foram largamente postas em guerra, e a saída para atenuar e encerrar as “tradições conflituosas” não seria fácil, também não seria possível em sua totalidade, haja vista o grande número de nações árabes que se voltaram contra o estado de Israel e o ocidente movido pela locomotiva EUA.

Guerra dos Seis Dias de 1967.

Assim, anos de conflitos se sucederam em escalada de tensão sem precedente, mecanismos de danos geopolíticos, diplomáticos e físicos foram elaborados e colocados em práticas com agentes infiltrados, tudo pelo interesse de cada nação.

Entretanto, a primeira nação árabe a estreitar laços, reconhecer Israel como um estado soberano e a se interessar em tornar o oriente-médio moderno e pacífico foi o Egito. Em 1979, o governo israelense de Menachem Begin assinou um grande acordo de paz com o Egito que tratava do reconhecimento mútuo, a cessação do estado de guerra que existia desde a guerra árabe-israelense, a normalização das relações diplomáticas, bem como a retirada completa das tropas militares e civis israelenses de toda região da Península do Sinai que Israel havia capturado durante a Guerra dos Seis Dias em 1967, já nas “cláusulas” contratuais do tratado na parte dos egípcios, a responsabilidade permeava a desmilitarização de todo o leste do Egito.

No artigo de minha autoria publicado na Revista Digital Área Militar de Setembro, “Entenda O Acordo Israel-Emirados Árabes Unidos: Efeito Dominó”, mostra o acordo de 1979 um sublime passo de pacificação diplomática e militar que submeteu as peças-Estados no Oriente-médio em um irreversível efeito dominó sobre a região intensamente disputada.

Protestos palestinos contra blindados israelenses na West Bank, 24 de setembro de 2003. SAIF DAHLAH/AFP/Getty Images

Muitos movimentos de descontentamento surgiram, algumas nações e povos, destaque para a Palestina ou Cisjordânia, interpretaram o feito como traição aos costumes e ordens dos povos árabes, mas insuficientes para impedir um novo acordo de Israel, agora com a Jordânia em 1994, 15 anos depois do acordo com o Egito, selando definitivamente as hostilidades por territórios e águas entre nações e sinal verde ao progresso comum entre esses povos em direção à paz.

É inegável que as peças ainda estão em queda, vislumbram o futuro promissor de paz e riqueza, é claro, sempre buscando o interesse próprio. O dia 15 de setembro entrou para a história da humanidade com o anúncio e assinatura do maior acordo já realizado entre nações até então consideradas inimigas mortais, a oficialização da cooperação de paz entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, intermediado pelos EUA na figura do presidente Donald Trump, cogitado para ser o próximo ganhador do Prêmio Nobel da Paz.

Analisando de fato o Tratado, os Emirados e Bahrein, na presença dos ministros das relações exteriores, Abdullah bin Zayed e Abdullatif Al Zayan, respectivamente, submeteram o histórico conturbado do passado na fogueira, passaram a escrever uma nova página conhecida como Tratado de Abraão, um realinhamento estratégico das nações árabes do Golfo Pérsico com Israel com vistas em enfraquecer e estagnar o Irã, e sem uma resolução do conflito de décadas dos palestinos que condenaram os acordos.

Acordo de Abraão. Chris Kleponis / Pool via CNP

A cerimônia de oficialização ocorreu na Casa Branca, seguindo a tradição de 1979 e 1994, com um forte pronunciamento de Trump em meio a todos e a tudo: “O povo do Oriente Médio não permitirá mais que o ódio a Israel seja fomentado como desculpa para o radicalismo ou extremismo […] E eles não vão mais permitir que o grande destino de sua região seja negado”.

O Impacto do acordo Israel-Emirados-Bahrein sobre o Oriente-médio, que ficou conhecido como Abraão, terá grandes denotações militares e geopolíticas sobre a nova conformação de relações diplomáticas em toda a região.

Íntegra do documento de Abraão assinado pelas autoridades na última terça-feira, 15 de setembro.

Na verdade, o Tratado de Abraão é um conjunto de dois acordos assinados separadamente por Israel com os Estados do Golfo e unificados pelos EUA que o consideraram uma Declaração de paz. Unir Israel, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein é o grande passo dos americanos em tornar sua intervenção direta no Golfo Pérsico menos promissora, ao passo que Trump vem desmantelando a presença de suas tropas no Iraque e no Afeganistão, possivelmente decorrente dos planos em transferi-las às unidades mais próximas do Irã, que criticou fielmente os acordos.

Só no ano passado, com os ataques a dois petroleiros no Golfo de Omã, os EUA enviaram 1.000 tropas adicionais para abordar ameaças aéreas, navais e terrestres decorrentes de Teerã, após solicitação imediata e urgente do Comando Central Americano.

Guerra do Golfo de 1991.

Ao analisar friamente o histórico de intervenções americanas, desde 1991, os EUA estiveram envolvidos em 12 guerras diretas, sem contar os conflitos financiados como manutenção da paz e combate a insurgências e comércio ilegal, atividades que culminaram em gastos que ultrapassam a soma dos investimentos em defesa de todas as potências juntas.

Deste Tratado Abraão, o impacto sobre o Oriente-médio será visível, os americanos reduzirão seus gastos diretos, investirão grande parte do financiamento em gastos externos com mantenedores de treinamento e de paz, passarão a exportar muito mais equipamentos bélicos em escala sensível, desde caça tático, com o F-35 aos Emirados Árabes Unidos, que há tempo desdenham do equipamento, a sistemas de defesa contra mísseis balísticos e convencionais operados pelo Irã, que desenvolve somas vultosas de urânio enriquecido a 4,5% em áreas negadas pelo governo, e pelo fato do seu envolvimento em guerras por procuração na Síria ao Iêmen, onde os Emirados têm sido um dos principais membros da coalizão saudita.

Uma das centrífugas de Natanz produtoras de urânios enriquecidos até 4,5% em 5 de Novembro de 2019. AP

Do outro lado, Israel contará com os Emirados e Bahrein no possível bloqueio às embarcações comerciais e militares do Irã nas passagens conturbadas do Golfo Pérsico, Estreito de Ormuz e Golfo de Omã, feito que deteriorará as principais exportações de petróleo bruto, em torno de US$ 43 bilhões, polímeros de etileno, US$ 2,66 bilhões, ferro semiacabado, US$ 1,65 bilhões e entre outros produtos, sustando, mesmo que não definitivamente, o investimento em treinamento e equipamento bélico ao principal grupo em ascensão contra Israel em solo Sírio e Libanês, o Hezbollah, que intensificou suas operações nas Colinas de Golã, onde mais da metade da área ocidental é ocupada pelos israelenses após a Guerra dos Seis Dias com a Síria.

As conversações entre as nações árabes e a nação judia percorreram longas semanas até a promulgação de Abraão. Apesar dos palestinos negarem participar do acordo, já que trabalham para criar um estado independente na Cisjordânia ocupada, Gaza e Jerusalém Oriental, segundo os Emires, o apoio ao povo palestino seguirá sendo a questão-chave da geopolítica dos Emirados.

Um F-35 sendo reabastecido por um KC-130 stratotanker. US Air Force

É sabido que a Força Aérea Americana implantou um esquadrão de F-35 em uma base aérea em Abu Dhabi, e a Quinta Frota e o Comando Central da Marinha no Bahrein, são laços recíprocos de hospedagem e defesa que fortaleceram o diálogo na região.

Na imagem observamos um Patriot de fabricação americana, à direita, e o sistema Iron Dome israelense, à esquerda. IDF

Contudo, o acordo de cooperação de paz e estratégia bélica nas bordas principais do Oriente-médio cercará a nação iraniana que sofrerá impactos de imediato em sua economia petroleira e financiadora de grupos insurgentes, e mais que isso, tanto Bahrein quanto Emirados sugarão ao máximo as tecnologias e recursos que Israel e EUA têm a oferecer, como os F-35 e sistemas de defesa, sejam o Patriot americano ou o Arrow e o Iron Dome dos israelenses, e as tratativas de entendimento entre Israel e Palestinos ficarão mais manobráveis por meio da intermediação dos Emirados, e o Tratado Abraão estimulará futuras negociações no contínuo efeito dominó sobre as peças da região.

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