O investimento em tecnologias não militares das Forças Armadas

Irradiação de alimentos, que prolonga a vida de frutas, e dispositivos de assistência cardiovascular são alguns dos projetos para a utilização de recursos concebidos a princípio com propósitos de defesa

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A Amazul é uma empresa pública criada pelo governo brasileiro para desenvolver tecnologias para o Programa Nuclear Brasileiro e o setor nuclear da Marinha. Foto: Serviço de Comunicação Social Ipen / Cnen-SP

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O exemplo, convenhamos, é radical, porém ilustra de maneira extraordinária quanto uma tecnologia originalmente concebida para fins militares pode encontrar utilidades, nada bélicas, no dia a dia de pessoas comuns.

Foi nos laboratórios das Forças Armadas americanas que, na década de 1960, nasceu este sinônimo da era digital: a internet. Em plena Guerra Fria, havia a preocupação do Pentágono de que arquivos secretos fossem preservados, mesmo na remota hipótese de um ataque soviético ao território dos Estados Unidos.

Surgiu então a Arpanet, que conectava, por meio de cabos telefônicos, computadores do governo, os quais, desse modo, podiam compartilhar entre si documentos sigilosos. Pois a Arpanet viria a ser a matriz da web, a onipresente rede mundial que conhecemos hoje.

Histórias parecidas à da internet têm o GPS, os equipamentos de ressonância magnética, o Teflon das panelas e frigideiras. Todos carregam consigo o traço da dualidade.

“Na verdade, essa é uma característica dos produtos de defesa mundo afora: algo a princípio desenhado para um emprego operacional militar ou estratégico, ou ao menos testado pioneiramente com tal fim, e que sempre transborda para o uso civil, com mais ou menos pressa, dependendo do segmento”, observou Marcos Degaut, que responde por essa área no Ministério da Defesa.

No Brasil, a dualidade já integrava a Estratégia Nacional de Defesa, aprovada em 2008, e se manteve na Política Nacional de Defesa, de 2012, a qual explicitava, segundo Degaut, “que o fomento dessa indústria deve considerar o uso diversificado das tecnologias”.­

“Inovação” é o mantra das Forças Armadas do país nesse front. Não é outra a bússola que orienta, por exemplo, os esforços para a instalação de centros de irradiação que utilizem tecnologias nucleares de esterilização de alimentos.

Empregado especialmente em frutas e proteína animal, esse recurso — desenvolvido nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial e consolidado em decorrência das viagens tripuladas ao espaço — multiplica por três a vida útil de tais produtos, eliminando a contaminação por micro-organismos.

Isso, sem transmitir radioatividade, ao contrário do que se poderia supor. O sistema é usado em larga escala pelos americanos, no México e, sobretudo, nas nações asiáticas.

Em São Paulo até existem centros de irradiação desenvolvidos a partir de tecnologias nucleares que tiveram origem nos estudos da área militar, mas eles são usados apenas no campo médico — o primeiro a se interessar pela técnica, investindo em equipamentos para esterilização de instrumental cirúrgico, máscaras, luvas, seringas descartáveis, agulhas, cateteres e materiais para implantes, entre outros.

Não por acaso, os 16 irradiadores que funcionam hoje no Brasil atendem, exclusivamente, esse setor. A ideia agora é estender a utilização para a agricultura, como forma de ajudar a impulsionar as exportações.

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República criou em 2009 — e ampliou no ano passado — um grupo de trabalho para estudar a aplicação da energia nuclear em vários setores da sociedade, e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento imediatamente encampou a proposta — e a está levando adiante.

É a Amazul — Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A., empresa vinculada à Marinha — que realiza tratativas com a Pasta comandada pela ministra Tereza Cristina e outros órgãos federais, além da iniciativa privada, para a implantação de centros de irradiação no país. “A aplicação dessa tecnologia não tem limites”, disse o almirante Antonio Carlos Soares Guerreiro, diretor presidente da Amazul.

O setor exportador de frutas já manifestou interesse no projeto. “Esse recurso nos possibilita alcançar mercados longínquos sem qualquer risco, o que pode nos trazer vantagem pelo lado comercial”, afirmou Luiz Roberto Barcelos, da Comissão Nacional de Fruticultura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Jorge Souza, gerente técnico da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas (Abrafrutas) ressaltou que, ao triplicar, em média, a vida dos produtos nas prateleiras, a tecnologia aumenta a competitividade nacional do setor. E permite que os alimentos cheguem à mesa “saborosos e livres de contaminação”.

Apesar de o tema ser pouco difundido por aqui, o Brasil importa alimentos irradiados, “como o alho, da China”, destacou Luís Rangel, assessor especial do Ministério da Agricultura, especializado em defesa agropecuária. “Irradiação é a bala de prata para a venda de produtos para o exterior porque dispensa qualquer outro tratamento químico ou hidrotérmico que busque eliminar fungos ou micro-organismos”, afirmou ele.

De acordo com o almirante Guerreiro, a tecnologia seria importante para eliminar o desperdício de frutas dentro do próprio território brasileiro, onde um produto leva dias, às vezes semanas, para chegar a seu destino.

Segundo ele, 25% da produção vai para o lixo entre sair do campo e encontrar o consumidor final. “O morango, por exemplo, começa a se deteriorar a partir do terceiro dia de colhido; se for irradiado, esse processo só tem início após o 21º dia”, atestou Guerreiro.

O diretor presidente da Amazul sublinhou que hoje não existe nenhum local no Brasil que irradie alimentos. Daí a importância da parceria firmada entre a empresa e o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da Universidade de São Paulo (USP), que já estuda a irradiação desse tipo de produto.

O agronegócio respondeu por 21,4% do PIB em 2019, atingiu 26% no ano passado e a expectativa é de que cresça pelo menos 3% em 2021, mesmo com a pandemia. Atualmente, o país é o terceiro maior produtor de frutas do globo. Entretanto, figura apenas no 23º lugar como exportador, desempenho que pode crescer de maneira exponencial com a irradiação.

Em todo o planeta, cerca de 500 mil toneladas de alimentos são irradiadas anualmente para exportação. A China é a campeã, com 40%, seguida pelos Estados Unidos (20%) e pelo Vietnã (13%).

O almirante Guerreiro cita ainda outros usos da irradiação fora de seu campo de trabalho. Os irradiadores do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), por exemplo, matam os fungos que ameaçam documentos e publicações do acervo histórico de São Paulo; obras de arte também são irradiadas para sua conservação; e até pneus são esterilizados por esse método a fim de ganharem aderência e se tornarem mais resistentes.

O processo de irradiação de alimentos, todavia, é somente um entre vários desdobramentos do emprego dual de tecnologia pela Marinha que beneficia a sociedade civil. Em parceria com a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), a Amazul está concluindo o projeto detalhado do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), primeiro grande passo capaz de levar o país alcançar a autossuficiência na produção de insumos (radioisótopos) para a fabricação de radiofármacos empregados no diagnóstico e no tratamento do câncer e de outras doenças.

O Brasil não produz esses radiofármacos, que são utilizados, por exemplo, em exames com contraste — o país gasta cerca de R$ 80 milhões na importação de radioisótopos para a produção dos insumos.

O RMB, que está sendo desenvolvido com a participação da companhia argentina Invap, vai permitir que os exames sejam ampliados para largas faixas da população porque ficarão muito mais baratos.

Hoje em dia o número de procedimentos com aplicação de radiofármacos por aqui é em torno de 2 milhões ao ano, volume três vezes inferior ao do Chile e da Argentina. Desse total, apenas 6,3% são realizados no Sistema Único de Saúde (SUS).

O reator — e toda a planta laboratorial que está em andamento — foi orçado em US$ 500 milhões. Conforme assegurou o almirante Guerreiro, não há ainda sinalização da liberação dos recursos para sua construção. Apesar disso, ele estima que o projeto detalhado esteja pronto até o final do ano.

Outro projeto de alta complexidade também oriundo do uso dual da tecnologia militar pela Marinha é o que prevê o desenvolvimento de um dispositivo de assistência cardiovascular para auxiliar o bombeamento de sangue em pacientes com insuficiência cardíaca que estão na fila de espera do transplante.

O micromotor desse dispositivo de assistência ventricular será desenvolvido a partir de tecnologia utilizada nas ultracentrífugas da Marinha, que são empregadas para o enriquecimento do urânio destinado ao submarino de propulsão nuclear e também às usinas de Angra. O aparelho resultará de uma parceria entre Amazul, Fundação Zerbini e Instituto do Coração.

No Exército, projetos duais de peso incluem o sistema de veículos terrestres remotamente controlados, que integra técnicas e conhecimentos da Inteligência Artificial (IA) e da robótica.

No âmbito militar, eles podem ser usados na desativação de minas antipessoais. Já no plano civil, o mesmo equipamento terá utilidade na coleta de dados de meio ambiente em lugares de difícil acesso.

O Exército desenvolveu também o sistema aéreo remotamente pilotado, empregado em operações militares de reconhecimento de locais e que pode ser estendido para a indústria agropecuária.

O secretário de produtos de Defesa do Ministério da Defesa, Marcos Degaut, lembrou que a indústria química foi altamente beneficiada com o desenvolvimento do sistema Astros para fabricação de foguetes e mísseis.

Para produzi-los, a empresa Avibras teve de desenvolver e recuperar uma fábrica de um insumo básico que se chama PBHT, que havia sido desativada em 1995 e que é matéria-prima fundamental tanto como propelente de foguetes militares como civis e para lançamento de satélites. “Por conta desse projeto do Exército com a Avibras, recuperamos a capacidade de produção de PBHT nos últimos dois anos. Hoje podemos, inclusive, exportar esse produto, que é amplamente empregado em vários setores, caso do automobilístico”, atestou Degaut.

Por fim, a Aeronáutica também tem procurado enfatizar as características duais de seus avanços tecnológicos. No final de 2020, a Força Aérea Brasileira (FAB) adquiriu o satélite radar SAR, da empresa finlandesa Iceye, para ser operado pelo Centro de Operações Espaciais da Aeronáutica.

O satélite foi comprado sem licitação, por ser considerado um projeto estratégico, a ser empregado em áreas ligadas à segurança nacional.

Esse será o primeiro satélite do sistema do Projeto Lessonia-1, previsto no Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (Pese), cujo principal objetivo é prover infraestrutura espacial para ser usada estrategicamente, e de modo potencializador, no Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz), no Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron) e no Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro (Sisdabra).

O aparelho será ainda utilizado estrategicamente no Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), o maior projeto de vigilância ambiental da Terra.

Com previsão de entrar em funcionamento no segundo semestre de 2022, o satélite de sensoriamento remoto para radar de órbita baixa deverá ter uma de suas bandas destinadas ao uso civil. Embora o objetivo primordial do satélite seja uso militar, não será restrito às ações na área de defesa. A banda civil do satélite permitirá a utilização também para o controle de queimadas e desmatamento, a detecção de óleo no mar e do crescimento de cidades, por exemplo.

Segundo o Ministério da Defesa, toda a infraestrutura de solo para a operação, o treinamento e o suporte logístico do sistema do satélite radar foi orçada em um total de US$ 33,8 milhões, cerca de R$ 179 milhões.

O equipamento permite detectar o solo, mesmo que haja nuvens, de noite ou de dia, diferentemente de outros equipamentos que poderiam ser considerados semelhantes. Por isso, ainda segundo a FAB, ele é eficiente para a atuação na defesa nacional.

Em outra frente, o Centro de Operações Espaciais do Comando da Aeronáutica opera uma das bandas do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC), uma parceria com o Ministério das Comunicações.

Pelo contrato firmado entre as partes, 30% do satélite se destinam ao uso estratégico das Forças Armadas, em apoio às operações militares com comunicações consideradas seguras, e os outros 70% são pilotados pela Telebrás, que utiliza o equipamento para distribuir internet de banda larga para comunidades isoladas.

Nos dias atuais, há 14 mil pontos instalados em 2.958 municípios, sendo a maior parte (10.600) em área rural. No total, 2,6 milhões de alunos foram conectados à internet pelo projeto, incluindo 248 escolas indígenas e 97 unidades quilombolas. Para elas, a sucessora da velha Arpanet não deixou de ser uma arma tecnológica — mas sem nada de bélica.

  • Fonte: Revista Época, Por: Tânia Monteiro


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