O legado AMAN

A participação de oficiais das forças armadas na estrutura do governo federal desperta a curiosidade da sociedade civil acerca desse segmento do poder nacional, motivando indagações diversas, tais como: Quem são os oficiais de carreira da linha bélica das Forças Armadas? Onde são formados? De onde vêm? Quais são os seus valores? Que atributos ornam a sua personalidade?

As considerações a seguir são restritas ao âmbito do Exército Brasileiro (EB), minha Força Armada de origem.

Sei que a Marinha do Brasil (MB) e a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio da Escola Naval (EN) e da Academia da Força Aérea (AFA), formam os nossos irmãos de armas com a mesma brasilidade, com a mesma competência profissional e sob a égide dos valores éticos e morais sempre presentes na carreira militar.

No início deste século, comandei a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), oportunidade em que, de um posto de observação privilegiado, pude ratificar a excelência dessa escola de formação. Comprovei uma vez mais a importância do legado AMAN, acervo que me norteou ao longo de minha vida no Exército.

Passados alguns anos de meu comando, por ocasião do bicentenário da Academia (1811-2011), respondi a uma pergunta que me foi dirigida na condição de antigo comandante, cujo conteúdo – reproduzido a seguir – ilustra o que representa o legado AMAN e qual a sua importância para a formação do pensamento militar dos oficiais do Exército Brasileiro.

“Qual a sua visão sobre a importância da AMAN como Estabelecimento de Ensino responsável pela formação dos oficiais de carreira da linha bélica do Exército Brasileiro?”

Considero a AMAN a pedra angular do Exército Brasileiro. Ela pode até ser desprezada por alguns, mas jamais será alijada do peito dos que amam o verde-oliva e dele fazem a sua profissão e o seu ideal.

As considerações que apresento a seguir não são decorrentes apenas do fato de eu ter comandado a AMAN nos anos 2001 e 2002, mas também do privilégio de tê-la cursado no quatriênio 1968/1971.

  1. AMAN – formação holística do oficial do Exército Brasileiro:

Para o oficial, a formação é holística. Não há como imaginá-lo sem determinadas características, dentre as quais ressaltam de importância a qualificação profissional, a estatura moral, o amor ao Exército e à Pátria, o espírito militar, o sentimento do dever e o temor a Deus.

Sem uma ou mais delas, teremos o incompetente, o indigno, o mercenário, o descompromissado ou o ateu. A AMAN, atenta a essa realidade, trata transversalmente desses temas, legando o acervo do passado, explorando os exemplos do presente e preparando o caminho dos futuros líderes de nossa Instituição.

  1. AMAN – farol do pensamento do oficial do Exército Brasileiro:

Na Academia Militar das Agulhas Negras se aprende a ser soldado, a ser homem e a ser cidadão. Nela se aprende a amar o Exército, a defender a Pátria e a valorizá-los para sempre.

Todo oficial carrega na sua bagagem a vida de cadete, e confesso que muito me orgulho da minha. A cada dia, prazerosamente, confundimos os momentos passados como cadete e oficial, ambos de muita vibração e fortes sentimentos, verdadeira chama que alimenta a nossa alma de soldado.

  1. AMAN – têmpera do oficial do Exército Brasileiro:

O amálgama do oficial vai se formando ao longo do curso da Academia Militar das Agulhas Negras que, em suas diferentes fases, integra o binômio homem-profissão.

O aço é obtido a partir da utilização de minério de ferro e carvão, materiais que se apresentam na natureza com diversificado grau de pureza e variado teor calorífero. Quanto mais elevada a qualidade de ambos, tanto melhor o produto final.

O oficial da AMAN tem como origem o cidadão brasileiro, que traz consigo a sua individualidade: talento pessoal ímpar, valor familiar específico e vocação diferenciada para a carreira das armas. Quanto maior o potencial do cadete, tanto melhor a qualidade do oficial.

O metal sem a têmpera não se transforma em aço. É produto de qualidade inferior, que não se presta a empregos nobres. O homem sem a qualificação não atinge a maturidade profissional. É um integrante qualquer, que não faz crescer a sua Instituição.
AMAN: nela se forja o oficial do Exército Brasileiro.

  1. AMAN – vetor de continuidade do Exército Brasileiro:

Não há oficial de carreira combatente que não se reporte ao seu tempo de vida acadêmica. A simples presença de um cadete é motivo bastante para avivar a memória adormecida, transportando-nos aos melhores anos de nossa existência.

É pena que os cadetes só descubram isso quando já são coronéis ou mesmo generais. Mas é bom que saibam, desde já, o sentimento que despertam em todos nós.

Para os cidadãos brasileiros que creditam ao Exército um privilegiado conceito – somos a instituição do País com maior grau de confiabilidade junto à população – o cadete é a garantia de que seus descendentes contarão com o Exército que eles conhecem.

Não há nacional – homem ou mulher – que deixe de associar o desempenho dos jovens cadetes ao futuro do Exército. E é bom que saibamos disso e o consideremos para pautar as nossas ações.

  1. AMAN – celeiro de valores éticos, morais e profissionais:

A ascendência do oficial, que não se restringe às estrelas do uniforme, advém do seu valor profissional e do conjunto de preceitos éticos e morais que realçam a sua personalidade. O desenvolvimento dessas qualidades é proporcionado pela formação da AMAN, e só não as exercitam aqueles que – por vontade própria – fizerem outra opção.

  1. AMAN – morada da alma do Exército Brasileiro:

O padrão da Academia, verdadeiro estímulo ao acerto, decorre do valor de seus integrantes e nos indica o caminho a ser trilhado.

O cadete – figura central da engrenagem – motiva-nos ao trabalho, constituindo a força motriz de nossas energias. Nele depositamos as nossas esperanças, confiando-lhe o futuro de nossa Instituição. E sabemos que ela ficará em boas mãos.

Durante o meu tempo de serviço ativo, andei por muitos brasis, mas reconheço que na AMAN reside a alma do Exército Brasileiro.

  • Por: General-de-Brigada Reinaldo Cayres Minati, Comandante da AMAN 2001/2002
  • AMAN: pedra fundamental da profissão militar; berço e sustentáculo da formação do oficial combatente do Exército Brasileiro.


2 COMENTÁRIOS

  1. Nem West Point forma para a vida civil, Academia Militar forma para a Guerra e nem tem de ser diferente, afinal de contas as Armas são para isto. Vida civil é incompatível com a caserna.

  2. Tive o privilégio de servir ao exército brasileiro com muita honra e garra e sei como é, o exército não só forma homens pra guerra e sim também pra vida isso sim é uma escola .

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