O Mergulho de Engenharia no Exército Brasileiro

Foto: Arquivo pessoal Alann Kardek

O presente artigo tem por finalidade fazer uma breve apresentação do mergulho militar praticado pela Arma de Engenharia do Exército Brasileiro (EB), explorando o conceito de Atividade Especial de Mergulho (AEM), a formação dos mergulhadores, emprego e capacidades previstas, pessoal e material.

O EB busca atender a diversas demandas operacionais utilizando uma estrutura organizacional com base nas Armas, Quadros e Serviços. As Armas, Quadros e Serviços são conjuntos de pessoal e meios organizados em unidades de acordo com as suas funcionalidades, que desenvolvem atividades específicas nas operações militares.

A Engenharia é a arma de apoio ao combate que tem como missão principal apoiar as operações conduzidas pela Força Terrestre, por intermédio das atividades de Apoio à Mobilidade, Contramobilidade, Proteção e Apoio Geral de Engenharia.

Como um dos responsáveis pelo desenvolvimento e manutenção da atividade de mergulho no EB, a Arma Azul Turquesa emprega pessoal e material especializados para o cumprimento das diversas missões que exigem o emprego de mergulhadores, contribuindo qualitativamente para uma maior liberdade de ação do poder militar, estando apta a atuar nos diversos ambientes operacionais, em situações de guerra e de não guerra, estendendo a mão amiga quando se faz necessário.

Atividade Especial de Mergulho (AEM) no Exército Brasileiro

No Brasil, as primeiras atividades de mergulho foram realizadas pelos índios. Sua destreza no combate aquático ficou evidenciada nos relatos de José de Anchieta, Gabriel Soares e de Hans Standen. Fatos como assaltos e sabotagem às naus francesas em Cabo Frio confirmam a eficiência desses precursores do mergulho militar brasileiro.

O mergulho militar no Brasil foi criado na década de 1970, baseando-se no modelo praticado no exterior, em escolas reconhecidas nos Estados Unidos e na França. Atualmente no nosso país, o Centro de Instrução Átila Monteiro Aché (CIAMA) e o Centro de Instrução de Operações Especiais, ambos sediados em Niterói-RJ, são os principais difusores dessa atividade.

Nessa vertente são desenvolvidas atividades e missões específicas dessa profissão, e como atividade bélica, foi introduzido com a finalidade de facilitar as operações, por intermédio da preparação do campo de batalha e degradação do poder de combate inimigo.

No Exército Brasileiro, o mergulho militar está subdividido em três ramos: as atividades de Operações Especiais, desenvolvidas no Comando de Operações Especiais e de Infantaria Paraquedista; as atividades de busca e salvamento, desenvolvidas pelo Serviço de Busca e Salvamento da Aviação do Exército; e as atividades de apoio ao combate, realizadas pela Arma de Engenharia.

Para o cumprimento de missões militares de mergulho, a Atividade Especial de Mergulho é aquela desempenhada por militares da ativa do EB, habilitados para o cumprimento de missão dessa natureza, podendo ser acompanhados por militares de outras forças armadas, policiais / bombeiros militares ou civis tecnicamente e legalmente habilitados para a mesma atividade.

A Formação dos Mergulhadores

A Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e a Escola de Sargentos das Armas (ESA) são os Estabelecimentos de Ensino responsáveis pela formação dos Oficiais e Sargentos combatentes no EB.

Nessas escolas de formação, tanto o cadete como o aluno de Engenharia, recebem as primeiras instruções de mergulho com a finalidade de fomentar a busca por essa especialização e desenvolver os atributos da área afetiva necessários para a formação do Oficial e Sargento combatentes.

Atualmente a formação básica dos mergulhadores da Arma de Engenharia (Oficias e Sargentos) tem sido feita na Marinha do Brasil (MB), nos Corpos de Bombeiros Militares (CBM) em algumas unidades da Federação e no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOpEsp) com a criação do Estágio de Mergulho a Ar e Resgate.

Em complemento à sua formação, alguns militares também realizam especialização no exterior, incluindo-se aqui Cursos nos Exércitos Argentino, Uruguaio e Espanhol.

Emprego e Capacidades

Doutrinariamente, a Arma Azul Turquesa é responsável pelo apoio ao combate e tem como missão principal proporcionar aos elementos de combate da Força Terrestre o apoio especializado à mobilidade, contramobilidade e proteção da tropa, nas operações desencadeadas no amplo espectro dos conflitos, caracterizando-se como um fator multiplicador do poder de combate.

Uma operação de Mergulho de Engenharia é caracterizada pelo emprego de duas técnicas: a de engenharia e a de mergulho. A técnica de engenharia que pode envolver uma operação desta natureza abrange desde simples reconhecimentos até o assessoramento técnico necessário em algumas grandes operações de logística.

Neste ínterim encontram-se trabalhos com explosivos (desativação de minas e armadilhas, demolições de superfície e aquáticas) com posicionamento, montagem e levantamento das condições de alguma parte subaquática de uma ponte (reconhecimento especializado de Engenharia), com instalação e remoção de obstáculos subaquáticos, abertura e limpeza de canais de navegação, instalação de redes de proteção para pontes flutuantes e portadas, apoio a operações de transposição de curso d’água, inspeções de cascos de embarcações ou suportes flutuantes, busca e salvamento, entre outros.

Em tempos de paz, o mergulhador militar é empregado na busca e recuperação de materiais, desobstrução de aquavias, segurança de diversas instruções e no auxílio a calamidades sociais, operando normalmente em ambiente interior, cujos procedimentos operacionais para a atividade de mergulho são revestidos de certo grau de particularidade devido às características do meio aquático.

Pessoal e Material

As Organizações Militares (OM) do EB que concentram pessoal especializado e material são denominadas Organizações Militares Específicas de Mergulho (OMEM). Nessas unidades militares estão previstos os meios necessários para a realização da AEM.

O mergulhador de engenharia pode ser empregado utilizando a configuração de Mergulho Autônomo (Backmount) e/ou Mergulho Dependente, de acordo com o seu grau de especialização e as necessidades impostas pelas missões.

A título de exemplo, a constituição mínima da equipe de mergulho autônomo em águas interiores, até 30 metros, sem descompressão, é composta de quatro militares: um supervisor de mergulho, que também fará a função de mergulhador de emergência; dois mergulhadores para a execução do trabalho; e um militar auxiliar de superfície, que poderá ser mergulhador ou não.

Visando manter a capacidade técnica e adestramento das equipes de mergulho existentes nas OMEM, é realizado um planejamento anual para a execução do Plano de Provas de Mergulho (PPM), composto por dez “provas”, que vão desde o planejamento de uma operação de mergulho até a realização de simulações de possíveis situações que podem ser encontradas.

Existe ainda o Plano de Exercícios de Mergulho (PEM), composto por nove exercícios, que tem por finalidade atestar a capacitação física e técnica dos mergulhadores que passam por um período prolongado afastados da atividade de mergulho.

Quanto ao material empregado, além do previsto como obrigatórios para o mergulho autônomo, tem-se buscado novos treinamentos com outros equipamentos e configurações, visando desenvolver novas capacidades e melhorar a parte técnica.

A busca de treinamento com Máscaras Full Face tem-se mostrado uma necessidade importante para a realização de trabalhos subaquáticos e atividades especializadas de engenharia, principalmente nas medidas de coordenação, controle e segurança do pessoal envolvido na operação militar.

A busca por novas técnicas, como a possibilidade de emprego da versátil configuração de sidemount, já é uma realidade nas operações de busca e recuperação de alguns Órgãos de Segurança Pública e pode acrescentar qualitativamente na parte técnica da equipe de mergulho de Engenharia, trazendo grandes benefícios, especialmente no emprego em ambientes de acesso restrito ou com correnteza.

Conclusão

As possibilidades de emprego e as capacidades desenvolvidas no mergulho de Engenharia revestem-se de importância por representarem ferramentas a mais como fator de multiplicação do poder de combate da Força Terrestre.

O criterioso processo de seleção e formação desses profissionais para o desempenho da Atividade Especial de Mergulho garante ao EB um recurso humano motivado, com material especializado, em constante treinamento e sempre pronto para atender às diversas demandas da instituição e do país, tanto em situação de guerra como não guerra.

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  • Nota da redação: Matéria publicada originalmente no site Brasil Mergulho, Por: Alann Kardek de Freitas Mesquita, Capitão de Engenharia do Exército Brasileiro (Turma de Formação AMAN 2008).Certificações Civis: Master Scuba Diver Trainer PADI, Instrutor EFR, Instrutor SDI / TDI, Mergulhador Intro To Tech NAUI. Certificação Militar: Estágio de Mergulho a Ar e Resgate (EMAR) – Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOpEsp).

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