O programa de modernização dos veículos de combate do Exército dos EUA

Os atuais programas de modernização das frotas de veículos de combate, em curso nos exércitos mais conceituados do mundo, despertam grande interesse, não somente pelo aquecimento do mercado de defesa internacional, decorrente da retomada de investimentos no setor.

Mas também pelas novas metodologias de trabalho empregadas nos programas, pelas inovações tecnológicas a serem aplicadas nas respectivas plataformas e pelas modificações que tais recursos causarão na doutrina militar e na condução das operações militares, em um futuro próximo.

No caso do Exército dos Estados Unidos da América (US Army), os veículos de combate são considerados meios essenciais para uma vasta gama de missões a serem cumpridas nos mais diversos ambientes operacionais e tipos de cenários, contra qualquer adversário.

Dessa premissa advém a necessidade de manter a sua frota atualizada, em grau compatível com as suas possibilidades de emprego. Tal percepção tem contribuído para redirecionar as prioridades do US Army que, durante a última década e meia, havia convergido seus esforços para a condução das operações voltadas à contrainsurgência, no Iraque e no Afeganistão.

Indo em sentindo contrário à outras nações, que desenvolveram e implementaram novas capacidades, elevando potencialmente o nível de ameaça que suas forças armadas poderiam representar, em um cenário adverso.

A NOVA GERAÇÃO DE BLINDADOS

“Os nossos adversários mais poderosos combinaram o emprego de sensores avançados de longo alcance com os efeitos de fogos precisos dotados de maior raio de ação, impondo uma revisão meticulosa dos requerimentos para os futuros veículos de combate” (US ARMY, 2019). Além disso, exige a manutenção de intenso fluxo de informações que depende de sistemas providos de elevada sofisticação e tecnologia.

“O campo de batalha moderno envolve múltiplos domínios. Esse ambiente operacional necessita de plataformas dotadas de recursos avançados capazes de operar em ambientes complexos de forma integrada, coordenada e sincronizada, em níveis sem precedentes”.

Nesse contexto, os norte-americanos concluíram também que, embora confiável e eficiente, sua atual frota de veículos de combate vem fazendo parte do inventário por décadas e, consequentemente, sua capacidade de superar adversários de mesmo nível começou a declinar; impondo a necessidade de obtenção de novas plataformas que recuperassem essa capacidade perdida, por intermédio de aquisições, desenvolvimento ou modernizações.

Além disso, a possibilidade de acrescentar novas tecnologias em alguns dos veículos mais antigos vem diminuindo, particularmente devido ao aumento do peso, restrição no espaço interno das viaturas e acréscimos na demanda de geração de energia, que superaram as suas capacidades originais, cabendo, ainda, mencionar o consequente incremento nos encargos logísticos advindos da adaptação de novos componentes.

Dessa forma, tornou-se necessária a adaptação da frota atual, paralelamente à inovação e ao desenvolvimento de novas capacidades, de forma a permitir que o Exército mantenha suas viaturas em operação; atualize os veículos existentes, conferindo-lhes as novas capacidades necessárias, impostas pelo ritmo acelerado dos avanços tecnológicos; desenvolva novos veículos, para atender aos requisitos operacionais futuros; substitua as plataformas obsoletas, para ganhar eficiência; e, de forma contínua, avalie o impacto das mudanças que possam interferir nas capacidades e requisitos estabelecidos, antecipando-se oportunamente.

Mediante esse processo, estima-se que os veículos de combate poderão estar aptos a contribuir efetivamente para a obtenção e a manutenção da superioridade relativa ante as possíveis ameaças, que também se mantêm em constante evolução.

A ESTRATÉGIA ADOTADA PARA A MODERNIZAÇÃO DOS BLINDADOS DO EXÉRCITO DOS EUA

Uma vez definida a necessidade de modernização de sua frota, o Exército dos EUA estabeleceu, em 2015, os parâmetros para esse processo, no documento The US Army Combat Vehicle Modernization Strategy.

Posteriormente, com a publicação da estratégia de modernização do Exército Norte-Americano, em 3 de outubro de 2017, foram definidas as seis prioridades de modernização, abaixo elencadas, que em seu conjunto visam a conferir maior letalidade e estabelecer uma concreta e absoluta superioridade do US Army, em relação aos demais exércitos:

  • Letalidade do soldado (Soldier Lethality);
  • Redes do Exército (Army Network);
  • Fogos de Precisão de Longo Alcance (Long-Range Precision Fires);
  • Próxima Geração de Veículos de Combate (Next Generation of Combat Vehicles);
  • Plataformas de Elevação Vertical Futuras (Future Vertical Lift Platforms); e
  • Capacidades de Defesa Aérea e Mísseis (Air and Missile Defense Capabilities).

Os estudos visando a identificar os hiatos de capacidades, que consequentemente requereriam esforços para a sua superação, concluíram, também, pela necessidade de um novo modelo de gestão de projetos, que fosse mais adequado ao cenário atual, mais ágil e eficiente. Nas palavras do General Mark A. Milley, Army Chief of Staff:

“[…] hoje, nosso Exército não está institucionalmente organizado para proporcionar, rapidamente, as capacidades críticas necessárias aos nossos soldados e às nossas organizações militares. O nosso sistema de modernização atual remonta à Era Industrial […] Foi suficiente para as ameaças no passado, mas não o será para assegurar, em tempo hábil, os meios de que necessitaremos no futuro e nem terá a agilidade requerida para as aquisições previstas pelas seis prioridades de modernização estabelecidas. […] E, ainda, os nossos processos são centrados em grupos de trabalho, que não interagem e não trocam informação entre si, inabilitando a integração entre os diversos programas; nossos processos para a definição de requerimentos são lentos e extremamente burocráticos (Milley, 2017)”.

Diante dessa constatação, foram criadas oito equipes, denominadas Cross-Functional Teams – CFT (na sigla em inglês), com a missão de superar os citados entraves e conferir maior velocidade aos projetos.

As CFT são compostas por especialistas nas áreas que mais influenciam na elaboração e no desenvolvimento de programas, reunindo recursos humanos reconhecidos por sua capacidade na elaboração de requisitos, na condução dos processos de aquisições, em ciência e tecnologia, em testes e avaliações, no gerenciamento de recursos, na confecção de contratos, na mensuração do custeio, na concepção da logística de aquisição, além de pessoal oriundo dos Comandos das Forças Armadas dos EUA mais aptos a contribuir, apresentando a perspectiva dos usuários sobre os produtos a serem obtidos, desde a sua concepção.

Elas são orientadas e coordenadas pelo recém-criado Army Future Command, com sede em AUSTIN, no TEXAS. No caso do Programa dos Veículos de Combate de Próxima Geração (Next Generation of Combat Vehicles – NGCV, na sigla em inglês), a respectiva CFT foi estabelecida em Fort Benning, na GEÓRGIA, em novembro de 2017.

Para obter a próxima geração de veículos de combate, a equipe CFT NGCV está explorando o desenvolvimento de tecnologias facilitadoras, essenciais nas seguintes áreas:

  • Sensores equipamentos que permitam detectar, identificar e rastrear vetores inimigos a grande distância, com rapidez e precisão, obtendo imagens de alta resolução;
  • Robótica e Sistemas Autônomos – equipamentos com diferentes graus de automação que permitam incrementar a capacidade de buscar informações e atuar, em contato com o inimigo, reduzindo ou evitando a exposição da tropa, ao mesmo tempo em que incrementam a sua letalidade;
  • Energia Dirigida – a CFT buscará soluções que permitam aumentar os efeitos e o desempenho dos sistemas de armas, que possam ser incorporados a plataformas menores e mais leves;
  • Geração e Gerenciamento de Energia – pesquisas em curso procuram obter combustíveis mais eficientes, bem como geradores, que confiram maior autonomia aos veículos, além da potência necessária para permitir o funcionamento dos novos equipamentos e acessórios, tudo de forma a contribuir com a redução dos encargos logísticos;
  • Soluções Avançadas em Materiais Blindados – a CFT busca por soluções que permitam aumentar a proteção e, simultaneamente, reduzir o peso do veículo, facilitando o seu transporte, desdobramento e obtendo maior mobilidade;
  • Suítes de Proteção de Veículos – soluções que otimizem os sistemas de blindagem passiva e a proteção ativa, para aumentar a proteção geral, enquanto permite uma diminuição no peso do veículo, melhorando a mobilidade e a sustentabilidade.

As formações dotadas das viaturas oriundas do NGCV deverão estar em condições de manobrar em terrenos variados (sem restrições, restritos e densamente urbanizados). Em síntese, a equipe encarregada deverá garantir que o Exército esteja equipado com veículos de combate de próxima geração, contribuindo para superar as ameaças atuais e futuras, proporcionando letalidade decisiva, capacidade de sobrevivência, mobilidade tática e que, ao mesmo tempo, possam reduzir encargos logísticos.

Esses veículos, quando combinados com equipes treinadas e capacitadas para o correto uso da tecnologia, serão essenciais para o sucesso no campo de batalha do futuro. Assim, o programa Next Generation Combat Vehicle tem por finalidade assegurar a obtenção das melhores capacidades disponíveis, no que tange à potência de fogo, proteção, mobilidade e geração de energia, juntamente com o desenvolvimento de outras capacidades voltadas para o combate aproximado, envolvendo o emprego de meios tripulados, não tripulados ou a combinação dessas possibilidades, tudo visando a assegurar a superioridade de meios em relação aos possíveis adversários.

OS NOVOS VEÍCULOS EM PROSPECÇÃO NO EXÉRCITO DOS EUA

Atualmente, o programa Next Generation Combat Vehicle envolve os seguintes projetos: the Armored Multi-Purpose Vehicle (AMPV); Mobile Protected Firepower (MPF); Optionally Manned Fighting Vehicle (OMFV); future robotic combat vehicles (RCV); e Joint Light Tactical Vehicle (JLTC). O projeto AMPV será desenvolvido para substituir a família M-113 [*], remanescente nas unidades integrantes das brigadas blindadas.

Deverá ser produzido nas versões: emprego-geral, morteiro, ambulância/UTI e PC. A nova plataforma deverá superar as atuais deficiências dos M-113 em termos de proteção, tamanho, peso e potência. Além disso, deverá estar apto a incorporar as novas tecnologias emergentes, no mesmo ritmo das demais viaturas do programa.

A plataforma será baseada no chassi da viatura Bradley e deverá estar em condições até o ano de 2021. O MPF será uma viatura blindada de combate leve (carro de combate), destinada ao combate embarcado, com a capacidade de aplicar fogos diretos precisos, de grande calibre, a uma longa distância, em apoio às brigadas de infantaria.

A finalidade desse veículo consiste em dotar essas Grandes Unidades de proteção e potência de fogo adequadas, permitindo a destruição de posições inimigas preparadas, viaturas blindadas e metralhadoras pesadas.

Os requerimentos para o MPF incluem: armamento principal de grande calibre e letalidade; múltiplos sistemas de armas disponíveis para a guarnição; e permitir rápido desdobramento, adequabilidade ao ambiente operacional urbano, tamanho e peso que viabilizem o transporte de duas viaturas em uma aeronave C-17.

As aquisições devem ser aceleradas, buscando integrar tecnologias maduras e em desenvolvimento, de forma que até 2025 as primeiras Unidades sejam dotadas com o equipamento.

O projeto OMFV será desenvolvido para substituir as VBCI Bradley, explorando os conceitos Manned-Unmanned Teaming (MUM-T) e Robotic Combat Vehicle (RCV). A finalidade geral desse veículo é manobrar, conduzindo os soldados a uma posição que lhes proporcione vantagem relativa para engajar-se no combate aproximado (desembarcado) com o inimigo.

Além disso, o veículo deve oferecer um nível de letalidade que permita participar de uma manobra envolvendo armas combinadas de forma eficiente e decisiva, ao mesmo tempo em que permita controlar outros sistemas robóticos e ou semiautônomos que atuam no mesmo ambiente. O design também será baseado em soluções que permitam a absorção de tecnologias futuras.

As primeiras viaturas deverão estar operacionais em 2026. O RCV será desenvolvido em versões leves, médias e pesadas e tem por finalidade proporcionar letalidade decisiva; aumentar a consciência situacional; e integrar as formações compostas de outros tipos de viaturas, em ambientes operacionais envolvendo múltiplos domínios (terrestre, aéreo, naval, cibernético, eletromagnético e espacial).

Tais capacidades visam a permitir que plataformas não tripuladas entrem em contato com o inimigo antecipadamente, favorecendo a sua neutralização com menor grau de risco e com o incremento na eficiência que decorre da integração de todas as plataformas e meios disponíveis naquele cenário. As primeiras versões operacionais deverão estar disponíveis em 2023.

O JLTC será o produto de um projeto conjunto, compartilhado entre o US Army e o US Marine Corps, que tem por finalidade adquirir veículos leves, capazes de serem em múltiplas funções e que deverão substituir os High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicles (HMMWV), proporcionando maior mobilidade e proteção para o pessoal, para os sistemas de comando e controle e para as cargas, em diversos ambientes operacionais, a um custo relativamente baixo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em síntese, o Programa “Next Generation Combat Vehicle” deverá entregar ao Exército Norte-Americano um conjunto de veículos de combate de última geração, proporcionando maior capacidade de sobrevivência, mobilidade e letalidade, a um peso reduzido, para neutralizar e destruir as ameaças em face de exércitos similares, por meio da manobra, do poder de fogo e da ação de choque, em um tempo bastante otimizado, decorrente da adoção de novos modelos de gerenciamento de projetos.

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  • Fonte: Revista Doutrina Militar Terrestre, do Exército Brasileiro.
  • [*] O M113 é um veículo blindado de transporte de pessoal de origem norte-americana, em serviço em muitos países. Trata-se de um veículo sobre lagartas, com capacidade anfíbia limitada a pequenos cursos de água, grande capacidade de deslocamento em qualquer terreno e alta velocidade em estradas Proposta dos de terra batida ou asfaltada.
  • Nota da Redação: O autor do presente artigo, Srº Julio Cesar Palú Baltieri…


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