O protagonismo feminino nas missões de paz das Nações Unidas

Foto: Arquivo Pessoal

O Saara Ocidental está no noroeste da costa do continente africano. A administração colonial do país pela Espanha teve fim em 1976, período onde começaram os conflitos entre o Reino do Marrocos e a Frente Polisário.

Um cessar-fogo foi assinado em setembro de 1991 e a Missão das Nações Unidas para o referendo no Saara Ocidental (MINURSO) foi estabelecida pelo pelo Conselho – Resolução 690.

A MINURSO advém da aceitação das partes em receber a missão da ONU para gerar condições da construção de um acordo final. Essa é a situação que se mantem na última colônia africana. A missão ainda está em curso (fevereiro de 2020) e tem os seguintes objetivos:

  1. monitorar o cessar fogo;
  2. reduzir a ameaça de minas e munições não detonadas;
  3. dar suporte logístico para que a ACNUR possa conduzir as Medidas de Construção de Confiança (MCB); e
  4. excepcionalmente, a missão está envolvida em guarnecer assistência à causas humanitárias ligadas à migração na região e também em casos de desastres naturais.

É dentro desse contexto de complexidade e importância que este artigo traz dois textos com a entrevista da tenente coronel Andréa Firmo, que serviu na MINURSO e foi a a primeira observadora militar e comandante de team site na missão.

A presença brasileira nessa operação não é uma novidade, mas a coronel fez história. Ela conta como foi selecionada pelo Exército Brasileiro (EB) para a MINURSO, e tratou dos pontos positivos que surgem da diversidade de nacionalidade, dos desafios da mulher em ambiente militar e de suas atividades profissionais durante a missão.

A coronel assumiu a missão em abril de 2018 e passou o comando em abril de 2019, com a extensão técnica de 14 dias da missão, período que parece curto, mas é longo quando se está no meio do deserto.

Foi escolhida pelo EB e aprovada pela ONU como observadora militar; o trabalho consistia em monitorar a possível violação do acordo e relatar, com o objetivo de manter a idoneidade para que as fases seguintes pudessem acontecer.

Busca de violações e de minas terrestres implicava no convívio com a população que estava no entorno. Os team sites, unidade na qual estava e posteriormente comandou, são pequenas bases com a responsabilidade de monitoramento de pequenas áreas.

A população que se mantinha no entorno arriscava a vida. Escolhida para a função de Force Trainning Officer, era responsável pelo treinamento e preparação dos oficiais que chegavam à missão.

Na ocasião, treinou as primeiras muçulmanas: uma enfermeira e uma engenheira, ambas da Jordânia, que seriam, como ela, observadoras militares em campo.

Foi a primeira patrol leader (papa lima) pelo qual foi apelidada “mama lima” mulher, curso necessário ao comando de patrulhas. Desta experiência. a coronel conta que o principal aprendizado é sobre o quanto é necessário a consciência da função de equipe, tendo em vista que, caso uma pessoa falhe, todos falham.

Depois desse desafio, foi escolhida para ser a primeira comandante de team site, ou seja, pela primeira vez desde 1991 uma mulher comandaria uma das bases do deserto, com o agravante de estar na parte mais vulnerável: a dos polisários.

Sobre a sensação ao receber a missão, a coronel nos diz que foi de muita responsabilidade. A vontade era de honrar o desafio, unir toda a preparação de anos para doar seu melhor àquela missão.

O trabalho era comandar uma equipe com maior background em experiência bélica; militares de diversas nacionalidades que lutaram no Iraque e em outros conflitos. Diante disso, optou por fazer briefings com união conjunta de estratégias para fazer as missões das melhores maneiras possíveis.

Parte do trabalho era as chamadas liason meetings; devido à proximidade da população polisária à base, havia encontros e mediação com os líderes locais. A dedicação em conquistar a confiança dos locais do país anfitrião foi parte relevante do trabalho.

Exemplo da eficácia da atitude é o fato de ter recebido desses grupos informações que resguardaram sua segurança.

Ao final da missão, a coronel afirma ter ficado o sentimento de que ainda havia muito a ser feito. Podemos acreditar que ela estava correta, tendo em vista a continuação da operação e a constante preocupação das Nações Unidas com a região.

Outro objetivo da coronel era que, com seu exemplo, pudesse abrir caminho para as outras mulheres, se mostrando eficaz com o convite para a tenente brasileira Coronel Josiane comandar o mesmo team site.

A coronel Andréa ainda evidencia os desafios como mulher, mãe, militar e dona de casa, além da distância dos filhos – que gera saudade e preocupação. Afirma que é importante o planejamento da sua rede de apoio para que o conforto dos que ficam seja um benefício no período longe.

Também trata da necessidade da preparação física, e como exemplo, dá o seu trabalho em patrulhas no deserto, na qual os membros precisam garantir o trabalho conjunto da unidade.

Quanto à diversidade de gêneros e nacionalidades no ambiente de trabalho é adjetivada por Andréa como “enriquecedora”. Enxergar na diferença dos outros elementos que melhoram o trabalho foi essencial.

A presença feminina na fase de conflito e pós teve a ênfase da ONU nos últimos anos. A Resolução 1325 e as ações do secretário geral Antônio Guterres tentam promover maior participação feminina baseada em dados de que esse fator colabora com a paz sustentável.

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  • Por: Simone Mayara, Diário das Nações