O Que Acontecerá Daqui Para Frente No Conflito Armênia E Azerbaijão?

primeiro-ministro Pashinyan durante diálogo

Os confrontos mortais em julho deste ano entre as forças armênias e azerbaijanas deixaram dezenas de mortos, entre eles civis, e forçaram os moradores a fugir de suas casas entre a Armênia e o Azerbaijão, tais incursões diretas continuaram e formou trincheiras bélicas ao longo da fronteira, tendo repercussão imediata na região de Nagorno-Karabakh, pois, em 27 de setembro, as forças armadas do Azerbaijão lançaram uma ofensiva de artilharia contra assentamentos civis armênios e contra algumas áreas da capital de Artsakh, Stepanakert.

Segundo as autoridades do Azerbaijão, as ações corresponderam a um contra-ataque após a Armênia bombardear posições do Exército Azerbaijano e assentamentos de civis, abrindo assim a série de atividades bélicas entre as duas nações na instável região de Nagorno-Karabakh, a histórica área de entraves soviéticos.

Segundo Nicu Popescu, especialista em políticas externas russas, nos últimos anos, a Rússia, assim como outros mediadores internacionais nos grupos de Minsk responsáveis por intermediar o conflito de Nagorno-Karabakh, tem se tornado cada vez mais insatisfeita e desanimada com a intransigência armênia nas negociações.

Mesmo após inúmeras negociações e tentativas de progressos consistentes na pacificação de toda a região e territórios disputados, a Armênia manteve um status quo no conflito, a permanência, extremamente teimosa, no controle de Nagorno-Karabakh e sete outros distritos do Azerbaijão.

A Declaração sobre a Parceria Aliada entre a Armênia e a Federação Russa para o século 21, assinada em 26 de setembro de 2000, especificava o compromisso de fortalecer e expandir a amizade entre os povos dos dois países por meio de ampla colaboração aliada na economia, no turismo, bem como na garantia de paz, estabilidade e segurança garantida na região do Cáucaso e no mundo.

Moscou detém grande percepção de que, nas últimas duas décadas, o equilíbrio de poder mudou em favor do Azerbaijão e que, em vez de aderir a um acordo mais ou menos aceitável, a Armênia tem sido irracional e intransigente. Nicu destaca que a Rússia não quer arcar com a conta geopolítica disso, não apoiará as aventuras militares armênias em terras estrangeiras.

Diante dos descontentamentos no enclave, com a Armênia se negando a aceitar qualquer negociação e as autoridades russas já céticas disso, em 9 de novembro, as nuvens negras se deslocaram para o Azerbaijão, após o Ministério da Defesa da Rússia confirmar que um helicóptero Mi-24P russo ter sido abatido por um míssil terra-ar das Forças Armadas do Azerbaijão, mais precisamente na região de Ararat, na Armênia, local muito próximo da fronteira de Artsakh e Nagorno-Karabakh.

Segundo o analista senior Babak Taghvaee, muito provavelmente o helicóptero abatido não possuía capacidade de operar em missões noturnas, portanto, foi abatido durante uma missão de treinamento.

Segundo alguns analistas conversados com o canal Área Militar, muito provavelmente o dispositivo utilizado no ato foi um Igla-S 9K38, e pela posição, planeio e voo do helicóptero a ação por parte dos azerbaijanos foi claramente uma emboscada, mas não sabiam que se tratava de um dispositivo russo e tão pouco estava em treinamento.

Pelo fato ocorrido e pouco tempo depois que o mundo recebeu as primeiras notícias e imagens do evento, o Azerbaijão admitiu que derrubou o helicóptero e emitiu claras desculpas pela ação. ‪Dois tripulantes morreram e um terceiro ficou ferido quando o helicóptero foi abatido na Armênia.

O Ministério das Relações Exteriores da nação emitiu a seguinte e breve declaração: “O lado azerbaijano oferece desculpas ao lado russo em relação a este trágico incidente”, acrescentando que a ação foi acidental e “não foi dirigida contra” Moscou.

Se as cláusulas de acordos passados feitos não eram até então aceitos pelos azerbaijanos ou armênios, o claro incidente e erro grotesco não proporcionou outra saída, o acordo de paz forçado aos armênios antes que haja uma grave escalada regional.

Na noite dessa segunda-feira, 09 de novembro, posterior ao incidente, o primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, emitiu um comunicado que ele e os presidentes da Rússia e do Azerbaijão assinaram uma declaração sobre o fim da guerra em Nagorno-Karabakh. Tal declaração seguiu-se com a autorização de Putin em deslocar cerca de 2.000 militares de paz em toda a linha de contato da região até então disputada, para assim afastar ambos os lados e possíveis ofensivas das nações.

As principais tratativas assumidas pelos envolvidos estão o domínio azerbaijano dos territórios do sul e ao norte que foram dominados por eles ao longo deste ano, e concede aos russos a responsabilidade pela segurança na linha de contato e de todo o Corredor de Lachin, uma das únicas ligações possíveis terrestres entre Nagorno-Karabakh e a Armênia, uma espécie de Vale de Galwan, local de disputa terrestre entre China e Índia.

Apesar das tratativas de paz terem causado grandes repercussões negativas entre os armênios que foram às ruas e avançaram sobre o palácio presidencial em Yerevan para contestar a decisão de Pashinyan, a batalha local gerou temores de uma guerra regional mais ampla, com a Turquia apoiando seu aliado Azerbaijão, enquanto a Rússia estava estabelecida num pacto de sangue com a Armênia e por possuir a base aérea de Erebuni, que permaneceu em alerta com seus MiG-29, Mi-8MT e Mi-24P a qualquer coordenação de Moscou.

O acordo prevê que as forças armênias entreguem o controle de algumas áreas que mantinham fora das fronteiras de Nagorno-Karabakh, incluindo o distrito oriental de Agdam. Essa área tem um forte peso simbólico para o Azerbaijão porque sua cidade principal, também chamada de Agdam, foi totalmente saqueada, e o único edifício que permanece intacto é a mesquita da cidade. Para os armênios, o acordo ruiu o nacionalismo e permaneceu a percepção dolorosa da derrota, muitos acreditam que os territórios ocupados desde o século passado foram arrancados de suas mãos durante o conflito e após o tratado de paz.

Entretanto, observando o lado estratégico e geopolítico, o acordo garantiu sobrevida à Armênia com a permanência do pacto de defesa com a Rússia que já se encontrava saturada pela explícita resistência de Pashinyan em não abrir mão de um acordo de paz, correndo sério risco de ficar sem suas terras, ocasionar mais mortes de civis armênios, permanecer sem a proteção da Rússia e afundar numa grave guerra civil sem perspectivas de resolução.

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