Operações em clima frio, o que se aprende na prática?

Com a grande repercussão positiva da noticia de mais um sucesso de militares da Marinha do Brasil (COMANF’s) no curso de capacitação para operações em clima frio, recebi centenas de e-mails de leitores e amigos me pedindo mais informações sobre como são os cursos de sobrevivência no gelo e quais outros existem para a capacitação militar e/ou de civis nesse tipo de ambiente

Não podemos esquecer que os primeiros militares da Marinha do Brasil a efetuarem uma permanência de inverno na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), na Antártica, foram os Fuzileiros Navais.

E com a ampliação do Programa Antártico Brasileiro se acelerando, os conhecimentos de operações em clima de extremo frio serão muito úteis nas futuras rotinas antárticas, assim como as possibilidades de operações em regiões andinas, quando convidados por nações amigas, ou, outras surpresas do futuro… 

Antes de tudo, preciso deixar claro que existem muitas doutrinas diferentes dentro do tema, e, quase uma centena de cursos específicos, para o que poderíamos considerar “sobrevivência no gelo e/ou clima frio.

E também existem muitos outros especialistas com experiências muito mais amplas que a minha para explanar sobre o assunto, e, que em um futuro próximo poderão nos ajudar com matérias sobre o tema. Essa pretende ser apenas uma explanação superficial, mas que poderá ser motivo para outras matérias mais detalhadas no futuro.

Lembre-se; seu corpo foi projetado para funcionar bem com uma temperatura entre 20 à 35°C, fora disso sua saùde começa a ter problemas imediatos…

O clima de frio extremo é considerado por muitos como um dos ambientes naturais com ar respirável (desde que sem alterações por sinistros) de maior risco para o ser humano e o 3° mais periculoso para atividades profissionais, perdendo apenas para o espaço sideral (atividades de astronautas) e as profundezas oceânicas (atividades de mergulho de grande profundidade).

Pois dependendo das condições de; temperatura, ventos, altitude, associada à sua forma física e vestimentas e as circunstâncias da presença no ambiente gelado (acidente de aeronave ou trabalhando em atividade periculosa), o ser humano pode morrer em poucos minutos por congelamento ou ao menos ficar com sequelas de difícil tratamento médico. 

A tabela de Wind Cill ou relação entre temperatura indicada e sensação térmica real por ação de ventos. Exemplo: Se estamos em um local com temperatura de -15°C com ventos de 60km/h, teremos um resfriamento que levará a hipotermia em 10 minutos ou menos, mesmo que usando roupas adequadas.

O básico que todos precisam saber sobre Sobrevivência no Gelo, antes de qualquer atividade

A parte fisiológica

Como qualquer outro ramo da sobrevivência (selva, mar, deserto, urbano, etc…) o conhecimento é a base de tudo o mais, inclusive para a parte que eu e muitos consideram a principal, que é conhecer a fisiologia de seu corpo, saber como seu organismo vai reagir uma vez exposto ao frio por horas contínuas em estado de repouso, de atividade média e em atividade extenuante. 

Um dos exemplos mais comuns é o de pessoas com boa capacidade física aparentemente sofrerem mais com o frio em comparação com pessoas acima do peso, isso devido à pouca presença de gordura no tecido adiposo (camada entre a pele e os músculos).

Depois disso, vem a observação de fenômenos de alterações na capacidade respiratória, ocasionados pela demora da aclimatação biológica do organismo dentro da relação da intensidade da frequência respiratória de cada um, que pode ocasionar o congelamento da garganta, traqueia, e até mesmo dos alvéolos pulmonares, dependendo da temperatura e situação.

Importante frisar que para cada pessoa em um ambiente específico, ocorrerá um tempo especifico  nessa adaptação fisiológica ao frio, isto é, geralmente pessoas que vivem em regiões quentes, terão a óbvia dificuldade na aclimatação em uma região fria.

Não tente fazer atividades de aventuras prolongadas como acampamentos na neve sem supervisão de profissionais.

Importante também é saber como conduzir adequadamente a manutenção da temperatura corporal adequada para cada situação, pois um dos maiores perigos em qualquer atividade do gelo é a transpiração excessiva, que caso ocorra, acaba por congelar no tecido das roupas e gerar grande desconforto e até mesmo o congelamento da pele, causando queimaduras de frio e o resfriamento que levará à hipotermia.

Depois de todos os aspectos da prevenção do resfriamento orgânico, considera-se de extrema importância saber reconhecer os sinais desses estados, os níveis de gravidade, e, as ações iniciais de como tratar à si mesmo ou a uma eventual vítima de resfriamento grave,  hipotermia ou congelamento de extremidades e superfícies corporais.

Quem sai na chuva sai pra se molhar, e quem sai na neve sai pra se molhar e se congelar de brinde.

Os cuidados com a alimentação antes e durante as atividades em regiões frias são importantíssimas para a manutenção fisiológica, evitando assim os problemas correlatos à digestão e equilíbrio entre quantidade e valor calórico adequado para o alimento ingerido, bem como o consumo de água para evitar a desidratação, que no frio ocorre com a mesma intensidade que no calor extremo devido aos fenômenos de aceleração do processo urinário (já perceberam que no frio urinamos mais vezes q o normal?) que provoca a perca de líquidos e sais minerais, assim como a perca de calor interno.

A parte tática básica

A parte que podemos considerar inicialmente como “tática” seria; o planejamento da expedição ou permanência, com o prévio estudo e conhecimento do meio ambiênte (desertos altiplanos, montanhas, alpes, regiões polares, etc…) aonde será efetuada a atividade em gelo, e o equipamento específico a ser usado.

Pois cada local tem suas particularidades, facilidades e dificuldades correlatas, tais como as gritantes diferenças entre as florestas de mata atlântica, amazônica e pantanal. Estudar a meteorologia  e fenômenos de microclimas se inclui nisso também.

As roupas e calçados são itens da maior importância, existindo hoje no mercado uma gama de roupas que diminuíram em peso e volume quase pela metade em comparação com materiais convencionais já considerados obsoletos.

Pesquisar bem e pedir conselhos aos mais experientes em aventuras e viagens sempre é bom. Saber escolher o equipamento mínimo para emprego na região na qual se vai operar é essencial, assim evitamos carregar material desnecessário que pode ser substituído por alimentos ideais ao meio.

Conhecer a natureza e seus comportamentos previsíveis e imprevisíveis é sempre a grande vantagem nas montanhas geladas.

Os demais conhecimentos de praxe em orientação, sinalização, construção de abrigos, caça e pesca são muito semelhantes aos estudados em outras regiões, com a diferença específica para os animais típicos de cada região de acordo com a época do ano.

No básico, a regra conhecida do AFA+A (água-fogo-alimentação-abrigo) para selva e demais regiões se inverte, sendo então AFA+A ; abrigo, fogo, água e alimentação, pois no frio sua prioridade sempre será se proteger dos ventos e manter a temperatura corporal em níveis seguros e a partir disso tudo o mais será desenvolvido ou conduzido na ação no gelo.

E antes de tudo, planejamento! Plano A, plano B, plano C mais alternativas… 

Resgate em avalanche e gretas (fendas) no gelo

O resgate em avalanche é uma das ações mais importantes para quando se efetua atividades em regiões de gelo e montanha, já que depois da hipotermia por má preparação ou acidentes, as avalanches são as maiores causadoras de mortes entre frequentadores de regiões montanhosas em tempo de neve e gelo. 

Todos os que participam de um treinamento de Busca e Salvamento em montanha em situação de avalanche devem ser capazes de gerenciar sozinhos uma situação de busca e liberação de uma vítima de avalanche e/ou ser capaz de participar efetivamente de uma ação de busca coletiva, de uma ou mais vitimas, gerenciada por um líder.

Após o treinamento de resgate em avalanche, você tem que ser capaz de:  verificar  e montar seu equipamento com eficiência; participar da verificação do grupo e teste de busca com um DVA; usar as funções básicas do seu DVA; implementar ações básicas em caso de acidente com avalanche (o que fazer); enviar um alerta para profissionais de emergência; pesquisar e localizar efetivamente uma vítima enterrada em um cenário simples; libertar uma vítima enterrada usando  técnicas específica de escavação na neve/gelo.

E isso é apenas o começo! Desde que comecei a me dedicar à atividades de aventuras em montanhas, a segurança vem em primeiro lugar para qualquer um com o mínimo de consciência de responsabilidade, para evitar não somente riscos para a sua pessoa como para saber o que fazer em caso da necessidade de salvar terceiros que forem surpreendidos por acidentes em região de clima frio e gelo, seja aonde for.

Nota do Autor:

Transcrevo essas explanações básicas, baseadas experiências próprias vividas como Bombeiro Voluntário na região de Rhone-Alpes (FR), onde iniciei em 2009, o que me permite efetuar alguns cursos na área de busca e salvamento em montanha e gelo, assim como com as reciclagens anuais que efetuo junto a Association Nationale pour l’Étude de la Neige et des Avalanches (ANENA) e a Federation Française de Haute Montagne (FFHM), que possuem uma enormidade de cursos e treinamentos à valores acessáveis para todos.





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