Pesquisa mostra interesse da população por militares

Trinta e quatro anos após o fim do regime militar, os brasileiros já não associam as Forças Armadas a um período de exceção e cerceamento das instituições e da liberdade. Hoje, boa parte da população enxerga qualidades nos militares que não reconhecem em outros segmentos da sociedade, como patriotismo e seriedade. A constatação está em uma pesquisa quantitativa realizada no mês passado pela Consumoteca, consultoria especializada em comportamento. “O interesse pelas Forças Armadas cresceu, e o conceito delas entre as instituições, que já era bom, continua alto”, afirma o antropólogo e sócio da consultoria, Michel Alcoforado.

Durante o mês de janeiro, a consultoria ouviu mil pessoas entre 18 e 40 anos, em todo o Brasil, buscando entender a relação da população com os militares, que têm assumido postos-chave na vida pública, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL). Segundo Alcoforado, a ideia de mensurar o impacto que a volta dos militares poderia ter junto à população surgiu a partir dos levantamentos que mostraram o número de cargos ocupados por pessoas oriundas das Forças Armadas, na ativa e na reserva. De acordo com alguns desses levantamentos, além de sete ministros egressos das Forças Armadas, o governo Bolsonaro ampliou a presença de militares no segundo e terceiro escalões.

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No segundo escalão, pelo menos 15 deles estão no cargo de secretário, e alguns podem substituir titulares em pastas como Defesa, Cidadania e Segurança. “A pesquisa surge a partir da necessidade que tivemos de entender a quantidade de militares no governo do Bolsonaro. Isso tem causado um alarde muito grande na imprensa, mas a população está tranquilíssima”, diz Alcoforado. Ele cita como exemplo a viagem de Bolsonaro a Davos, na Suíça, e a cirurgia que o presidente sofreu no fim de janeiro para a retirada da bolsa de colostomia. Nas duas ocasiões, o vice-presidente, Hamilton Mourão, assumiu a Presidência interinamente.

“Em alguns setores, causou um certo sobressalto a presença de um militar na Presidência da República, depois de tanto tempo. Mas isso não aconteceu entre as pessoas que ouvimos na pesquisa”, diz. Os resultados mostram que, para 29% dos brasileiros, as Forças Armadas estão relacionadas ao conceito de patriotismo. Somente 6% dos entrevistados apontaram que os militares e a ditadura têm alguma relação. “Isso reflete a forma como os brasileiros se relacionam com a história”, afirma Alcoforado. Ele assinala que, diferentemente do que aconteceu em países como a Argentina e o Chile, o Brasil fez uma anistia que beneficiou a todos os lados envolvidos nos conflitos durante a ditadura.

Até mesmo quando a Comissão da Verdade, criada pela então presidente Dilma Rousseff para investigar crimes praticados por militares a partir do governo de Getúlio Vargas, fez um amplo levantamento de casos, o resultado não trouxe consequências, acredita o antropólogo. “Os arquivos militares no Brasil sumiram ou estão fechados, e ninguém quer saber o que se passou. Os brasileiros são orientados para pensarem apenas no futuro.” Do total de entrevistados, 51%, incluindo quem não tem relação com as Forças Armadas, disseram ter muito interesse pelo assunto.

Isso inclui desde interesse pela carreira e formação militar até operações em que eles são protagonistas, como a intervenção no Rio. Outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores, diz o antropólogo, diz respeito à maneira como as Forças Armadas são retratadas pela mídia. Do total de entrevistados, 44% gostariam de ter mais informações e conhecimento sobre os militares, e 39% dos entrevistados apontaram que a cobertura tem viés negativo e discordam desse ponto de vista. “Os entrevistados acreditam que a imprensa não trata os militares de forma positiva, apesar do bom conceito que eles têm na população.”

  • Com informações do site valor Econômico, por Monica Gugliano




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