Pioneiros Brasileiros na Antártica: Os navios.

Foto do NApOc H-42 “Barão de Teffé” em sua chegada a Antártica em 1982. Autor desconhecido(provavelmente um dos tripulantes do helicóptero embarcado no H-42) Imagem via Marinha do Brasil.
Por: Yam Wanders
 
Dando sequência à série “Pioneiros Brasileiros na Antártica”, dessa vez descreveremos um pouco da história das embarcações que tornaram possível a aventura brasileira no Continente Antártico, pois como a iniciativa foi organizada pela Marinha do Brasil, nada mais certo que ir até a Antártica de navio devido também às exigências das grandes quantidades de volumes/tonelagens necessárias para o objetivos das missões. Vale ressaltar que ainda hoje todo o PROANTAR é de responsabilidade da Marinha do Brasil* e apoiada em parte pela Força Aérea Brasileira quando da necessidade e/ou possibilidade das operações aéreas de suprimentação e transporte de pessoal para a EACF – Estação Antártica Comandante Ferraz, com as aeronaves efetuando o pouso na pista da base chilena Pres. Eduardo Frei Montalva, a única da região que possui um aeroporto e é a mais próxima da base brasileira.


Rara foto dos dois navios juntos na Antártica, de autor desconhecido. Imagem via Marinha do Brasil.
 
Dois foram os navios  utilizados para a primeira missão brasileira na Antártica em 1982 (Partida do Rio de Janeiro no dia 20 de dezembro de 1982, sendo o verão austral 1982/1983), chegando ambos ao largo da Ilha Rei George no dia 5 de janeiro de 1983 e ambos fundeando ao largo da estação polonesa “Arctowiski”. E sendo eles, por ordem de antiguidade**; o NApOc  H-42 “Barão de Teffé”, da Marinha do Brasil e o NOc Prof. W. Besnard, da Universidade de São Paulo (Instituto Oceanográfico da USP). Ambos chegaram juntos à Antártica e realizaram o transporte de militares e civis engajados na missão “OPERANTAR I”, e, uma das proezas também realizadas nessa missão foi a primeira operação de helicóptero da Marinha do Brasil na Antártica, com decolagem a partir do NApOc “Barão de Teffé”.
 
*Como se preconizara inicialmente, as tarefas que competiriam foram atribuídas à Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), com sua secretaria executiva, a SECIRM, conduzida pelo Ministério da Marinha;
1981- Com a decisão adotada pelo Governo em 1981, de enviar uma expedição brasileira à Antártica, adquiriu-se à Dinamarca um navio polar, Thala Dan, que recebeu, no Brasil, a classificação de Navio de Apoio Oceanográfico e o nome de Barão de Teffé (Ref. https://www1.mar.mil.br/dhn/node/93);
** Uma Observação importante é destacar a atividade oceanográfica do NOc “Prof. W. Besnard” desde junho de 1967, quando de sua viagem para o Brasil logo após seu batismo com o nome atual, e, o NApOC “Barão de Teffé” somente começou sua vida operacional na Marinha do Brasil em 1982. Porém o “batimento de quilha” dos mesmos tem uma grande diferença de tempo, sendo que o “Barão de Teffé”  teve seu batimento de quilha em 1957 e o “Prof. W. Besnard” em 1966.
 
O NApOc H-42 “Barão de Teffé”
O NApOc H-43 “Barão de Teffé” fotografado em 1993. Foto de autor desconhecido. Imagem via marinha do Brasil.
O Navio de Apoio Oceanográfico Barão de Teffé foi no início de sua vida operacional batizado como “M/S Thala Dan”,  foi um navio do tipo quebra-gelo com a função de apoio oceanográfico da Marinha do Brasil. O nome do navio homenageia o diplomata, geógrafo, político e Almirante brasileiro Antônio Luís von Hoonholtz (1837-1931). Foi construído pelo estaleiro Aalborg Vaerft, de Aalborg, na Dinamarca, como cargueiro polar pelo armador J. Lauritzen A/S, que o operava no apoio aos estabelecimentos dinamarqueses na Groenlândia e as expedições australianas e francesas a Antártica. Foi lançado ao mar em 8 de maio de 1957 e entregue em outubro de 1957. Foi adquirido pela Marinha do Brasil  a J. Lauritzen por US$ 3.5 milhões, no mês de maio de 1982, e sendo então convertido para atividade de pesquisas em região antártica. Foi incorporado à MB em 28 de setembro de 1982, em cerimônia realizada na cidade de Aalborg, na Dinamarca. Foi o primeiro navio da MB capaz de operar em regiões de mares glaciais. Assumiu o comando do mesmo, o Capitão-de-Mar-e-Guerra Fernando José Andrade Pastor Almeida.
Uma das raras fotos do “Thala Dan”, nome anterior do “Barão de Teffé” antes de ser incorporado a MB. Na foto de ano desconhecido, enquanto operava pela Danish J. Lauritzen A/S Lines como quebra-gelo e cargueiro na ANARE (Australian National Antarctic Research Expeditions). Foto de Niels Eyde Hansen via Shipspotting.com .

Em 1975 o já batizado “Barão de Teffé” passou por um grande período de modernização, em Frederikshavn, Dinamarca, e além de outras melhorias diversas, a sua superestrutura foi acrescida de mais um convés. Chegou ao Rio de Janeiro em 18 de novembro de 1982, atracando no cais Norte do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, passando a subordinação da Diretoria de Hidrografia e Navegação. E um mês depois em 18 de dezembro, o Presidente da Republica João Baptista de Figueiredo foi recebido a bordo pelo Almirante-de-Esquadra Maximiano Eduardo da Silva Fonseca, Ministro da Marinha na época, para a apresentação da embarcação. No dia 20 dezembro à exatas 09:00 horas, o “Barão de Teffé” parte do Rio de Janeiro, iniciando a Operação ANTÁRTICA (OPERANTAR I), no verão austral 1982/83, missão essa com duração de 58 dias. Na viagem de ida, escalou em Santos-SP, Rio Grande-RS e nas Ilhas Shettlands do Sul. Essa comissão representa historicamente a primeira missão operacional do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).
 
Uma rara foto de boa qualidade do “Thala Dan”, que poucos sabem, mas operou como navio de suprimentação ao programa Antártico Australiano ANARE (Australian National Antarctic Research Expeditions). , operando à partir de Melbourne (Austrália) e Hobart (Tasmânia) em apoio as atividades polares da Austrália, França e Antiga URSS. Foto de Chris Howell ShipSpotting.com via Blog Maitres du vent.
 
O NAoC H-42 “Barão de Teffé” ainda participaria das comissões OPERANTAR II, III(OPERANTAR III a mais longa de todas com duração de 5 mses), IV, V, IX, XI e XII. E no ano de 1994 logo após o término da OPERANTAR XII o “Barão de Teffé” é reclassificado como “Navio Faroleiro”, porém foram mantidas todas as características que permitiam a operação em mares antárticos, para caso houvesse necessidade. Sua última missão de alto mar foi a “POIT 94”, efetuando a re-suprimentação do Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade e arquipélago de Martins Vaz. Após isso, o “Barão de Teffé” passa por um período de manutenção mais detalhada e é empregado efetivamente na função de “Navio Faroleiro” até sua desativação definitiva em 23 de julho de 2002, com baixa do serviço pelo Aviso de 12/07/2002, sendo submetido a Mostra de Desarmamento.
  
O “Thala Dan”, nome anterior do NApOc “Barão de Teffé” que já operava em atividades na Antártica no apoio da  ANARE (Australian National Antarctic Research Expeditions). Imagem: Autor desconhecido, via Swire Mariners Association.
 
Estaleiro Aalborg Vaerft, Dinamarca[1]
Lançamento 8 de maio de 1957
Comissionamento 28 de setembro de 1982 (Marinha do Brasil)
Descomissionamento 23 de julho de 2002
Patrono Almirante Antônio Luís von Hoonholtz
Outro(s) nome(s) M/S Thala Dan
Características gerais
Classe Barão de Teffé
Deslocamento 2 164 (grt) [2]
Tonelagem 5 500 t (carregado)
Comprimento 82,1 m
Boca 13,7 m
Calado 6,3 m
Propulsão 1 motor diesel de 7 cilindros gerando 1.970 bhp, acoplado a 1 eixo com hélice de passo controlável
Velocidade 12,5 nós
Autonomia 60 dias de autonomia
Armamento desarmado
Sensores 2 radares de navegação
Aeronaves 2 helicópteros
Tripulação 70 tripulantes, mais equipe de cientístas
Notas
equipado com consultório medico e dentário, laboratórios
O NOc Professor W. Besnard 
 
Besnard, um ícone na história da oceanografia brasileira. Com quase 50 metros, transportava 22 tripulantes e 15 pesquisadores, e tinha autonomia de 15 dias – Foto: Francisco Luiz Vicentini Neto via IOUSP.
 
O nome do navio do IOUSP é uma homenagem ao pesquisador que fundou e dirigiu o IOUSP por 14 anos, o professor Wladimir Besnard, que morreu antes que o navio chegasse ao Brasil. O NOc “Prof. W. Besnard participou ativamente das missões OPERANTAR I até a V, efetuando diversas atividades de pesquisas nos campos da meteorologia, da oceanografia física e da biologia marinha, sempre acompanhando o NApOc “Barão de Teffé” da Marinha do Brasil.
 
Desenvolvimento e tecnologia brasileira
 
O projeto preliminar do navio foi encomendado ao Escritório Técnico de Construção Naval da Escola Politécnica da USP pelo próprio Prof. Besnard. Sob a supervisão do Almirante Yapery Tupiassu de Britto Guerra, que também participava do Conselho do IOUSP, a tarefa coube a alunos do quinto ano como trabalho de conclusão da primeira turma de engenheiros navais da POLI, formada em 1959. As equipes das duas instituições se reuniram e ficou acertado que seria construída uma embarcação que reunisse as características de navio oceanográfico e de pesca. Também foi decidido que o projeto seria examinado por autoridade reconhecida na área. Por indicação da FAO, foi contratado o engenheiro Hans Zimmer, da Noruega.
Construção do navio Prof. W. Besnard, em Bergen, na Noruega – Foto: Acervo IO
 
O plano de linhas deu origem a um modelo reduzido, cujo sistema de propulsão foi testado no tanque de provas do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), sob a orientação do engenheiro Aldo Andreoni e com a colaboração de outro engenheiro naval formado na primeira turma da POLI, Vicente Maria Antonio Verrone.Em 1962 foi aberta a consulta pública para aquisição do navio, a partir da qual foi escolhido o estaleiro A/S Mjellem Karlsen, em Bergen, Noruega, a quem coube o projeto final da embarcação. O navio foi adquirido pelo Governo do Estado de São Paulo através da USP. O contrato de construção foi assinado dois anos depois através do  governo do Estado de São Paulo, na época, ocupado por Adhemar de Barros; e por Luiz Antonio da Gama e Silva, reitor da USP. Representaram o estaleiro, os senhores José Oliveira e Leif Christen Sveaass.
Casco ao mar
 
Em 18 de agosto de 1966, pouco mais de dois anos depois de assinado o contrato de construção, o casco do navio oceanográfico foi lançado ao mar. Nesta data o esqueleto da embarcação foi transferido da cidade de Thondhein (também na Noruega), onde o casco foi construído, para o estaleiro em Bergen, de modo a ter a obra concluída. No ano seguinte, em 05 de maio de 1967, já pronto, o navio foi batizado com o nome Prof. W. Besnard. No final daquele mês de maio, no dia 30, foi realizada a solenidade de troca de bandeira do navio, com o Brasil sendo representado pelo presidente da comissão responsável pelo projeto, o Almirante Yapery Tupiassu de Britto Guerra. 

No dia seguinte teve início o cruzeiro experimental que saiu de Bergen com destino às ilhas Faeroes e Shetland, próximas ao estaleiro, para por à prova os equipamentos. Nesse trecho as condições de mar são consideradas difíceis e, na ocasião, ficaram ainda mais complicadas por causa do mau tempo. Para essa viagem inaugural a companhia de navegação Lloyd Brasileiro forneceu a guarnição, com 23 tripulantes, sob as ordens do comandante Hélio Martins de Andrade, além de técnicos e pesquisadores. Testado e aprovado, o Besnard retornou ao estaleiro em 03 de junho. Ali nascia a convicção de que o navio do IOUSP seria uma embarcação extremamente estável, apesar do jogo que afeta os mais sensíveis.
A cerimônia de batismo do Besnard, em Bergen – Foto: Acervo IO
 
A viagem do navio para o Brasil representou também sua primeira expedição científica – a VIKINDIO, anagrama derivado da junção das palavras: Viking (guerreiros-marinheiros que são parte intrínseca da história da Noruega) e índio (o povo nativo do Brasil). O navio saiu de Bergen em 10 de junho. Exatos sessenta dias depois, em 09 de agosto de 1967, o N/Oc. Prof W. Besnard aportou em Santos, cercado de muita expectativa e festa. Não foi uma viagem direta ao Brasil. Ao longo do percurso, foram sete escalas cercadas de histórias curiosas. Ao norte da África a poeira do Saara cobriu o Besnard de vermelho, obrigando uma lavagem completa da embarcação. A primeira escala do Besnard na costa brasileira foi em Recife (PE). Como a embarcação era curta, ao invés de ir para os armazéns, foi deslocada para um pequeno porto que dá acesso direto a uma praça da cidade. A segunda escala foi em Vitória (ES), antes da chegada definitiva em Santos, onde fica a base operacional do navio até hoje.

Desde sua primeira viagem inaugural para teste, o N/Oc. Prof. W. Besnard navegou mais de 3.000 dias. Durante os primeiros 23 anos, o navio navegou sem interrupções. Em abril de 1989 foi para o estaleiro para sua primeira reforma, só voltando a navegar em novembro de 1991. As obras custaram Cr$ 80 milhões, com verba proveniente da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM); da Secretaria de Ciência e tecnologia, atual Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT); do CNPq; e da Companhia de Seguros do Estado de São Paulo (COSESP). Outro período longo durante o qual o Besnard ancorou para reformas foi entre maio de 1994 até 1997, quando retomou os trabalhos no mar.
 
Vida operacional
 
Desde o início de suas operações, o N/Oc. Prof. W. Besnard realizou mais de 260 cruzeiros oceanográficos, atuando em uma extensa relação de projetos e trabalhos de ponta. Em 1982 o Besnard enfrentou o grande desafio de atuar como o principal laboratório do Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR). 
Foto da equipe Proantar I, publicada em Diário de Bordo, nº esp., ago/06, p. 31. – Foto: Acervo IO
 
O navio rumou para as águas geladas da Antártica mesmo sem ter a estrutura adequada para vencer as colunas de gelo, tendo o caminho aberto pelo N/Oc. de Apoio Barão de Teffé, da Marinha Brasileira, contribuindo decisivamente para o ingresso do Brasil como membro pleno do Conselho Consultivo do Tratado da Antártica, que congrega um restrito grupo de países. A embarcação participou de todas as campanhas realizadas no continente antártico até o verão de 1987/88, quando as atividades do Besnard na região foram encerradas. Ao longo de sua atuação, o navio participou de outras importantes pesquisas no Brasil e também de projetos internacionais.
Uma das ultimas imagens da ponte de comando do NOc Prof W. Besnard em 2014.
Foto de Márcio Fernandes via O Estado de São Paulo.
 
Saiba mais acessado o link: 
http://www.io.usp.br/images/Embarcacoes/cruzeiros_oceanograficos.pdf

Sobre o NOc Prof W. Besnard, site do IOUSP, com informações muito mais detalhadas e históricos completos
http://www.io.usp.br/index.php/embarcacoes/n-oc-prof-w-besnard/apresentacao
 
Imagem via IOUSP. 
Características Gerais
Prefixo: PS 4461
Comprimento: 49,35m
Boca máxima: 9,33m
Calado carregado: 3,60m
Deslocamento: 575 toneladas métricas (leve)
674 toneladas métricas (carregado)
Velocidade máxima: 12,5 nós
Velocidade de cruzeiro: 11 nós
Combustível: 88 mil litros
Autonomia: 15 dias
Tripulação: 22 tripulantes
15 pesquisadores
Laboratórios: 04 Laboratórios contíguos – úmido, seco, químico e de temperatura constante, situados no convés principal e próximos ao local de coleta de dados e amostras
Máquinas
01 motor MCP Deutz TBD 616 V16
02 motores de centro auxiliares (geradores) NEBB 125KVA, tipo WAD 700/10C (110 e 220 Volts)
01 Gerador de emergência MAN
Ar condicionado central
02 Câmaras frigoríficas de rancho
03 Câmaras frigoríficas para uso da pesquisa
Imagem via IOUSP.
Equipamentos fixos de pesquisa:

Perfilador acústico de correntes (ADCP) RDI – VM BB 150kHz
Ecobatímetro Simrad EK 500 com ecointegrador, 38/120/200 kHz
Ecobatímetro hidrográfico Simrad EA 500, 12/200 kHz
Termossalinógrafo Sea Bird SBE 21
Agulha giroscópica digital SG Brown Meridian
Estação meteorológica automática Campbell
Sistema de aquisição de dados em tempo real dos parâmetros de salinidade e temperatura à superfície, dados meteorológicos (intensidade e direção do vento, temperatura e umidade relativa do ar e pressão barométrica), posição GPS, rumo do navio e profundidade* 

*Desenvolvido pelo Laboratório de Instrumentação Oceanográfica do IOUSP (LIO)
 
Galeria de imagens do NOc Prof. W. Besnard.

Visita efetuada em 2015 pelo autor do artigo, Yam Wanders durante uma pesquisa de campo no Porto de Santos.
 
Referências bibliográficas:
Publicações Marinha do Brasil, PROANTAR/OPERANTAR
Publicações/site do IOUSP – Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.
Documentário “Antártica – A última fronteira, 1984. TV Manchete.

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