Porque grandes áreas em alguns países são censuradas no Google Earth

Plateau de Albion na França, uma base desativada da era da Guerra Fria, permaneceu por anos abandonada e hoje volta ao mistério ao ser reaproveitada pela Legião Estrangeira.
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Por: Redação OD Europa.

De carros autônomos a lixeiras inteligentes, o posicionamento global por satélite (GPS) está decisivamente mudando o mundo ao nosso redor, mas quanto mais a Terra se torna acessível a partir de nossos teclados, mais grupos querem afastar os olhares indiscretos sobre eles.

Uma rápida pesquisa no Google nos mostrará muitos artigos on-line que listam lugares escondidos – seja uma pixelização na França [1], uma discrepância nos níveis de resolução das imagens na fronteia México/Estados Unidos [2], ou manchas escuras [3] que encobrem a base naval inglesa de mísseis nucleares.

A imagens na fronteia México/Estados Unidos [2]

Pesquisas feitas pela ABC (que publica esta reportagem) sobre o sul do Tibete utilizando o modo satélite do Google Maps, por exemplo, mostram inexplicáveis retângulos cinzentos sobre certas áreas – com uma retângulo escondendo toda a aldeia tibetana de Guwacun [4].

Seja um erro ou algo feito intencionalmente, Amy Griffin, professora titular de ciências geoespaciais da Escola de Ciências da Universidade RMTI [A], diz que não devemos culpar o Google imediatamente.

“O próprio Google, provavelmente, não se importa com os locais que você pode ver, é o relacionamento com outras instituições que impulsiona o que é retirado”, disse Griffin à ABC.

“Esses pedidos são feitos geralmente por governos de vários gêneros, porque eles têm algum tipo de instalação que eles não querem necessariamente que sejam tornadas públicas – e eles não fazem esforços para disfarça-las na paisagem”.

“Com o grande número de satélites ao redor do planeta, é razoavelmente difícil esconder as coisas em comparação com a forma como as coisas costumavam ser”.

Para começar a entender o que leva as pessoas a esconder coisas em mapas digitais, vale a pena dar um passo atrás para entender como a cartografia ocorre hoje.

Em uma era pré-digital, os topógrafos tinham que percorrer a pé um caminho para fazer medidas e gravar a localização das coisas em seus lugares específicos, que seriam então repassadas a um cartógrafo – geralmente um funcionário de algum serviço cartográfico governamental.

Então, quando o voo se tornou mais comum, os serviços topográficos iniciaram a prática da fotogrametria, em que imagens estereoscópicas – pares de imagens que são ligeiramente deslocadas uma das outras – eram comparadas usando um estereoscópio, que então embasavam a criação de um mapa mesmo sem ter ido ao terreno.

Hoje, esse processo é totalmente automatizado, já que gigantes da tecnologia como o Bing, o Google e a Apple utilizam algoritmos que captam os dados de satélite e medidas do terreno de uma variedade de conjunto de dados para manter os dados atualizados – o que significa que eles podem se apoderar das informações de órgãos cartográficos governamentais.

A Dra. Griffin explicou que, em 2016, a Coréia do Sul ofereceu seus dados cartográficos do estado ao Google, com a condição de que não exponha sites militares sensíveis em alta resolução, mas a empresa recusou.

O valor de imagens de satelite abertas se mostrou claro na crise da fronteira da Venezuela.

Isso não impediu o Google de mapear o país nos modos satélite e street view.

“O serviço de mapas do Google na Coréia do Sul é muito mais pobre do que em muitos outros lugares porque não tem a mesma qualidade de dados que o impulsiona”, disse ela.

Embora os países ainda reservem o direito de reter dados cartográficos, o número de empresas estatais e privadas que vendem imagens de satélite, torna o ato de esconder alguma parte do globo uma tarefa incrivelmente difícil.

O professor Anthony Stefanidis, diretor do Centro de Investigações Criminais e Análise de Redes da Universidade George Mason [B], disse que isso dá às empresas de tecnologia a “capacidade de impactar a geopolítica em escalas inéditas”.

“Mesmo que o Google opte por pixelizar uma área específica, existem vários sites e fontes alternativas que fornecem essa informação”, disse ele.

Hoje, é mais provável que uma censura cartográfica seja exibida como áreas borradas com deliberada baixa resolução de pixelização sobre áreas, ao invés de marcas pretas sobre um texto, em um documento oficial.

Todo o país de Israel aparece em baixa resolução, já que é ilegal desde 1998 que empresas norte-americanas distribuam imagens de satélite de alta resolução do país.

Mas Israel tem todo o peso do apoio de Washington por trás disso, enquanto aliados americanos mais marginalizados, como Taiwan – cujo poder geopolítico é frequentemente dominado pela China continental – nem sempre são privilegiados.

Recentemente, as ferramentas de mapeamento 3D do Google revelaram inadvertidamente uma instalação militar taiwanesa que abriga mísseis American Patriot – mísseis que já enfureceram a China.

Em resposta, o South China Morning Post informou [a] que as autoridades de defesa de Taiwan pediram oficialmente ao Google para desfocar os locais, e o Ministro da Defesa Yen De-fa tentou tranquilizar os cidadãos dizendo que o local de uma base militar não significa igualmente a sua posição fixa”, em tempos de guerra”.

Hoje, os usuários do Google podem aumentar o zoom [5] nos canhões que transportam os mísseis.

Os comentários do Ministro da Defesa ecoam tentativas anteriores de confundir os usuários de mapas, simplesmente deixando imagens antigas em circulação.

O Tonopah Test Range [C] Americano – uma subseção de uma instalação militar no deserto de Nevada, coloquialmente conhecida como Área 51 – foi encontrada sem uma única atualização do Google Earth em oito anos [b].

 

“Como esses gigantes da tecnologia carregam frequentemente um poder incontrolado, muitas pessoas tendem a difamar a imagem deles”, disse Stefanidis.

“[Mas] se alguém quiser obter uma verdadeira medida de censura deve considerar o fato de que [o presidente turco Recep Tayyip] Erdogan proibiu o acesso ao twitter para cidadãos turcos, enquanto a China tem mais ou menos o acesso proibido ao Facebook por quase uma década”, disse ele.

Mas os mapas nem sempre são como parecem

Embora os mapas on-line tenham feito melhorias consideráveis na precisão em comparação com os antigos mapas em papel, as duas formas ainda não podem ser consideradas artigos de fé.

“Um grande equívoco sobre mapas é que o que está no Google é 100% preciso… não é”, disse Griffin.

“A forma como os serviços de mapeamento constroem mapas nos dias de hoje pode levar a uma variedade de erros diferentes”, disse ela.

E algumas vezes esses erros são propositais.

Na China, serviços como o Bing, o Google e a Apple precisam utilizar um algoritmo de criptografia – uma ferramenta matemática eletrônica que encobre os dados topográficos que deslocaram propositalmente o local onde as coisas realmente estão.

Como resultado, a malha rodoviária aparece em cima de rios, enquanto os limites não coincidem uns com os outros.

Quando perguntado pela ABC sobre se o Google atende ou não a pedidos externos para bloquear propositalmente partes de seus mapas, um porta-voz do Google disse: “Estamos cientes de um problema com alguns blocos do Maps, e estamos investigando isso”.

Embora seja “mais difícil sair completamente da rede e ainda funcionar em um mundo moderno”, como explicou a Dra. Griffin, ela alertou que as questões de censura podem influenciar as implicações dessa era de vigilância tecnológica.

Base da Armée de l’Air de Amberieux en Bugei, na França, parcialmente censurada a pedido governamental.

“Uma das coisas que muitas pessoas não pensam conscientemente, é sobre o grau em que fornecemos a nossa localização para outras pessoas”, disse ela.

“Há cada vez mais empresas e governos que têm dados sobre nós, e isso precisa ser uma parte maior do nosso debate público”. 

[1] https://www.google.com/…/@48.3022596,-4.51799…/data=!3m1!1e3

[2] https://www.google.com/…/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0x812ac516…

[3] https://www.google.com/…/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0x0:0x4b00… 

[4] https://www.google.com/…/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0x39e795a2… 

[5] https://www.google.com/…/data=!3m1!1e3!4m5!3m4!1s0x345d5538…

[A] RMIT University’s School of Science: https://www.rmit.edu.au/…/our-educ…/academic-schools/science 

[B] Criminal Investigations and Network Analysis Centre at George Mason University: https://cina.gmu.edu/ 

[C] Tonopah Test Range: https://en.wikipedia.org/wiki/Tonopah_Test_Range

[a] Taiwan’s darkest military secrets revealed by Google Maps: https://www.scmp.com/…/taiwans-darkest-military-secrets-rev… 

[b] The One Place in the US Google Earth Stopped Mapping: https://motherboard.vice.com/…/google-earth-stopped-mapping…

Com informações via Noticias Cartograficas via Redação Orbis Defense Europa; 

https://www.facebook.com/noticiascartograficas/posts/2308246989419709?__tn__=K-R

Matéria original por Alan Weedon, em inglês ABC news:

https://www.abc.net.au/news/2019-02-21/why-large-parts-of-earth-are-censored-by-google-maps/10826024?fbclid=IwAR3XfyXoOR1T6e0npD9Xe_x1b-ugu-19Er2377xry9wHXvD2IClpTbPz62s

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