Possibilidade de guerra civil na França em 2020? OTAN já previu, e se prepara desde 2003

Art by Orbis Defense.

E após  semanas de polêmicas, que envolveram a comprovação do ataque de um militante islâmico na “Prefecture de Police” de Paris, o clima social e político na França é dos piores dos últimos tempos. 

O resultado do ataque do terrorista que foi infiltrado como funcionário no serviço de polícia, resultou na morte de 5 policiais, vários feridos graves, e,  o vazamento de milhares de informações secretas para movimentos jihadistas.

Somado à tudo isso ainda ocorreram greves de policiais e bombeiros, e estes acabaram por sofrer repressões violentas contra suas manifestações que denunciam os ingerenciamentos do governo em diversos aspectos que resultam em altos índices de criminalidade e terrorismo assimétrico no país. 

E durante uma reunião no Palace d’Elisée, o presidente Macron, finalmente usou em declaração pública*, uma expressão que até então era exclusiva dos seus adversários da extrema direita, após uma série de eventos significativos que provam a existência de um alarmante nível de desgoverno na segurança interna da França. 

Recentemente, o presidente Macron disse: 

“Devemos  evitar amálgamas ( sentimentos de vingança) entre questões de imigração, radicalização islâmica, comunitarismo e secularismo”… “essa fusão levaria certamente à uma guerra civil na França”.

A declaração, acabou sendo interpretada pela grande maioria da população, muito mais como uma afirmação de “mea culpa” do que uma idéia de apaziguamento…

Praticamente todos os veículos de mídias da França deram destaque para a polêmica declaração do presidente Macron sobre o tema “Guerra Civil”. Basta dar uma busca simples na internet e achar muito à respeito. Imagem print de matéria da France Info.

É de conhecimento internacional que a França hoje é um dos países mais violentos da Europa ocidental, sendo ela o primeiro país a ter cidades com “No go Zones” (áreas que a polícia e bombeiros não atendem ocorrências, e, são evitadas pela população em geral) e possui a mais alta taxa de crimes de todo tipo e atentados de terrorismo de massa e assimétrico, sendo que, 95% dos autores são comprovadamente de origem de países de doutrinação islâmica radical.

Apesar de estatísticas da União Européia posicionarem a França oscilando entre a 3ª e 4ª posição no ranking de criminalidade geral e terrorismo, a estatística é muito contestada por diversos setores políticos e sociais, e, denunciada pelos sindicatos de polícias e outras instituições como “manipulada”, e que não reflete a realidade da França em comparação com o resto da Europa Ocidental e do Leste.

O assunto ainda é considerado pelas grandes mídias como nefasto e fruto de “teorias de conspiração” da extrema direita; e o polêmico tema “Guerra Civil na França”, acabou por voltar à tona essa semana após a divulgação no meio de canais especializados e até mesmo em redes sociais, de um estudo da OTAN sobre a previsão em 2003, da preparação para um  possível cenário de conflito de baixa intensidade no território europeu, especificamente na França. 

Alarmismo, sensacionalismo ou ameaça real? 

Bem antes de tudo isso, já  em maio de 2016, o chefe da Direção Geral de Segurança Interna (DGSIPatrick Calvar, declarou na Assembléia Nacional (Congresso) que a França é um país “à beira da guerra civil” .

O chefe da inteligência francesa teria afirmado o fato incisivamente varias vezes aos deputados,  é o que revela o jornal Le Figaro e outros em reportagens da época, que foram tratadas como sensacionalistas.

O chefe da Direção Geral de Segurança Interna (DGSIPatrick Calvar declarou na época:

“O extremismo está em toda parte, e nós, como serviços do interior, estamos transferindo recursos para focar na ultradireita que está apenas aguardando confronto “, alertou. “Eu acho que isso vai acontecer. Mais um ou dois ataques e isso acontecerá. Cabe, portanto, a nós antecipar e bloquear todos esses grupos que desejam, uma vez ou outra, desencadear confrontos intercomunitários.”

Foi durante as audiências no âmbito da investigação parlamentar sobre os ataques de 13 de novembro de 2015 que Patrick Calvar teria evocado esse risco de guerra civil. Seu principal medo, um confronto entre diferentes movimentos extremistas, envolvendo franceses nacionalistas e populações de origens afro-islâmicas.

A informação está disponível em centenas de veículos das grandes mídias apesar das posteriores negações do então chefe da DGSI e de minimizações do governo. Efetuando pesquisas simples podemos encontrar farto material.

Se, por enquanto, as tensões permanecerem moderadas na França, o alto risco de ataques jihadistas poderia, segundo a DGSI, provocar um sentimento de desconfiança e revolta em relação ao Estado e criar um movimento de legítima defesa dos cidadãos. 

Patrick Calvar já anunciou, em maio de 2016, ao Comitê de Defesa da Assembléia Nacional, que a equipe de inteligência foi totalmente remanejada para o monitoramento de grupos de extrema direita por ordem presidencial.

Uma vigilância que acaba por negligenciar a segurança interna, que estava até então mobilizada na vigilância do movimento jihadista na França e evitando pelo menos dois atentados graves por mês de autoria jihadista.

Praticamente todos os atentados terroristas dos ùltimos anos tem como autores terroristas agindo na causa da jihad islâmica.

Fontes: 

O assunto “Guerra Civil” já é motivo de “Best Seller” literàrio na França

Em 2016 foi lançado no mercado literário da França o romance de antecipação “Guerilla” (Lawrence Obertone, Editora Ring). Grande sucesso de vendas desde seu lançamento, o romance “Guerilla” não se beneficiou da publicidade da mídia, por ser considerado uma obra influenciada por movimentos da extrema direita.

O livro dificilmente é encontrado nas livrarias francesas, mas é um dos mais vendidos pela Amazon e outras plataformas de vendas pela internet. 

O romance “Guerrilha” é a terceira parte de uma trilogia iniciada com os romances “A laranja Mecânica da França” e continuou com o “Big Brother da França”, lançados em anos anteriores e que descrevem a evidente degeneração da sociedade francesa causada pelos desgovernos de partidos que se intitulam como “adeptos de causas sociais e do progressismo liberal”.

Sobre a obra de Laurent Obertone podemos encontrar criticas de todos os tipos, mas poucos negam as possibilidades do cenário descrito na obra de ficção inspirada em estudos reais como o NATO Technical Report-071 AC/323(SAS-030)TP/35.

Na sinopse do livro, narra-se os três dias decisivos no estabelecimento de uma guerra civil na França; narrados do ponto de vista de vários personagens, caracterizando cada pessoa com um papel importante a desempenhar no mecanismo do país; policiais, sindicalistas, professores, propulsores, extrema esquerda, delinquentes, artistas, políticos, extrema direita, antifascistas, feministas, jornalistas, sobreviventes, terroristas islâmicos e dentre outros mais, anuncia o início de uma grave degeneração de todo o país e para o mundo, depois do inicio de conflitos de baixa intensidade que evoluem para uma guerra civil étnica, social e religiosa.

O choque de civilizações, uma nova ideologia dominante, o que o autor descreve é ​​uma guerra civil – e até mesmo uma guerra entre o campo judaico-cristão ocidental e a barbárie islâmica.

Tudo começa quando a Polícia invade um subúrbio para controlar gangues de traficantes de drogas. Enquanto a operação parecia mais banal, a tensão aumenta, vários criminosos tentam matar um dos policiais por espancamento, outros policiais reagem ao ver seu colega à beira de ser morto, matando vários criminosos. 

A polícia acaba por ser atacada por todos os lados. As gangues nos subúrbios se revoltam e desafiam o estado. O Islã político é dominado por sua própria base e se alia à rebelião das gangues. O poder estatal é derrubado em poucos dias, em parte por causa de seu próprio descuido. Massacres de civis tornan-se rotina macabra em todos os lugares de Paris.

Como resultado desse evento, as cidades explodem em chamas e o caos derruba toda a França, um país praticamente desprovido de eletricidade e saneamento básico, vítima de delinquência, terrorismo  onipresente e caos…

De acordo com diversas entrevistas e declarações do autor Laurent Obertone, o romance não é simples fruto de sua imaginação, mas resultado de cruzamento de informações de relatórios oficiais de órgãos governamentais de segurança da França, da Europa e até mesmo de outros países como Israel e EUA, incluindo o relatório ” NATO Technical Report-071 AC/323(SAS-030)TP/35″  que é analisado nessa matéria.

Link para a editora Ring e page de Laurent Obertone: 

O polêmico ” NATO Technical Report-071 AC/323(SAS-030)TP/35″ (PDF original disponível no fim da matéria)

O estudo em forma de relatório foi publicado pela  RTO– Research and Technological Organization (RTO StudiesAnalysis and Simulation Panel Study Group – RTO TR-071 AC/323(SAS-030)TP/35), e, foi solicitado pela OTAN  após as diversas situações observadas  na guerra da ex-Iugoslávia (1991 à 2001) e pedia uma previsão de; como, onde e porquê se daria um novo conflito em território europeu, mas sem o envolvimento direto contra países da ex-URSS, já que na época, era considerada remota a possibilidade que essas nações recuperassem rapidamente a organização e o  poderio bélico da era comunista. 

Intitulado “Operações em áreas urbanas no ano 2020”, o documento teoriza e analisa os desafios que as forças da OTAN enfrentariam, em um possível cenário de uma conflito de baixa intensidade, em meio urbano e semi-urbano na Europa.  O estudo foi desenvolvido  durante três anos de trabalho (solicitado em final de 1999, e publicado em abril de 2003), este relatório parte das seguintes observações: 

“A RTO da OTAN, concluiu que as forças dos países membros poderão realizar operações em áreas urbanas até 2020 ou depois”… “onde não-combatentes e infraestrutura serão critérios significativos para a análise da intervenção, dentro do caso de uma possível guerra civil dentro do território de algum país europeu ocidental”…”guerra civil esta, nascida de distúrbios civis graves, que se degeneraram em todas suas amplitudes, devido à falta de gestão adequada na segurança pública, do controle de fronteiras e imigração ilegal de grupos étnicos não europeus envolvidos com ideologias extremistas alheias aos valores europeus”, especifica o documento da OTAN.

Até hoje, a guerra na ex-Iugoslávia é considerado o conflito mais complexo que a OTAN jà se envolveu e que ainda é motivo de estudos de cenários para comparações e previsões aproximadas. As especulações gerais são que caso ocorra uma possível guerra civil étnica na França, o cenário serà quase idëntico ao da Ex-Iugoslávia nos anos 90. Imagem via Yugoslavia 1998 ethnic map pt.

Em suma, a idéia era pensar nos modos e meios de intervenção, e, estratégias a serem adotadas em caso de guerra urbana na Europa ou fora dela. O relatório estima que o modelo ainda em vigor na época, em 1999/2003, é o da Segunda Guerra Mundial “caracterizado por altos níveis de baixas e danos colaterais”.

Essas consequências são consideradas “inaceitáveis” no preâmbulo do relatório, e por isso orienta o estudo para alternativas de métodos para gerir uma crise do tipo quando ela ocorrer, de modo a causar o menor impacto possível para a sociedade civil durante as operações.

O relatório possui 125 páginas, e em sua reflexão, o grupo de estudo se opôs a dois modos de ação radicalmente opostos; O primeiro cenário “tradicional” consiste no “cerco, destruição e ataque frontal” de uma área urbana.

Para evitar essa brutalidade, usada em  Caen (Calvados) no verão de 1944, então o grupo desenvolve outra “doutrina”; O segundo, usar o esquema “entender, focar e engajar”, com aplicações específicas no campo de batalha: ataques cirúrgicos, isolamento e captura de grupos combatentes e elementos de liderança.

Uma solução aparentemente mais demorada para a resolução do conflito, mas que ofereceria um impacto mínimo ao território em que ocorresse, já que o cenário da previsão para tal conflito foi algum país da Europa ocidental.

Outro detalhe importante desse e de outros relatórios é a situação de defesa de ordem interna da Europa em um cenário hipotético onde o grosso do contingente da OTAN estaria empenhado em operações de dissuasão contra inimigos poderosos em fronteiras distantes (Russia e/ou Turquia?!?), ou, engajados em múltiplas operações no exterior (OPEX), que consumiriam muito dos recursos da OTAN e de seus aliados. Em base, o cenário se assemelha ao da obra de ficção “Red Dawn” de 1984** 

As causas especificadas; globalização e imigração descontrolada para a Europa

Nos capítulos 2.2.3 e 2.2.4 na página 05 está uma explicação de um dos muitos possíveis motivos para o eventual cenário dessa guerra civil hipotética; no relatório está deixado bem claro a previsão dos problemas que a globalização acelerada e o descontrole da imigração/migração de populações não europeias poderia trazer para a segurança interna da Europa.

Também está especificado a preferência da migração dessas populações para áreas urbanas, que já estão com exceção de população, e que essa situação aliada a não integração cultural, certamente traria o ressentimento das comunidades locais e regionais dos países onde esses fenômenos de descontrole de imigração ocorressem. 

O capitulo 2.2.4 página 04 e 2.3.2 página 05 do relatório. A descrição do inimigo…

Tomando por base os conflitos analisados na guerra da ex-Iugoslávia, da Chechênya, e outras do 3°mundo nos anos 90, todos foram potencializados pela ressurgência de conflitos de origens tribais, étnicas e religiosas, e que acabam evoluindo para cenários mais complexos e de maior abrangência territorial.

E especifica-se que, o inimigo a ser enfrentado nessa eventual guerra civil em território europeu, será um inimigo muito habituado aos cenários de guerra de guerrilha e outros métodos não convencionais.

Essas características seriam de grande vantagem para o inimigo, dada a falta considerada na época, de capacidades e experiência em conflitos de contra-insurgência que a OTAN ainda não dominaria até então. 

Em vários parágrafos diferentes existem citações para a principal característica do inimigo, como sendo; uma população oriunda de imigração não europeia, ou de descendentes de imigrantes não europeus, que mantém uma forte coesão devido às origens culturais, étnicas e principalmente religiosas.

E essa população acaba por exigir a autonomia e/ou independência do território que ocupam após um processo de organização de seus meios sociais e políticos, dentro do país no qual estarão presentes.

Anexo E, página E-1:

“2. General situation:

In 2015, ORANGE (Normandy areaseceded from YELLOW (covering loosely the area of Brittany and Normandyafter a short warand achieved StatehoodYELLOWcontained today in its former Southern halfhas never accepted nor recognised ORANGEThe population of ORANGE is divided into two different ethnic groupsseparated by religionhistory and culture and who are mutually antagonistic towards each otherNorth of the River SEINEthe NORTHERN ethnic group is dominant and holds all the important State posts in governmentadministration and the armed forces. South of the River SEINEthe SOUTHERN ethnic group represents a strong minoritysupported by YELLOW with increasing demands for annexation of its former LandsThe population is mixed in the two ORANGE main citiesROUENthe administrative capital and LE HAVREthe economic main centre of the state“.

Tradução:  “A população de ORANGE é dividida em dois grupos étnicos diferentes, separados por religião, história e cultura e que são mutuamente antagônicos entre si. Ao norte do rio SEINE, o grupo étnico NORTE é dominante e ocupa todos os cargos importantes do Estado no governo, administração e forças armadas. Ao sul do rio SEINE, o grupo étnico do sul representa uma minoria forte, apoiada pelo AMARELO, com crescentes demandas por anexação de suas antigas terras. A população é mista nas duas principais cidades da LARANJA: ROUEN, a capital administrativa e LE HAVRE, o principal centro econômico do estado “.

Observação: Aos bons interpretadores de textos e idéias, está bem desenhado o cenário que vemos atualmente na França, e que foi previsto em 1999/2003!

O que é a RTO ?

RTO (Organização de Pesquisa e Tecnologia) foi um órgão interno de pesquisas diversas da OTAN, com sede na França. A RTO foi formada em 1998 por meio da fusão do Grupo Consultivo para Pesquisa e Desenvolvimento Aeroespacial e do Grupo de Pesquisa em Defesa, mas oficialmente foi extinta em 2017 sendo transformada em STO (Science & Technologicl Organization).

A Organização de Pesquisa e Tecnologia da OTAN (RTO) promoveu e realizou pesquisas científicas cooperativas e troca de informações técnicas entre os 28 países da OTAN e 38 países parceiros. O maior órgão colaborativo do mundo, a RTO chegou a empregar mais de 3.000 cientistas e engenheiros de alto nível, que abordam o escopo completo das tecnologias de defesa.

RTO foi a principal organização da OTAN para ciência e tecnologia de defesa. Promovendo e realizando pesquisas cooperativas e troca de informações, desenvolve e mantém uma estratégia de pesquisa e tecnologia da OTAN a longo prazo e fornece conselhos a todos os elementos da OTAN em questões de pesquisa e tecnologia.

A organização também promoveu a cooperação entre os órgãos da Aliança e os países membros e parceiros da OTAN para maximizar o uso eficaz de modelagem e simulação. 

RTO chega a ser comparada em certo nível, com a RAND Corporation dos EUA, com a diferença que não é uma empresa privada, mas sim um organismo que pertenceu a OTAN no âmbito interno, mas convivendo diretamente com empresas privadas  para desenvolver suas pesquisas em ramos tão diversos quanto se pode imaginar, mas todos voltados para a guerra e seus planejamentos.

Hoje para a mesma função existe o STO, que foi criado por meio da fusão do RTO (Organização de Pesquisa e Tecnologia)  e do SRC (Centro de Pesquisa Submarino) da OTAN. Estes órgãos foram reunidos na sequência de uma decisão na Cimeira da NATO de 2010 em Lisboa de reformar a estrutura das agências da NATO.

Atualmente o STO  é o maior fórum de pesquisa colaborativa do mundo no campo da defesa e segurança, apoia a postura de defesa e segurança da OTAN e de seus parceiros por meio de pesquisa científica e tecnológica, com uma comunidade de mais de 5.000 cientistas ativamente envolvidos. A rede STO baseia-se na experiência de mais de 200.000 pessoas nos países aliados e parceiros.

Seu programa anual de trabalho inclui mais de 300 projetos que cobrem uma ampla gama de campos, como sistemas autônomos, guerra antissubmarina, veículos hipersônicos, radar quântico e até mesmo o impacto da mídia social em operações militares.

Links da RTO e STO da NATO/OTAN:

E se uma guerra civil estourasse na Normandia em 2020? Não se preocupe, a OTAN planejou tudo … (Resumo)

Pode ser qualquer região da França, ou ela inteira, mas nesse caso específico o ensaio se limita na região da Normandia como uma futura zona de guerra civil.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO/OTAN) imaginou que esse cenário em 2003 e que na época acreditariam que poderia ocorrer até 2020 ou depois, e a principio estudaram esse ensaio de situação hipotética para saber como agir se um dia o caso se tornar uma realidade.

Essa é a ideia do cenário imaginado em 2003, e, nesse ensaio ficcional, a região da Alta Normandia é cortada ao meio, com rebeldes instalados na região do l’Eure , apoiados pela população da Basse Normandie.

Os pesquisadores da OTAN imaginaram um cenário em que a região do Sena Marítimo é governado por um grupo étnico de origem não européia com forte coesão religiosa e cultural*,  que recebeu uma certa autonomia graças a políticas sociais do governo nacional, em oposição a outro de população nativa presente no Eure, apoiado pela Baixa Normandia. (*termos do relatório da OTAN)

As tensões, fortes desde a guerra e a secessão de 2015, atingem seu auge em 2019. Este é o ano em que “começa a rebelião do “grupo étnico do sul contra o norte”. As Forças Armadas de Orange (governo nacional) estão “à disposição do grupo étnico do norte”, apesar das “graves crises internas” causadas pela rebelião do sul. 

Para que seu cenário seja bem-sucedido, o grupo de pesquisa listou os pontos estratégicos a serem destruídos em caso de conflito entre o norte, mantido pelas Laranjas, e o sul, apoiado pelos Amarelos. Assim, os pesquisadores escrevem que “as pontes de Tancarville e Brotonne” devem ser as “primeiras a serem destruídas”. 

Quando o conflito eclode em 2019, os rebeldes conseguem rapidamente tomar posse de um território ao sul da zona laranja. Vasto de 572 km², essa que é considerada a “zona liberada”. As forças do governo falharam em dominar este território, assim como não podem neutralizar “os guerrilheiros urbanos em Rouen e Le Havre“.

Único sucesso nos ativos das forças legalistas: os grupos extra-urbanos foram derrotados.  Assédio de ataques de guerrilha  e ataques repetidos de rebeldes à infraestrutura da Orange têm um impacto no funcionamento econômico do país.

“Além dos danos à economia, a intensa violência dos combates causou êxodo de ambos os lados”, escrevem os pesquisadores. Mas, mais seriamente, eles observam a entrada na tabela de uma “comunidade de imigrantes” sediada em  Sainte-Adresse : 

A comunidade Violette, formada principalmente por trabalhadores portuários filhos de imigrantes de terceira geração, manteve a coesão interna por meio de sua cultura e religião. Por causa do desemprego, a comunidade pega em armas e pede ajuda às instituições de Laranjas.

Abandonados pelo governo central, os violetas estão organizados “em milícias armadas”. O grupo de pesquisa chega a exagerar ao màximo no exercício da imaginação, garantindo que “os violetas não hesitarão em usar mulheres e crianças como escudos humanos”.

No estudo de simulação da OTAN, o cenário hipotético é o noroeste da França, que hoje por coincidência é uma das regiões que mais sofre com o afluxo de imigração ilegal e concentração de comunidades islâmicas salafistas envolvidas com o terrorismo, perdendo apenas para a Paris metropolitana. Essa região atualmente é o ponto de barreira para milhares de imigrantes africanos que tentam atravessar para o Reino Unido mas acabam por ficar pela região. Imagem interna do NATO Technical Report-071 AC/323(SAS-030)TP/35.

Cessar-fogo e implantação de Capacetes Azuis

O grau de violência alcançado em 2019 obriga os beligerantes a negociar. De setembro a dezembro, legalistas e rebeldes se reúnem sob os auspícios das Nações Unidas em Genebra. Um cessar-fogo finalmente é alcançado, a partir de 1° de Janeiro de 2020. Ele inclui várias medidas:

– o estabelecimento de um  governo de unidade nacional que inclua figuras políticas do norte e do sul;

– o reconhecimento do partido político do sul como  um partido oficial  das laranjas;

– a realização de eleições em abril de 2021;

– a  liberação de prisioneiros;

– o retorno de  refugiados e deslocados . 

Em 15 de janeiro de 2020, uma força liderada pela OTAN é destacada, sob comando da ONU. As tropas enviadas para manter a paz, mantenedores da paz, são divididas em dois grupos: um para o norte e outro para o sul. Além disso, as ONGs serão convidadas à intervir. A importância dessas medidas é justificada no relatório: 

A situação das laranjas precisa ser estabilizada para impedir que este país se torne uma ameaça à paz e segurança da região. 

A situação assim dominada, o grupo de pesquisadores da RTO não exclui um aumento da violência, que pode ser causado por fatores internos e externos. Para que a paz seja mantida, a OTAN acredita que “todos os soldados beligerantes devem  se desengajar do serviço ativo”. Em sua missão, os Capacetes Azuis têm em particular a segurança de vários “pontos sensíveis”: 

– proteger os portos e aeroportos de  Dieppe e  Le Havre ;

– proteger  Rouen , como o principal eixo de comunicação entre o norte e o sul;

– organizar e garantir o fluxo logístico através do  Sena ;

– prepare o desembarque de tropas adicionais, simultaneamente em  Dieppe  e  Le Havre . 

– A missão da ONU e da OTAN, um fracasso total …

A Normandia voltou à paz graças à intervenção da comunidade internacional? Ainda não. Após o sucesso inicial da implantação dos Capacetes Azuis, as escaramuças se multiplicaram a partir de junho de 2020.  

Em julho, a coalizão internacional foi superada pelo “aumento do número de incidentes entre os dois grupos étnicos, que degeneraram em massacres, êxodos e destruição de infra-estruturas”.

Encurralado, o  Governo Laranja no norte, perdeu o controle do sul do Sena, invadida pelo Amarelo em 1° de agosto. Eles capturam  Rouen e invadem   Le Havre . O cessar-fogo está quebrado.

Rouen, dividida entre o grupo étnico do sul, na margem esquerda, e o norte, na margem direita, sofre uma onda de violência. O grupo étnico do norte, no poder até então, é alvo de “intimidação, extorsão, assassinatos e atentados”.

As forças de paz foram derrotadas e se retiraram, mas permanecem na região de Le Havre, mantendo o porto  de  Dieppe e  Honfleur . A situação é dramática em  Evreux  :

O batalhão de infantaria da OTAN estacionado ali é cercado e isolado pelos amarelos. Eles não têm liberdade de movimento. Todas as aeronaves de combate do esquadrão foram destruídas ainda no solo por Commandos.

Perante esta situação desesperadora, o comando planeja a retomada dos pontos de travessia do Sena, o desencadeamento dos soldados de Evreux e a retirada do Exército Amarelo em sua terra. 

Derrotados, soldados da OTAN se preparam para a reconquista

Para pôr um fim à invasão do território laranja pelo amarelo, a OTAN está se preparando para lançar uma ofensiva. Os pesquisadores localizam as tropas de combate dos Amarelos: 

Um batalhão de infantaria mecanizado circunda nossos soldados em Evreux. Dois desse tipo ocupam Rouen. Eles podem bloquear os eixos de  Tôtes  a Rouen , de  Dieppe  a Rouen , de  Maromme  a MontSaintAignan e Bois-Guillaume .

Além desses batalhões, as companhias de tanques estão prontas para atravessar o Sena para bloquear qualquer contra-ofensiva. Ao mesmo tempo, o porto de Le Havre é ameaçado por batalhões equipados com morteiros e lança-foguetes.

No entanto, as tropas amarelas não possuem “equipamentos de tecnologia avançada”. A coalizão internacional pretende recuperar os territórios perdidos pelas laranjas e implementar o cessar-fogo.

Em ordem, as tropas da OTAN devem garantir suas posições em Dieppe e Le Havre, recuperar Rouen, libertar Evreux e depois expulsar o país Amarelo Laranja. Para fazer isso, três opções são identificadas:

– Reforçada por unidades desembarcadas em Dieppe, a coalizão marcha em Rouen e captura suas pontes para avançar em Evreux e libertar os soldados isolados;

– Realizar uma operação anfíbia ao longo do Sena após um desembarque em Honfleur, para tomar Rouen e Évreux simultaneamente; 

– Avance para os  Andelys  para atravessar o Sena e atacar Rouen ou Evreux

A ofensiva foi lançada em 1 de st setembro de 2020. Com a adição de duas divisões – uma em Dieppe e Le Havre – apoiada por 40 multiuso aviões de combate e 40 aeronaves de transporte, a coalizão leva o campo. Apesar do fortalecimento das tropas amarelas em Rouen, a cidade cai no final de setembro. 

Os soldados presos em Evreux continuaram a resistir às forças amarelas que os cercavam. Eles são divulgados no início de outubro de 2020. O relatório não diz se as eleições previstas para abril de 2021 foram realizadas ou se as Laranjas recuperaram o controle total de seu território. 

Por que o RTO da OTAN escolheu a Normandia para imaginar esse cenário? O relatório misteriosamente não diz isso. Contactada por mim e diversos jornalistas e inclusive por colegas do jornal Actu Normandie (uma de minhas fontes), a delegação francesa na OTAN não quis responder às perguntas especificas  porque “este relatório é considerado muito antigo”. Por seu lado, ex-integrantes da RTO disseram que “não tem tempo para uma entrevista”. De certo estão muito ocupados imaginando o relatório de uma Terceira Guerra Mundial entre a França e o Brasil pela posse da Amazônia, talvez …  

Link para o documento completo “NATO Technical Report-071 AC/323(SAS-030)TP/35″:

* Declaração efetuada em 16/10/2019 efetuada em conversação com seus partidários políticos no Palácio do Eliseu na presença de diversos jornalistas presentes logo após a crise de denuncias de radicalização islâmica na Polícia de Paris, que causou a morte de 5 policiais em um ataque terrorista na Prefecture de Police de Paris.

(**filme conhecido no Brasil como “Amanhecer Violento”, de 1982, obra de ficção que descreve uma invasão dos EUA por uma coalizão liderada pela antiga URSS se aproveitando da fraqueza e ausência de tropas americanas em seu próprio território devido ao engajamento em múltiplos conflitos pelo mundo em uma 3a guerra mundial convencional).



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